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Marco Martins: “Onde é que cabe este cinema hoje em dia?”

Nesta entrevista feita por Paulo Portugal a seguir à projeção de Great Yarmouth – Provisional Figures no Festival de San Sebastian, o realizador Marco Martins fala deste filme feito a partir de histórias pessoais da comunidade portuguesa que trabalha na indústria aviária.
Marco Marins em San Sebastian. Foto de Paulo Portugal

Após uma sessão arrasadora avistamo-nos com o autor de Great Yarmouth – Provisional Figures para nos inteirarmos das circunstâncias dessa experiência radical. Isto a coroar um ano em grande, em que estreou o documentário Um Corpo Que Dança – Ballet Gulbenkian 1965-2005, um olhar sobre a evolução da companhia, bem como do país, com imagens de arquivo, com a notável prestação de se manter em exibição após a sua 14 semana de estreia. Uma conversa à flor da pele, motivada ainda pela proximidade dessa viagem às profundezas da condição humana. Ali mesmo, do outro lado da rua, em frante à sala Kursaal, onde no próximo sábado, dia 24, serão anunciados os prémios da 70ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian.


Olá Marco. Nada como começar do início, das diferentes fase do projecto Great Yarmouth...

Foi um projecto que começou em 2017, logo a seguir a São Jorge (o filme anterior premiado em Veneza), com um convite para fazer um espectáculo (na cidade de Great Yarmouth) com a comunidade portuguesa que lá vivia, a convite do produtor italiano Renzo Barsotti, com quem já havia trabalhado há já uns anos, até no seguimento do meu trabalho comunitário de exploração que fazia no teatro. Parecia-me ideal, porque eram as pessoas que tinham fugido da crise (2015). Comecei a desenvolver com elas uma peça que estreou em 2018 (Portugal, Inglaterra, etc). Quando a peça acabou percebi que não estava pronto para deixar aquele tema, aquelas pessoas e comecei a fabricar este filme, baseado numa personagem que me foram falando. Mas não era a Tânia, a personagem da Beatriz Batarda. Aliás, no original ela é inglesa, mas é o mesmo género de trabalho.

Falaste no São Jorge. E na verdade, parece-me, acaba por haver aqui alguma ligação. Pelo menos, no sentido de uma preocupação social, em que a peronagem da Beatriz Batarda acaba até por ter alguma relação com a do Nuno Lopes. Ou é exagero meu?

Sim, talvez. Sendo que o Jorge é mais uma vítima do sistema. Ele é um mártir. Um santo. Ela não, é uma personagem que já está corrompida pelo sistema. 

Pois, já é gerada pelo sistema.

Ela foi devorada pelo sistema. Nesse sentido é diferente. É um filme mais escuro. Mas, por outro lado, acho que parte de uma pesquisa mais profunda daquela comunidade. Formalmente, acho até que é bastante distinto. No entanto tem em comum o facto de seguir aquelas pessoas. 

O problema é que o Nuno Lopes é sempre avassalador. Onde ele está contamina e domina o seu espaço.

Sim, sim, ele não é um secundário. Uma coisa nova que eu acho é que, apesar de haver muitas personagens secundárias, este é um filme mais coral. Não é só o Nuno, há muitas personagens. 

Sem dúvida. E há essa ligação quase umbilical à condição humana. Mas também a ideia da ligação humana aos animais.

Isso estava desde o início na peça. Desde logo com os textos do Coetzee sobre animais. Havia essa ideia, quando escreve “porque é que a morte dos animais não nos causa qualquer dor?”

Causa, causa...

E há um texto (do Coetzee) de que gosto muito e que diz “a única coisa que nos faz matar um animal é o facto de ele não falar”. Ou seja, a única coisa que nos faz matar um peru é o facto de ele não falar. 

Falando um pouco nas histórias dos portugueses adaptadas para o filme. Como foi esse processo filtrado para a versão final do guião?

As histórias são histórias pessoais de vários trabalhadores.

Portugueses?

Sim, só uma história – a do Bob – que é inglês, é que é a dele próprio. Ele era um antigo guarda florestal que trabalhava nos pântanos e fazia passeios de observação de pássaros. Na peça falava sobre a migração dos pássaros. Optei por que fosse a personagem que fecha e que abre o filme. Acompanha essa contextualização do lado animal e humano, embora eu ache que é tudo o mesmo lado. O resto das personagens são de emigrantes que fui ouvindo ao longo destes anos. Sobretudo na reconstituição do seu dia-a-dia, daqueles hotéis em que roubavam o que comiam, daquelas horas de trabalho, dos turnos, da dureza do trabalho da fábrica. Dos cheiros. Tudo isso são coisas que vão sendo narradas. 

Aí houve uma parte grande de trabalho campo, certo? Porque o que vemos é bastante detalhado.

Sim, era o que me era relatado. Algumas coisas eu consegui observar. Mas o acesso àqueles hotéis era-me vedado. Bom, em parte, pois consegui visitar alguns porque me fiz amigo de um tipo que explorava esse negócio. Alguns hotéis que visitei com a Beatriz eram muito parecidos com o que era relatado. Onde dormiam três pessoas por quarto...

Eu lembrei-me de uma comparação um pouco absurda – mas se calhar nem tanto – com a realidade dos estudantes que chegam a Lisboa e alugam quartos que são, na verdade, armários ou closets...

Sim, é verdade. E temos também a nossa própria escravatura, a nossa mão de obra explorada nas apanhas das amoras, no Alentejo, que vêm do Paquistão.

Achei curiosa aquela expressão que se diz no filme, dos ‘pork and cheese’? É isso que chamam aos portugueses?

Sim, pork and cheese. É isso. Os ‘portuguese’. 

Wow, é forte essa.

