Faleceu esta quinta-feira na sua casa em Alcoutim, aos 93 anos, o histórico dirigente comunista Carlos Brito. Nascido em 1933 na antiga Lourenço Marques, Carlos Brito foi um dos resistentes antifascistas com décadas de clandestinidade e oito anos nas prisões do Aljube, Caxias e Peniche. Foi um dos principais dirigentes do PCP ao longo de 45 anos, quinze dos quais a liderar a bancada parlamentar do partido, até ser afastado em 2002 com um processo de suspensão pela sua defesa das teses da chamada ala dos “renovadores”.
A rotura com o marxismo-leninismo e a linha política de Álvaro Cunhal, do qual fora em tempos o “braço direito”, não significou o abandono da atividade política, prosseguida através da Associação Política Renovação Comunista. Além da defesa da reconciliação entre os renovadores e as direções do PCP, apelou em diversos momentos à convergência das esquerdas.
A atividade antifascista de Carlos Brito começou no MUD juvenil no tempo de estudante e foi depois da primeira prisão, aos 20 anos, que se tornou militante do PCP. “Ao longo dos oito anos das minhas três prisões, conheci diferentes tipos de confinamento, desde a incomunicabilidade e o isolamento nas celas do Aljube, ao cruel regime de prisão celular no Forte de Peniche”, escreveu num depoimento publicado na série “Confinamento(s) em tempo de ditadura” pelo Esquerda.net durante a pandemia.
Viria a participar numa fuga da prisão do Aljube em 1955, mas foi novamente detido em 1959 e passou mais sete anos e dois meses preso. Segue para a URSS para um ano de formação política e regressa para prosseguir a organização do partido na região de Lisboa e no setor militar.
Em democracia, além de deputado e líder parlamentar, apresentou candidatura às presidenciais de 1980, com o PCP a desistir a favor de Ramalho Eanes. Foi diretor do Avante! Entre 1992 e 1998, regressando depois a Alcoutim. Publicou cinco livros de poesia e três de ficção, além de memórias biográficas.
Nas redes sociais, o coordenador do Bloco de Esquerda recordou Carlos Brito como “um nome incontornável da esquerda”.
“Vindos de sítios diferentes, os nossos caminhos cruzaram-se várias vezes. Construir pontes na Esquerda (assim com E grande) foi a tarefa da sua vida. Agradeço-lhe por tudo isso”, afirmou José Manuel Pureza.
O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências aos familiares e amigos de Carlos Brito.