"Não me digam que Portugal tem tido más políticas no passado e que tem profundos problemas estruturais. Claro que tem, e todos têm, mas sendo que em Portugal a situação é mais grave que em outros países, como é que faz sentido que se consiga lidar com estes problemas condenando ao desemprego um grande número de trabalhadores disponíveis?", pergunta Paul Krugman no artigo publicado no seu blogue do New York Times, "Consciência de Um Liberal".
O artigo surgiu a propósito de uma reportagem do Financial Times a mostrar "um retrato profundamente depressivo sobre as condições de vida em Portugal" do ponto de vista dos negócios familiares. A partir daí, Krugman chama à responsabilidade políticos e economistas para que entendam as razões e as causas de "estarmos a permitir que este pesadelo se volte a repetir três gerações depois da Grande Depressão". Krugman entende que a última coisa que a Europa precisa é "uma situação em que a austeridade na periferia é reforçada pela austeridade também no núcleo" e volta a criticar a obsessão das políticas em relação aos "supostos perigos da dívida pública".
"Portugal não pode fazer as coisas por conta própria, porque já não tem moeda própria. OK, então: ou o euro deve acabar ou algo deve ser feito para fazê-lo funcionar, porque aquilo a que estamos a assistir (e os portugueses a experimentar) é inaceitável", defendeu o economista. Por exemplo, "uma expansão mais forte na zona euro como um todo", "uma inflação mais elevada no núcleo europeu" ou "uma política monetária mais flexível", contrariando o rumo seguido até agora pelo Banco Central Europeu.
As memórias de Krugman na Lisboa de 1976
Num testemunho pessoal que publicou em seguida, Krugman recorda a sua vinda a Portugal com outros quatro estudantes de pós-graduação do Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1976. No ano anterior, conta o economista, Silva Lopes era governador do Banco de Portugal e chamara professores do MIT para o aconselharem. Terá gostado da experiência e quis repeti-la, mas o MIT só esteve disponível para enviar Krugman e outros quatro estudantes, entre os quais Miguel Beleza. No ano seguinte viria Kenneth Rogoff, um dos economistas mais citados por Gaspar e outros defensores da austeridade, e que agora está no centro de uma polémica, também com Krugman, após a descoberta de falhas no seu artigo científico a sustentar que uma dívida pública elevada trava necessariamente o crescimento da economia.
"Para resumir, o país era fascinante, amável e ainda muito pobre" em 1976, afirma Krugman, contrastando essa imagem da Lisboa pós-revolucionária com a normalidade "um pouco decepcionante" que voltou a encontrar, no seu regresso, 25 anos mais tarde. "Mas essa normalidade era, como todos reconhecemos, algo maravilhoso: Portugal tinha saído de uma longa e conturbada história para integrar a decência básica do modelo social europeu", explica Krugman para concluir que "agora tudo isso está sob cerco".
"O projeto europeu, a construção da paz, democracia e prosperidade através da união, é uma das melhores coisas que já aconteceram à humanidade. É por isso que as políticas erradas que têm despedaçado a Europa são uma tragédia", conclui o economista, contrariando os que confundem as suas "críticas duras à troika" com algum sentimento antieuropeu.