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Júri escolhe “Los Reyes del Mundo” para Concha de Ouro em San Sebastian

Marco Martins fica arredado dos prémios. Tal como Jaime Rosales, Petr Václav e até Hong Sangsoo… Por Paulo Portugal, em San Sebastian.
Entrega da Concha de Ouro a Laura Mora Ortega, com o filme Los Reyes del Mundo. Foto Festival Internacional de Cinema de San Sebastian.

Para a história de San Sebastian edição 70 ficará o título Los Reyes del Mundo, a bem-intencionada viagem de selo social pelos meninos das ruas de Medellín, desenhada pela colombiana de 41 anos Laura Mora Ortega a quem o júri outorgou a Concha de Ouro. E que regressa de novo vitoriosa a San Sebastian depois de, em 2017, ter conquistado o prémio de juventude com Matar a Jesús. Na verdade, se há filmes que ficam bem em palmarés, este é um deles. Mesmo que essa liberdade de procura não preencha alguma falta de densidade. O júri presidido pelo produtor argentino Matías Mosterin (na ausência forçada de Glenn Close) distinguiu ainda, com a Concha de Prata, para o Prémio do Júri, Runner, da cineasta nova iorquina Marian Mathias.

Compreende-se uma certa tendência em privilegiar o trabalho feminino atrás das câmaras, mesmo que nem sempre confirmem as propostas mais consensuais dos jornalistas presentes. Aliás, como sucedeu este ano em Veneza, com o prémio máximo, algo surpreendente, para o documentário de prestígio para a fotógrafa Nan Goldin, em All the Beauty and the Blooshed, da cineasta Lautra Poitras, vencedor do Leão de Outro. Em San Sebastian, Laura Mora Ortega sucede à romena Alina Grigora, em 2021, com Blue Moon, e à georgiana Dea Kulumbegashvili, em 2020, com Beginning. 

Pena é que, numa selecção competitiva de alta qualidade (das melhores dos últimos anos), caíram no esquecimento outras alternativas de mérito (leia-se de melhor cinema). Falamos, por exemplo, da arrebatadora viagem operática o longo de Il Boemo, do checo Petr Václav, bem como de Girasoles Silvestres, de Jaime Rosales, e, claro, de Great Yarmouth – Provisional Figures, de Marco Martins, seguramente o filme mais potente do festival (talvez por isso menos festivo ou calhado para prémios). Isto para já não falar da monstruosa interpretação de Beatriz Batarda, sem par (feminina ou masculina) nos filmes que vimos. Já não falamos do coreano Hong Sangsoo, que tem somado prémios nos últimos anos, mas que o último Walk Up não convenceu.

Igualmente regresentados nos prémios ficou a Concha de Prata para o trabalho de realização do japonês Genki Kawamura em Hyakka/A Hundred Flowers, ao passo que o Melhor Guião foi atribuído à dupla chinesa Dong Yun Zhou e Wang Chao em Kong Xiu/A Woman.

No plano interpretativo os jovens Carla Quílez e Paul Kircher receberam ex-aequo a Concha de Prata para a Melhor Interpretação nos filmes La Maternal, da espanhola Pilar Palomero, e Le lycéen/Winter Boy, do francês Christophe Honoré. A menina Renata Lerman, de 12 anos, ganhou o prémio de Interpretação Secundária por El suplente/The Substitute, do seu pai Diego Lerman. Por fim, o trabalho de câmara de Manuel Abramovich, em Pornomelancolía, sobre o acompanhamento que faz de um porno influencer, valeu-lhe o prémio de Melhor Fotografia.

De referir ainda a preferência do público que escolheu para o seu prémio o filme Argentina 1985, de Santiago Mitre, vencedor do prémio FIPRESCI em Veneza. Já em San Sebastian, o prémio da crítica internacional foi para o basco Suro, na estreia de Mikel Gurrea. A seguir à gala de entrega dos prémios seguiu-se a estreia mundial de Marlowe, de Neil Jordan, que veio a San Sebastian acompanhado pelos actores Liam Neeson e Diane Kruger.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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