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M5S, um novo partido “apanha-todos” e a esquerda à procura de credibilidade

A fuga do eleitorado de centro-esquerda para o Movimento 5 Estrelas e a hegemonia da direita xenófoba no centro-direita são a herança deixada por Renzi e Napolitano. Artigo de Salvatore Cannavò.
Luigi di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas. Imagem do Facebook do M5S

Os sinais eram evidentes para quem os quisesse ver. Cinco anos de governo indecoroso, compostos por arrogância, desfasamento da realidade, criação de um clima anti-imigração, políticas de austeridade, várias ordinarices, só poderiam terminar no resultado de 4 de março. A fuga de uma grande parte do eleitorado de centro-esquerda para um Movimento 5 Estrelas (M5S) que, no entanto, se torna cada vez mais num "partido apanha-todos" e a hegemonia da direita xenófoba no centro-direita.

Esta é a herança que Matteo Renzi, e com ele a presidência de Giorgio Napolitano, bem como a inanidade do velho grupo dirigente da esquerda italiana, deixam ao país. A arrogância do Secretário Pd (para quê?), juntamente com a manobra do palácio de Giorgio Napolitano, permanecerá nos anais como exemplos de idiotice política, baixeza trocada por subtileza, pequena sabotagem em vez de estadismo.

O voto no Movimento 5 Estrelas (M5S), a grande novidade, representa o voto em que cerca de 10 milhões de italianos se refugiaram, esperando que seja tão verdadeiro quanto Luigi Di Maio prometeu na manifestação final na Piazza del Popolo, afirmando que “ninguém será abandonado pela Estado”. A "soberania” à moda italiana poderia ser essencialmente isto,  e a medida que melhor a resume é o "rendimento básico de cidadania" que, se chegar ao governo, o Movimento prometeu lançar de imediato. Já não é apenas, portanto, a tendência que veio da última década: um voto contra "a casta", a intolerância, o desgosto e também o desejo de ver uma mudança na política, não só na italiana, mas europeia, que nunca muda. O facto de este novo voto vir de uma ida às urnas, com inesperada afluência, parece confirmar essa análise. 

Claro, na votação no M5S há também a chamada componente populista que recicla o discurso xenófobo de pessoas respeitáveis, essa idiossincrasia instintiva em relação aos imigrantes que ouvimos diariamente em qualquer discurso público. O M5S interpreta esse sentimento tentando moderá-lo, mas sem o contradizer, e este é o principal problema, mesmo para aqueles que, à esquerda, poderiam propor apoiar um possível governo de Di Maio. O qual, no entanto, há muito se posiciona como uma espécie de novo centro, uma baleia-amarela que está no centro do sistema político.

À sua direita há uma nova coligação, encabeçada já não por Berlusconi, mas pela Liga de Matteo Salvini. Em consonância com o que está a acontecer em toda a Europa, a Itália encontra-se assim com um possível governo soberanista e xenófobo.

À esquerda, mais do que o campo de Agramante, há apenas os escombros produzidos por um grupo de dirigentes historicamente narcisistas, ineptos e essencialmente incapazes. O fracasso de Matteo Renzi é evidente para a maioria e para aqueles que a ele se opuseram no seu partido, mas sendo responsáveis pelos falhanços do passado (D'Alema e Bersani), não têm credibilidade para apresentar uma alternativa. A candidatura de Pietro Grasso, então, mostrou-se lamentável e totalmente inadequada para a era moderna, enquanto o Potere al Popolo, para além da ilusão de poder refundar a esquerda por meio de eleições, não possui qualquer reflexão séria sobre por que motivo aqui chegámos e sobre como mudar as formas e conteúdos da ação política.

Assim, a Itália parece estar a dirigir-se para uma fase de instabilidade, mesmo que as classes dominantes, ou o que delas resta, se apressem a reciclar-se dentro das fronteiras dos "novos bárbaros". A linguagem dos populistas irá provavelmente ficar mais moderada para tentar aproximar-se do governo, e isso possivelmente ocorrerá no perfil e no futuro do M5S, o partido que, mais que os outros, é candidato para formar uma política moderna, líquida, na qual prevalece a delegação e em que a modernidade não é o rosto da presunção de Renzi, mas a "força tranquila” que oferece certezas e tenta estabilizar um sistema fora de controlo.

Para aqueles que ainda sentem pertencer à esquerda, resta um caminho: livrem-se dos velhos grupos governantes para trabalhar na reconstrução da credibilidade e confiança. Isso só será alcançado com uma implacável análise da realidade e do passado, com uma elaboração política atual e, acima de tudo, reconstruindo os fios subtis de uma nova solidariedade de classe.


Artigo publicado no jornal Il Fatto Quotidiano. Tradução de Erica Postiço para o esquerda.net-

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