Numa entrevista à televisão pública ZDF, o líder da União Democrata-Cristã (CDU) da Alemanha, Friedrich Merz, reafirmou no domingo a posição do partido de rejeitar acordos com a extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), mas com uma ressalva no que toca ao poder local. "Se o presidente da Câmara ou de um distrito que seja eleito pertencer à AfD, então evidentemente temos de encontrar formas de trabalhar nessa localidade", disse Merz, citado pelo Guardian, provocando um coro de críticas dentro e fora do seu partido.
As declarações surgem após a AfD ter conseguido eleger no fim de junho um governador no distrito de Sonneberg, no leste da Turíngia, e já este mês um presidente de Câmara da pequena localidade de Raguhn-Jeßnitz, no estado da Saxónia-Anhalt.
Uma das vozes críticas entre os conservadores alemães foi a do atual presidente da Câmara de Berlim, Kai Wegner, que questionou nas redes sociais "qual cooperação é suposto haver?", defendendo que "a CDU não pode, não quer e não irá trabalhar com um partido cuja matriz é o ódio, a divisão e a exclusão". Também o deputado Norbert Röttgen, que disputou com Merz a liderança do partido, alertou no domingo que a AfD "conscientemente admite e convida forças extremistas para o partido", concluindo ser inaceitável que a CDU trabalhe "a qualquer nível" com a formação de extrema-direita.
Por seu lado, o co-presidente da AfD, Tino Chrupalla, partilhou as declarações de domingo do líder da CDU, elogiando a vontade de acabar com o "cordão sanitário" imposto desde o mandato de Angela Merkel a frente dos conservadores. "Juntos iremos derrubar este muro nos estados e a nível federal", congratulou-se Chrupalla.
As críticas de que foi alvo levaram Friedrich Merz a recuar na segunda-feira, declarando nas redes sociais que "para clarificar mais uma vez, nunca disse outra coisa: a resolução da CDU é válida. Não haverá cooperação da CDU com a AfD a nível local".
A relação da CDU com a extrema-direita já levou à saída da sucessora de Merkel em 2020. Annegret Kramp-Karrenbauer abandonou o cargo por não ter conseguido impedir que os deputados regionais da Turíngia da CDU votassem ao lado da AfD e dos liberais do FdP para impedir que o candidato da esquerda voltasse a liderar o governo em 2020. A soma dos votos deu a maioria ao candidato dos liberais, que se demitiu no dia seguinte.