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"Pornomelancolia serviu para questionar a minha própria masculinidade”

Com Pornomelancolia, o cineasta argentino Manuel Abramovich venceu este sábado o Prémio do Júri para a Melhor Fotografia no Festival de San Sebastian. E falou-nos deste documentário ficcionado em torno da vida de um influencer do mundo da pornografia gay mexicana. Entrevista de Paulo Portugal.
Manuel Abramovich em San Sebastian. Foto de Paulo Portugal.

Em Pornomelancolia, o documentário de ficção exibido em San Sebastian na competição para a Concha de Ouro, o argentino Manuel Abramovich ilustra o retrato de um influencer sexual que usa as redes sociais, sobretudo o Instagram e o Twitter, para motivar encontros sexuais, mas também para se dar a conhecer, tornando assim públicos todos os detalhes da sua vida privada. Só que essa exposição mediática crescente, chegando mesmo a transformar-se numa vedeta, não apaga a sua constante melancolia. Em certa medida, é esse também o dilema de Lalo Santos. 

Um projecto que começou por se intitular Oasis, na altura quando era apenas uma ideia de desenvolvimento. Algo que passa a assumir um estatuto diferente, quando, em 2018, Manuel é selecionado para participar numa residência artística, precisamente em San Sebastian. “Sim, foi um filme que começou aqui”, referiu Abramovich na conferência de imprensa. Mas que depois se interligou com a própria rodagem de um filme porno, a cargo da produtora mexicana Mecos Films, no fundo, colocando em cena elementos que o cineasta investigava para o seu projecto pessoal.

Em San Sebastian, dias antes de ter sido distinguido com o Prémio do Júri para a Melhor Fotografia, chegámos à fala com o cineasta argentino de 34 anos, natural de Buenos Aires, que insistiu mesmo que falássemos em português.

Trailer de Pornomelancolía subtitulado en inglés (HD)

 


Apesar do filme ser anunciado com um documentário, parece-me que não é alheio à ficção. Desde logo como o meio da pornografia se mescla com o das redes sociais.

É interessante a pergunta porque não faço distinção entre o documentário e a ficção. O meu trabalho procura um terreno de confusão que toma elementos documentais, mas que os enquadra em ficção. Justamente para que essa fronteira esteja suficientemente imprecisa para o espectador. Sem associar o filme a um chavão. A mim interessa-me a reflexão de todos os personagens que interpretamos nas nossas vidas, para poder viver e sobreviver no sistema que vivemos. E interessa-me o lado de ficção no mundo real.

E de onde veio a ideia original?

O projecto surgiu a partir dos meus últimos trabalhos que reflectem sobre a masculinidade, também como personagem. A ideia de ser um homem com uma personagem que lhe está associada, que tem de interpretar, com um guião que lhe deram quando nasceu.

Algo que passa também pelo próprio questionamento do realizador?

Exactamente. Eu não me questionei durante 30 anos sobre esse guião. Apenas o segui. Para mim, ser homem é também uma personagem forte. Não ter dúvidas poder controlar as coisas. Dar segurança à sociedade. Só que, como sabemos, não somos fortes. Todos nós sofremos, todos nos sentimos sós. Todos queremos ser amados. O filme funcionou como questionamento da minha própria masculinidade e de questões que me são pessoais. 

Como foi que chegou ao Lalo Santos?

Eu conheci o protagonista nas redes sociais, no universo do porno no México. Do porno gay. Foi um processo de colaboração, desde Abril de 2018 até ao dia em que vimos juntos o filme terminado, passaram quatro anos. Pareceu-me muito interessante como ele cruzava muitas ideias políticas e socias que eu pensava, lia e investigava, sobre o uso dos corpos como fonte de trabalho. De trabalho sexual. Mas também da solidão, do mundo gay. Sendo um homem gay às vezes gera-se um vazio dentro do sexo. Interessava-me a pornografia e o exibicionismo. Sobretudo o exibicionismo como o vivemos nesta época, com as redes sociais. Mas dentro do mundo porno. 

Que tipo de personagem era esta que descobriu nas redes sociais?

Quando o conheci nas redes sociais pareceu-me fascinante como ele tinha construído uma personagem virtual, que tinha mais de 100 mil seguidores. E como tinha criado a sua própria ficção da sua vida, como um macho mexicano, como se auto dirigia. Com muita ironia e humor, abordando temas políticos, da masculinidade, o patriarcado, o colonialismo, o racismo, o porno, a depressão. Muitos temas. E precisamente aquilo que eu investigava. Pareceu-me genial como resumia aquilo que eu queria. E como se assumir como um exibicionista, no sentido de tudo aquilo que vivia e pensava estava nas redes sociais. Dedicámos muito tempo a conhecer-nos e a gerar confiança para um trabalho desta envergadura.

Mas o porno não pode ser entendido também como esse exibicionismo da imagem pessoal que as adolescentes fazem do seu corpo, na expectativa de serem admiradas pelo maior número de pessoas? 