Quando os que conheci começaram a soltar a língua, perguntavam: “sabes como nos chamam aqui?” “Pork and cheese”!

No entanto, acho até que os portugueses se prestam um pouco a isso. É como quando dizem no filme: “ah, eles calam-se e aguentam (muito)”.

Sim, sim. Eu acho que nós temos um complexo lixado de provincianismo, um complexo de inferioridade...

Bom, temos de falar da Beatriz. Um trabalho avassalador. 

Sim, a Beatriz. Bom, eu nunca tinha escrito um papel feminino. Além do Sara, claro. No entanto, trabalho com a Beatriz há muitos anos.

Acho que era difícil não pensar nela para este papel, não é?

Pois. (risos) É isso. Mas, sabes, eu nunca tinha escrito um papel para ela porque os meus protagonistas são todos homens. 

Mas ela também sabe ser homem. Como neste filme.

Sim, ela tem uma potência enorme. Portanto, achei que estava na altura de construir uma personagem para ela. No fundo, uma personagem complexa, porque tinha de reflectir a violência daquele lugar, as contradições, morais, etc. Ela é um monstro. Um monstro como pessoa. Tem aquele sonho, mas todo o resto nela é de uma frieza enorme. 

Mas ela como actriz tem uma abertura tremenda e uma entrega total difícil de ver em outra actriz.

É como se tivesse um acesso a vários tipos de emoções. Mais profundas, menos profundas. É como uma esponja. Houve também um trabalho de campo físico que foi também importante e transformador, nas fábricas para conhecer aquela realidade. Por muito tempo que fosse, era algo que eu queria que eles fizessem. 

Ela que tem nos ouvidos os fones que a levam para um universo alternativo, não é?

Sim, há um autismo nela. 

Como se aquilo que ela ouve fosse encarado como uma espécie de paraíso (e já lá vamos), que a fecha ao som de fora – porque para o cheiro ela sempre tem a pomada Vick. Mas é ao mesmo tempo um acesso a essa outra dimensão, de sonho, que é o inglês que aprende para usar no Verão, não é?

Sim, é o Verão. Ela já tem os papéis. 

E sonha com o line dancing... Acho muito curioso todo esse alinhavar de expressões inglesas que intrometem entre o português conferindo essa aproximação ao universo emigrante. 

Isso foi muito difícil, porque ela estudou em Inglaterra, fez teatro em Inglaterra. Portanto, o inglês dela é impecável. Difícil foi o trabalho de ouvir lições de inglês para hotelaria. Foi um trabalho enorme. Mas esse é mesmo o trabalho de actor. 

Sem dúvida.

Ela trabalhou em fábricas, trabalhou em pubs de Yarmouth. Por exemplo, a forma dela andar foi algo que descobriu a trabalhar numa fábrica. Não em fábricas em Inglaterra, porque tinham medo do filme e não nos deixavam entrar. Foi numa fábrica parecida. Mas nada substitui estarem ali doze horas a matar perus.

Não consigo sequer imaginar. Aliás, a realidade mostrada no filme é brutal. Apesar de ter aquele lado de resort turístico de verão.

Sim, só que agora ninguém quer ir para Yarmouth. É impressionante perceber como, por exemplo, é possível comprar prédios inteiros da época vitoriana por 200 mil euros. Só a indústria dos perus continua gigantesca. 

E o Brexit não mudou muito.

Para mim, foi a tempestade perfeita. Ou seja, apanhei a pandemia e depois apanhei o Brexit. Foi uma rodagem muito violenta. Eu comecei a rodar em Março de 2020. Apanhei o último avião de Inglaterra para cá. Quando já estava o (Presidente) Marcelo a gritar “vocês têm de vir embora”. Fomos os últimos a ser resgatados. Portanto há certos aspectos do filme que estavamos a viver de perto.

Que tipo de impacto achas este filme pode vir a ter?

Essa é aquela pergunta complicada. Eu acho que a arte, os livros, os filmes, servem para levantar questões. Para desinquietar. Isso já me alegraria muito sobre a presença de fábricas como aquelas e a legitimidade da existência daquele tipo de trabalho. Que haverá sempre alguém para fazer porque haverá sempre alguém desesperado com os seus contatos e aquelas horas de trabalho. Além de que eles têm muitas lesões físicas. Etc. Nesse sentido, ficaria muito contente se pelo menos as condições de trabalho daquelas pessoas fossem melhoradas. Acho que isso era o essencial.

Algo que isso pode passar também pelo circuito que o filme tiver. O filme está aqui em San Sebastian, em competição. Que impacto poderá ter no filme?

Vamos ver. Eu acho que é um filme, em certos aspectos difícil, porque é um filme choque.

Em certa medida, parece-me um filme em que estamos a voltar (quase) às condições de trabalho da Revolução Industrial, dominadas por um capitalismo absolutamente selvagem. 

Concordo. E depois há um outro elemento: é que a cidade é meio fantasma e estava ainda mais com a pandemia. Acho que eles quase parecem zombies.

Sim, era isso mesmo que eu ia dizer.

Isso é muito forte. É quase como perguntar, ‘ainda estás vivo’? ‘Ou já estas morto’?

É como o momento em que aquilo dá a volta. Há planos na fábrica com o abate dos perus em que eu pensei muito se haveria ou não de mostrar. 

É inevitável perguntar: o facto do filme estar em competição implica falar na eventualidade de prémios. Isso traz alguma pressão?

Não vou dizer que os prémios nos festivais não são importantes, porque são importantes. Porque, por vezes, condicionam a carreira internacional do filme. 

Pode pesar o facto de ser um filme demasiado forte?

Sem dúvida. Acho que não é um filme onde vais para te purificar. A questão pode ser: onde é que cabe este cinema hoje em dia?

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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