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Confinamento acossado

O sentimento de perseguição e acossamento e a necessidade de lhe responder com firmeza estiveram sempre no meu espírito. Sentia-me em permanente combate. Era com este sentimento que procurava formas de ocupar a desocupação, que percebia ser uma tortura, uma arma insidiosa virada contra mim. Por Carlos Brito.
Museu do Aljube, reprodução de uma cela.
Museu do Aljube, reprodução de uma cela.

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Confinamento acossado

Nas prisões da ditadura fascista, o preso político era submetido a uma perseguição física e psicológica permanente, por isso as diversas situações de incomunicabilidade e isolamento que lhe eram impostas constituíam sempre um confinamento acossado.

Ao proceder à prisão de antifascistas, um dos fitos principais da PIDE era, à força da tortura, levá-los a falar, a trair, a denunciar os companheiros de luta, os locais de reunião, o sistema de ligações, a proveniência dos fundos, tudo o que lhe permitisse desarticular as organizações ou grupos de oposição, especialmente os clandestinos, como o PCP e, ao mesmo tempo, anular o próprio preso enquanto militante revolucionário ou simples adversário político do regime.

Os que continuavam presos, depois do período dos interrogatórios, passando ou não pela farsa de julgamento nos Tribunais Plenários e cumprindo a pena a que estes os tinham condenado, eram envolvidos numa teia prisional que estava organizada para abater as suas convicções e ideais e instilar-lhes um sentimento de arrependimento ou mesmo de remorsos pelos sacrifícios a que se tinham exposto e que atingiam de forma muito dura as próprias famílias. O principal objectivo, neste caso, era fazê-los abandonar a luta.

O movimento antifascista estava preparado para enfrentar esta estratégia pidesca e preparava os activistas para a contrariar. Mas a luta era tão dura que não faltavam os casos em que a pressão carcereira levava a sua avante.

Ao longo dos oito anos das minhas três prisões, conheci diferentes tipos de confinamento, desde a incomunicabilidade e o isolamento nas celas do Aljube, ao cruel regime de prisão celular no Forte de Peniche.

O sentimento de perseguição e acossamento e a necessidade de lhe responder com firmeza estiveram sempre no meu espírito. Sentia-me em permanente combate.

Era com este sentimento que procurava formas de ocupar a desocupação, que percebia ser uma tortura, uma arma insidiosa virada contra mim.

Na minha segunda prisão, Outubro de 1955, depois de duas sessões de tortura de sono de três dias cada, o inspetor, o torcionário Porto Duarte, perante a minha recusa de responder a qualquer pergunta sua, gritou-me:

 - Vai! Vai para o Aljube apodrecer nas celas!

Não apodreci, mas foram cinco meses muito difíceis de passar, em confinamento absoluto, num espaço exíguo e propositadamente com pouca luz para destravar o pensamento e provocar o delírio.

No primeiro mês, com as idas aos interrogatórios e à tortura e as vindas morto de sono, em estado de revolta, quase não dei pelo isolamento.

A partir do segundo mês o isolamento começou a pesar. Tinham-me tirado tudo, óculos, caneta, lápis, carteira, até os cordões dos sapatos. Não tinha nada com que me pudesse ocupar.

Estava confinado na cela 7, pouco mais comprida e pouco mais larga do que a cama, um bailique.

Como este era basculante, encontrei logo uma ocupação, levantá-lo todas as manhãs, a seguir ao pequeno almoço – uma zurrapa da cor de café, um pouco azeda, servida num púcaro de esmalte cheio de mossas e com um pão pequeno, quase sempre muito duro.

Com o bailique levantado, podia fazer um passeio de quatro passos, para um lado e para outro. A seguir lembrei-me de fazer ginástica e cada dia ia introduzindo novos exercícios. Com estas actividades e a ida à casa de banho, que demorava até o guarda me berrar, consumia-se uma boa parte da manhã.

Depois de almoço, que era só uma sopa de feijão e repolho, deitado no bailique, é que conversava com o companheiro da cela contígua, através das pancadas na parede, o conhecido morse prisional. Mas não podíamos demorar, o guarda andava atento.

Ficava assim muita tarde para preencher. Com a cabeça disponível, vinham-me ao espírito versos de vários poetas. Desde a adolescência sabia muitos de cor: dos Cancioneiros, de Camões, Bocage, Antero, Cesário, Pessoa, Florbela, Régio, Torga, Carlos de Oliveira.

Então lembrei-me de fazer os meus recitais, em voz alta. Era muito saudável, exercitava a memória e a voz. Usava um tom bastante alto. Logo no segundo, o guarda abriu-me a porta de repente e enfiou-se para dentro da cela. Devia ter pensado pensando que eu falava para qualquer espécie de rádio, mas vendo-me de mãos vazias, comentou:

- Ah!  Você é dos que fala sozinho!?

- Estou a recitar - respondi-lhe.

- Pode, mas mais baixo – Rematou ele.

Ao mesmo tempo que recitava poemas alheios, tentava compor de memória os meus próprios, e quando ganhavam forma aceitável incluía-os nos recitais. Conservei alguns e publiquei-os há uns anos com outros poemas da juventude.

Nenhuma destas actividades impedia, contudo, que a solidão desabasse sobre mim ao fim da tarde. Só costumava falar pelos toques na parede com o vizinho lado à noite, depois do recolher, quando o guarda se amanhava numa ponta do corredor e as conversas podiam ser demoradas. Tentei então fazer umas sessões de canto. Mas aí fui logo interrompido, com uma sentença definitiva:

- Não pode cantar.

Como todos os presos também moldei o miolo de pão. Tinha a vantagem de ser descendente de oleiros do lado materno. Quis fazer as peças do jogo de xadrez, mas quando andava a pensar como havia de pintar as pretas, foi-me anunciada que ia mudar de sala.

Depois de tantos meses sozinho, com o tempo a passar tão devagar, fui para uma sala, com quase 40 camaradas, - a sala 3 - onde o tempo passava a correr. Rejubilei, contudo, não sosseguei.

A sala foi a base principal de uma luta por melhores condições prisionais que envolveu toda a cadeia.

 A PIDE cedeu nalguns pontos reivindicados, no entanto, como represália, com a acusação de sermos os cabecilhas da luta, isolou seis funcionários do PCP no último andar do Aljube.

Aí instalados, com a ideia que trazíamos sempre na cabeça de que «a principal tarefa do comunista preso é recuperar a liberdade», analisámos as possibilidades de fuga e vimos que existiam.

Organizámos então uma fuga colectiva, de que fiz parte. 

Voltei a ser preso, em Junho de 1959. Desta vez, só passei pelo Aljube para me ser aplicado o castigo da fuga. Foram dois dias e duas noites sem enxerga, nem mantas, a dormir em cima da madeira do bailique, apesar de ter sido muito ferido ao ser preso. Nem assim escapei a 4 dias e 3 noites de tortura do sono. Seguiu-se o meu longo período de prisão, mais de sete anos, na sua grande parte em regime celular na Cadeia do Forte de Peniche.

Falo detalhadamente de todos os confinamentos a que estive sujeito nas Cadeiras da Ditadura, nos meus livros: «Tempo de Subversão, Páginas Vividas da Resistência», Edições Nelson de Matos, e «Cadeia do Forte de Peniche, como Foi Vivida», Aletheia Editores.

Carlos Brito
Renovação Comunista
02.05.2020


Todos os testemunhos do projeto "Confinamento(s) em tempo de ditadura", organizado por Mariana Carneiro, ficarão disponíveis aqui:
Confinamento(s) em tempo de ditadura

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