A 26 de fevereiro de 2025, o casal presidencial da Nicarágua, Daniel Ortega e Rosario Murillo, prestaram juramento a 30.000 civis encapuçados, constituindo uma nova “força policial voluntária” para consolidar o poder de Ortega e Murillo no Estado. O evento teve lugar na Plaza de la Fe, na capital Manágua, mas juramentos parecidos também ocorreram em Matagalpa, Bilwi, Bluefields, Jinotega, León e outras cidades mais.
Os “polícias voluntários” são parte da Polícia Nacional e atuam sob o comando dos oficiais da Polícia, sendo Ortega-Murillo as autoridades superiores desta instituição. Desta forma, a Polícia que contou com 20.474 efetivos em 2024 aumentou a sua força numérica a 105.285 efetivos em 2025, entre eles 28.398 profissionais e 76.887 voluntários.
As tarefas dos “polícias voluntários” são a “proteção da ordem pública” e a “defesa da paz que desfrutamos atualmente” o que significa realmente que estas novas unidades policiais são criadas expressamente para defender o regime e o poder ditatorial do casal presidencial. Representantes da Polícia referiram-se em várias declarações às manifestações populares do abril de 2018 que foram reprimidos violentamente – causando mais que 350 vítimas mortais – para explicar que a “polícia voluntária” deve impedir e suprimir tais formas de expressão massivo de descontento popular.
Ortega reconheceu no seu discurso explicitamente que os encapuçados são a mesma gente que reprimiram brutalmente o movimento pacífico de protestos de 2018.
A criação da nova “polícia voluntária” na realidade significa que os paramilitares que perpetraram a repressão sangrenta de 2018 agora levam um nome novo, que são institucionalizados na nova Constituição e que contam com um número de mais que 75.000 pessoas que juraram a sua lealdade absoluta ao casal presidencial. Murillo chamou os “polícias voluntários” – na sua típica linguagem cínica e eufemística – os novos “guerrilheiros da paz”.
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Para além da formação da “polícia voluntária”, Ortega renovou também o mandato do comissário Francisco Díaz, chefe da Polícia Nacional e sogro do casal presidencial. Díaz, que assumiu o cargo em 2018 durante os protestos, continuará no seu posto por mais seis anos, nos termos da nova Constituição. Poucos dias antes já foi juramentado o general Julio César Avilés para mais seis anos como chefe das Forças Armadas, uma posição que já ocupa desde 2010 em violação de todas as regras militares de rotação das funções no exército. Desta forma, Ortega-Murillo têm duas pessoas da sua confiança absoluta na cabeça da Polícia e do Exército.
A formalização – não se trata de uma legalização! – e manifestação pública dos paramilitares como “polícias voluntários” é uma ameaça declarada contra qualquer tentativa de oposição ou de mostrar descontentamento com o regime atual. À mesma vez é uma expressão da profunda crise da ditadura que já não tem credibilidade nenhuma na população, não funciona economicamente e mostra fissuras notórias políticas. Não só estão ilegalizados todos os partidos políticos, não só estão deportados e expatriados todos os dirigentes da oposição política, também há purgas no aparato jurídico, na Polícia, no Exército e mesmo dentro dos aderentes da FSLN. Ortega e Murillo sabem que o seu regime está á beira do desmoronamento e temem o renascimento de um movimento popular que já não podem controlar e muito menos suprimir através das instituições regulares, a Polícia e – no caso preciso – também o Exército.
Por isto estão a recorrer no instrumento fascista da criação dum movimento de massas, disposto de acatar a qualquer ordem dos presidentes, para defender o poder ditatorial da família Ortega-Murillo. Por várias razões não se trata de um sistema fascista, mas recorre e está disposta de recorrer de maneira muito mais elevada à repressão contra a população através dum terror perpetrado por uma organização paramilitar chamada “polícia voluntária”.