Carta ao embaixador israelita, Oren Rosenblat:
No passado domingo, 10 de novembro, o senhor embaixador falou numa ação de apoio às comunidades judaicas, no seguimento dos confrontos que tiveram lugar em Amsterdão na passada semana, entre os adeptos israelitas do Maccabi Tel Aviv e alguns cidadãos.
Neste ato estabeleceu-se uma ligação direta entre estes acontecimentos e o massacre cometido em Lisboa a 19 de abril de 1506 contra judeus e cristãos novos, já que foi escolhido para a cerimónia o monumento que homenageia às vítimas de tal massacre.
Entre os participantes e apoiantes do protesto encontrava-se o vice-presidente do partido de extrema direita Chega, Pedro Frazão, que fez questão de mostrar o seu firme apoio à luta contra o anti-semitismo na sua página de Instagram.
Queríamos explicar ao senhor embaixador, cujas funções começaram há pouco tempo e que talvez ainda não o saiba, que este partido promove a discriminação e a violência contra minorias, nomeadamente pessoas ciganas, muçulmanas, afro-descendentes e imigrantes em geral. No seu discurso racista o Chega chegou a defender o assassinato de membros destas comunidades. Além disso, é habitual ver neonazis nas manifestações deste partido político.
O senhor embaixador talvez não tenha visto os vídeos nos quais os adeptos a quem mostrou apoio no domingo cantavam "morte aos árabes" e "não há escolas em Gaza porque não há mais crianças". Talvez também não tenha visto os que mostram alguns destes adeptos a subir aos prédios para rasgar bandeiras palestinianas ou a provocarem pessoas que nada tinham feito.
Seriam frases como estas as que, provavelmente, teriam sido pronunciadas relativamente aos judeus no Largo de São Domingos no dia 19 de Abril de 1506.
Sem defendermos o recurso à violência, compreendemos que ela não nasce no vácuo. Que, ao contrário do que o senhor embaixador e os outros participantes do protesto defendem, esta violência não aconteceu por motivos anti-semitas, mas sim como consequência dos comportamentos abertamente xenófobos dos próprios adeptos do clube israelita.
É neste sentido que, enquanto descendentes de judeus que sobreviveram a verdadeiros pogroms anti-semitas, incluindo aquele ao qual o monumento do Largo de São Domingos faz referência, lhe pedimos que não volte a utilizar os nossos símbolos de forma banal e cínica, retirando-lhes o seu sentido histórico e ridicularizando a memória das vítimas do fanatismo.
Para finalizar, e uma vez que o partido de extrema direita Chega promove as mesmas ideias que fundamentaram os massacres dos nossos antepassados — e todos os massacres e perseguições cometidos contra pessoas ciganas, muçulmanas ou negras —, exigimos um pedido de desculpa por ter organizado um evento com este partido racista, e também por utilizar o nosso nome e a nossa memória para defender um grupo de hooligans, entre os quais se encontram pessoas que defendem abertamente o genocídio do povo palestiniano e a morte de pessoas árabes.
Se não o fizer, entenderemos que os valores do Estado que o senhor representa são os mesmos que os dos partidos da extrema direita.
Por respeito à sua moral judaica, queremos acreditar que o senhor embaixador irá refletir e pedir desculpas por ter banalizado a nossa memória comum.