52 anos da Revolução

“O 25 de Abril é uma oficina viva, que exige as mãos de cada geração”

25 de abril 2026 - 10:46

Intervenção de Fabian Figueiredo na Sessão Solene Comemorativa do 52.º Aniversário do 25 de Abril de 1974 na Assembleia da República.

PARTILHAR
Fabian Figueiredo na Sessão Solene Comemorativa do 52.º Aniversário do 25 de Abril de 1974 na Assembleia da República.
Fabian Figueiredo na Sessão Solene Comemorativa do 52.º Aniversário do 25 de Abril de 1974 na Assembleia da República. Foto Assembleia da República

A democracia tem uma característica difícil para os mais impacientes: obriga-nos a partilhar o país com pessoas de quem discordamos profundamente. Obriga-nos a ouvir, a debater e, pasme-se, a aturarmo-nos uns aos outros.

Mas a alternativa ao dever democrático de nos ouvirmos uns aos outros é a tragédia. Esta tolerância da diferença não nos obriga a sermos ingénuos perante quem quer destruir o debate de ideias. O pluralismo constrói-se na elevação do confronto de ideias, não na sua degradação propositada.

A gritaria constante não é coragem política, é apenas a coreografia cobarde do vazio. E este Parlamento não pode ser o espelho das nossas piores pulsões. Tem de ser o espaço onde a República assume a responsabilidade de transformar a vida do nosso povo.

Se despirmos os últimos 50 anos da habitual retórica de calendário, desocultamos os factos. E os factos são insuportavelmente teimosos: este meio século de liberdade foi e é, de forma objetiva, o melhor período da História de Portugal. Não é uma opinião, são indicadores sociais, é economia, é saúde pública.

A nostalgia de um país onde "havia ordem e respeito" é uma falsificação grosseira. A ordem da ditadura era a ordem do medo.

E o medo, Senhoras e Senhores Deputados, não cura doentes, não paga salários, nem ensina ninguém a ler. A paz do Estado Novo era a do cemitério que levou a vida de milhares de jovens para a guerra colonial, e o silêncio de quem era privado de ter voz para reclamar.

Como bem alertava Natália Correia, o que é preciso é ter "a coragem de dizer a verdade". E a verdade do 25 de Abril não é a promessa irrealista de um país sem problemas. É a promessa de que temos as ferramentas e o mandato para os resolver.

É preciso dizer a verdade. O nosso país tem muitos problemas. Nenhum deles é a liberdade. É precisamente a liberdade que nos garante a capacidade de travar os embates mais duros e necessários sobre as nossas divergências estruturais - o desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, o cerco aos direitos laborais, a crise da habitação e o sufoco do custo de vida. Debatemos sem que a resposta do Estado seja a censura, a prisão de Caxias ou a tortura da PIDE.

O projeto da nossa democracia é o direito a viver melhor.

O que está a falhar não é a democracia. A democracia permite o erro e o acerto. Perante cada falha de um governo, erguem-se livremente múltiplas vozes de oposição e de alternativa. Direito universal à crítica e à proposta. Sem censura, sem polícia política, sem prisões arbitrárias. O erro pode residir em decisões concretas, não no facto de termos a liberdade de decidir, de identificar erros, de os contestar e de os corrigir. Essa liberdade não é o problema: é sempre a solução.

É através dessa inteligência democrática que conseguimos converter a exaustão de um enfermeiro ou de um professor, ou a aflição de quem entrega quase todo o ordenado para pagar a casa, numa força política de mudança, traduzida em leis que protegem os portugueses.

O 25 de Abril não é um museu de boas intenções. É uma oficina viva, que exige as mãos de cada geração.

Jorge de Sena pediu-nos que não deixássemos roubar-nos "a cor das palavras". Que defendêssemos a palavra liberdade de quem a quer sequestrar para oprimir e dividir.

Estamos aqui para fazer o nosso turno desse trabalho que não tem fim. Sem medo, sem ilusões e, sobretudo, sem darmos um único passo atrás. Em cada rosto igualdade.

Viva o 25 de Abril.

Termos relacionados: Política