Acho que a palavra porno define bem a sensação que existe nesta época de como a intimidade se tornou tão pública. E digo isto por todos. Na primeira apresentação do filme, levantei-me e vi logo um montão de pessoas a tirarem fotografias para colocar nas redes sociais, no Instagram. É curioso como desejamos que as nossas vidas se tornem tão públicas que se tornam pornográficas. 

Será isso que faz com que exista esse outro lado que pode dar origem a essa melancolia. Aliás, o filme começa com a personagem do Lalo a começar a chorar convulsivamente ao aperceber-se da sua solidão.

Para mim, é importante que Pornomelancolia não é um documentário sobre o Lalo. Aliás, o título do filme é dele, porque ele escreve. A certa altura publicou no twitter que a sua autobiografia se deveria chamar Pornomelancolia. Achei isso muito bonito e perguntei-lhe de poderia usar esse título. Porque este é um filme sobre algo que sentimos todos. Todos nós somos Lalo Santos. É um filme que construímos juntos para falar destas coisas. Pensei que seria muito potente começar o filme por aí, por essa melancolia. Essa tristeza que é global. Sobretudo depois da pandemia. Ficamos todos muito vazios e estamos a tentar entender como era o mundo antes. Acho que essa cena inicial ilustra precisamente esse vazio existencial que reina no mundo, encarado como um grito existencial. Por isso, para mim é importante que não seja um documentário sobre uma pessoa, mas um filme construído, como todas as ficções, para falar desse vazio que todos sentimos. 

Nesse sentido, a componente sexual, ou homossexual, é apenas parte do contexto em que o cineasta, como autor, aproveita também para reflectir a sua própria existência. É isso?

Exacto. Se perceber bem, no filme quase não há sexo explícito. Quase todas as cenas de sexo foram simuladas e dirigidas. Porque o sexo me interessava apenas como um meio para ser menos vazio. Não me interessava o sexo ou filmar o sexo. O sexo era apenas um contexto para falar desse vazio. O coração do filme é tudo aquilo que se passa entre as cenas de sexo. Como na vida. Somos personagens e saímos de cena. Como agora, eu sou a personagem do realizador que apresenta um filme. Mas depois vou e serei outra coisa. Talvez eu próprio. Até ser outra personagem.

É interessante como o meio audiovisual dos telemóveis e das redes sociais foi usado como ferramenta de cinema. Qual foi a ideia de transpor o que está no nosso telemóvel para o enquadramento da câmara de cinema?

Gosto sempre de pensar o que coloco na câmara e aquilo que fica de fora. Interessa-me muito mais não dar tudo de forma directa. E apenas escolher partes deixando ao espectador a possibilidade de imaginar o resto. O telefone é uma espécie de lado B da nossa vida. Queria dar a ideia de como se estivéssemos dentro do telefone de alguém e de ver isso no cinema.

Como foi que abordaste a indústria pornográfica?

Aproximei-me de uma produtora pornográfica mexicana que tem um trabalho muito interessante, pois faz filmes com temáticas que incluem a ironia, mas também a corrupção mexicana. Quando começamos a filmar havia dois filmes, o Pornomelancolia e o filme porno. Conseguimos fazer uma colaboração em que estava muito misturada o que era ficção e documentário, em que por vezes se cruzava um com o outro.

Nesse caso, o Lalo assumia dois papéis, certo?

Exacto. É interessante como o protagonista faz o seu papel nas redes sociais, mas também o actor no filme Pornomelancolia. Isso permitiu ao Lalo um caminho em que se tornava cada vez mais independente do filme. É também uma ilusão do capitalismo que temos, com essa ilusão de sermos livres e fazer o que queremos, também com o nosso corpo, mesmo que estejamos presos no próprio sistema que nos mantém presos na nossa ficção das redes sociais.

Já agora, sente que encontrou as respostas que procurava no início do projecto?

No fundo, encontramos sempre novas perguntas, pois trata-se de um percurso, e um questionamento, de longo curso. Por isso, gosto de pensar como questões para seguir reflectindo.

Como encara o facto de estar aqui em San Sebastian, com o filme em competição? O que representa isso para si?

Para mim é muito emocionante porque escrevi o filme aqui, quando fiz uma residência na Tabakalera, em 2018. Tinha estado no festival outras vezes. Emociona-me e dá-me muito orgulho nas personagens com quem estive envolvido estes anos todos. 

E sobre o facto de o Lalo ter decidido não vir?

Infelizmente, o Lalo não pode vir à première. É algo triste porque vimos o filme juntos há três meses. No entanto alterou um pouco a forma como encarou o processo. Eu procuro entender o que ele pode estar a sentir agora. Quando organizamos a viagem, ele decidiu não vir e não acompanhar o lançamento do filme. Para mim foi um pouco triste porque queria estar aqui com ele para acompanhar o processo.

 

Sobre o/a autor(a)

Jornalista de cultura e cinema, autor do site insider.pt
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