Obituário

Morreu Carlos Brito, histórico dirigente comunista e figura central dos “renovadores”

07 de maio 2026 - 22:52

Resistente antifascista preso e torturado durante a ditadura, Carlos Brito foi uma das figuras políticas mais destacadas do PCP, de onde foi afastado em 2002 pela sua defesa da linha “renovadora” do partido, que manteve até ao fim da vida.

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Carlos Brito
Carlos Brito. Foto RTP

Faleceu esta quinta-feira na sua casa em Alcoutim, aos 93 anos, o histórico dirigente comunista Carlos Brito. Nascido em 1933 na antiga Lourenço Marques, Carlos Brito foi um dos resistentes antifascistas com décadas de clandestinidade e oito anos nas prisões do Aljube, Caxias e Peniche. Foi um dos principais dirigentes do PCP ao longo de 45 anos, quinze dos quais a liderar a bancada parlamentar do partido, até ser afastado em 2002 com um processo de suspensão pela sua defesa das teses da chamada ala dos “renovadores”.

A rotura com o marxismo-leninismo e a linha política de Álvaro Cunhal, do qual fora em tempos o “braço direito”, não significou o abandono da atividade política, prosseguida através da Associação Política Renovação Comunista. Além da defesa da reconciliação entre os renovadores e as direções do PCP, apelou em diversos momentos à convergência das esquerdas.

A atividade antifascista de Carlos Brito começou no MUD juvenil no tempo de estudante e foi depois da primeira prisão, aos 20 anos, que se tornou militante do PCP. “Ao longo dos oito anos das minhas três prisões, conheci diferentes tipos de confinamento, desde a incomunicabilidade e o isolamento nas celas do Aljube, ao cruel regime de prisão celular no Forte de Peniche”, escreveu num depoimento publicado na série “Confinamento(s) em tempo de ditadura” pelo Esquerda.net durante a pandemia.

Confinamento acossado

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Viria a participar numa fuga da prisão do Aljube em 1955, mas foi novamente detido em 1959 e passou mais sete anos e dois meses preso. Segue para a URSS para um ano de formação política e regressa para prosseguir a organização do partido na região de Lisboa e no setor militar.

Em democracia, além de deputado e líder parlamentar, apresentou candidatura às presidenciais de 1980, com o PCP a desistir a favor de Ramalho Eanes. Foi diretor do Avante! Entre 1992 e 1998, regressando depois a Alcoutim. Publicou cinco livros de poesia e três de ficção, além de memórias biográficas.

Nas redes sociais, o coordenador do Bloco de Esquerda recordou Carlos Brito como “um nome incontornável da esquerda”.

“Vindos de sítios diferentes, os nossos caminhos cruzaram-se várias vezes. Construir pontes na Esquerda (assim com E grande) foi a tarefa da sua vida. Agradeço-lhe por tudo isso”, afirmou José Manuel Pureza.

O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências aos familiares e amigos de Carlos Brito.