Jornalista detida por revelar cumplicidade francesa com execuções no Egito

21 de setembro 2023 - 12:10

Em 2021, Ariane Lavrilleux publicou uma investigação sobre uma operação militar francesa que ajudou o regime de al-Sisi a eliminar dezenas de civis. Esta semana foi detida pela polícia, que quer identificar as suas fontes.

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Ariane Lavrilleux
Ariane Lavrilleux, jornalista do Disclose. Foto de perfil na rede social X.

A jornalista Ariane Lavrilleux foi detida na terça-feira em Marselha por agentes da Direção Geral de Segurança Interna (DGSI). Em causa está o trabalho publicado em 2021 no portal de investigação Disclose acerca da "operação Sirli", levada a cabo pelo serviço de informações militar francês no Egito. Ariane foi libertada ao final da manhã desta quinta-feira, após 39 horas de detenção, e fará uma conferência de imprensa durante a tarde.

O objetivo da missão era anunciado como parte da luta contra o terrorismo e passava pela vigilância do deserto ocidental do país para detetar ameaças terroristas vindas da Líbia, em colaboração estreita com os militares egípcios. Mas o seu resultado, de acordo com centenas de documentos secretos a que a jornalista teve acesso, foi a eliminação de civis contrabandistas, com pelo menos 19 bombardeamentos entre 2016 e 2018. Os documentos provam que as autoridades francesas foram avisadas desta cumplicidade com os crimes dos militares egípcios, mas nada fizeram para cessar esta colaboração com a repressão promovida pelo regime de al-Sisi.

Após a publicação do artigo, o governo anunciou um inquérito interno, que concluiu em poucos meses que nada havia a apontar aos responsáveis pela operação Sirli, e fez uma queixa por violação do segredo de defesa nacional, com o objetivo de conseguir descobrir a fonte da jornalista que lhe deu acesso aos documentos secretos. A detenção de Ariane Lavrilleux  e de um antigo quadro do exército não identificado  decorre dessa investigação. A advogada da jornalista e do Disclose disse à France24 estar "chocada e preocupada com a escalada de ataques à liberdade de informar e com as medidas coercivas tomadas contra o jornalista da Disclose".

A seguir à detenção, algumas dezenas de jornalistas e amigos de Ariane concentraram-se em frente à esquadra onde foi detida para exigir a sua libertação e denunciar este ataque à liberdade de imprensa. Mathias Destal, cofundador do Disclose, disse ao Mediapart que estamos perante "uma violação grave e preocupante da confidencialidade das fontes". "Trata-se de uma escalada num sistema de intimidação e repressão dos jornalistas que fazem o seu trabalho. Este é um novo nível", prosseguiu. Várias organizações e consórcios de investigação, como os Repórteres Sem Fronteiras ou o Investigate Europe, também denunciaram mais este ataque à confidencialidade das fontes dos jornalistas em França. Os Repórteres Sem Fronteiras e o Disclose organizaram uma concentração de protesto e solidariedade com a jornalista ao fim da tarde desta quarta-feira em Paris.

O caso de Ariane não é inédito e a perseguição aos jornalistas que revelam notícias incómodas para o Estado francês tem aumentado nos últimos anos. No ano passado, o jornalista de investigação Alex Jordanov foi alvo de buscas e esteve detido dois dias após ter publicado um livro sobre a DGSI, o que levou igualmente a protestos das organizações de jornalistas contra o que chamam de estratégia de intimidação. Em 2019, dois jornalistas do Disclose que revelaram o uso de armamento francês na guerra no Iémen também foram interrogados pela DGSI por terem alegadamente comprometido segredos da defesa nacional francesa. Nos anos anteriores, investigações sobre vendas de armas à Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos ou à presença militar francesa no Chade também levaram jornalistas de vários órgãos de comunicação a serem detidos e interrogados pela DGSI. E o mesmo aconteceu aos jornalistas do Mediapart que revelaram as ligações de um ex-responsável da segurança do Eliseu, quando ainda estava no cargo, com um oligarca russo ligado ao crime organizado. Neste caso, a rusga à redação acabou por levar à condenação do Estado francês por um tribunal de Nanterre por ter atacado o direito à liberdade de imprensa e proteção das fontes dos jornalistas.