A democracia tem uma característica difícil para os mais impacientes: obriga-nos a partilhar o país com pessoas de quem discordamos profundamente. Obriga-nos a ouvir, a debater e, pasme-se, a aturarmo-nos uns aos outros.
Mas a alternativa ao dever democrático de nos ouvirmos uns aos outros é a tragédia. Esta tolerância da diferença não nos obriga a sermos ingénuos perante quem quer destruir o debate de ideias. O pluralismo constrói-se na elevação do confronto de ideias, não na sua degradação propositada.
A gritaria constante não é coragem política, é apenas a coreografia cobarde do vazio. E este Parlamento não pode ser o espelho das nossas piores pulsões. Tem de ser o espaço onde a República assume a responsabilidade de transformar a vida do nosso povo.
Se despirmos os últimos 50 anos da habitual retórica de calendário, desocultamos os factos. E os factos são insuportavelmente teimosos: este meio século de liberdade foi e é, de forma objetiva, o melhor período da História de Portugal. Não é uma opinião, são indicadores sociais, é economia, é saúde pública.
A nostalgia de um país onde "havia ordem e respeito" é uma falsificação grosseira. A ordem da ditadura era a ordem do medo.
E o medo, Senhoras e Senhores Deputados, não cura doentes, não paga salários, nem ensina ninguém a ler. A paz do Estado Novo era a do cemitério que levou a vida de milhares de jovens para a guerra colonial, e o silêncio de quem era privado de ter voz para reclamar.
Como bem alertava Natália Correia, o que é preciso é ter "a coragem de dizer a verdade". E a verdade do 25 de Abril não é a promessa irrealista de um país sem problemas. É a promessa de que temos as ferramentas e o mandato para os resolver.
É preciso dizer a verdade. O nosso país tem muitos problemas. Nenhum deles é a liberdade. É precisamente a liberdade que nos garante a capacidade de travar os embates mais duros e necessários sobre as nossas divergências estruturais - o desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde, o cerco aos direitos laborais, a crise da habitação e o sufoco do custo de vida. Debatemos sem que a resposta do Estado seja a censura, a prisão de Caxias ou a tortura da PIDE.
O projeto da nossa democracia é o direito a viver melhor.
O que está a falhar não é a democracia. A democracia permite o erro e o acerto. Perante cada falha de um governo, erguem-se livremente múltiplas vozes de oposição e de alternativa. Direito universal à crítica e à proposta. Sem censura, sem polícia política, sem prisões arbitrárias. O erro pode residir em decisões concretas, não no facto de termos a liberdade de decidir, de identificar erros, de os contestar e de os corrigir. Essa liberdade não é o problema: é sempre a solução.
É através dessa inteligência democrática que conseguimos converter a exaustão de um enfermeiro ou de um professor, ou a aflição de quem entrega quase todo o ordenado para pagar a casa, numa força política de mudança, traduzida em leis que protegem os portugueses.
O 25 de Abril não é um museu de boas intenções. É uma oficina viva, que exige as mãos de cada geração.
Jorge de Sena pediu-nos que não deixássemos roubar-nos "a cor das palavras". Que defendêssemos a palavra liberdade de quem a quer sequestrar para oprimir e dividir.
Estamos aqui para fazer o nosso turno desse trabalho que não tem fim. Sem medo, sem ilusões e, sobretudo, sem darmos um único passo atrás. Em cada rosto igualdade.
Viva o 25 de Abril.