Obituário

Joana Lopes (1938-2026): ativista contra a ditadura e a austeridade

05 de fevereiro 2026 - 20:35

Participante ativa dos grupos de católicos progressistas durante a ditadura, Joana Lopes foi nas últimas décadas uma das maiores divulgadoras da memória desses combates e ativista nas lutas do presente.

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Joana Lopes
Joana Lopes no Fórum Socialismo 2018. Foto Esquerda.net

Nascida a 11 de outubro de 1938 em Lourenço Marques, atual Maputo, Joana Lopes fez o liceu em Portugal e chegou a frequentar o primeiro ano da licenciatura em matemática. Aos 18 anos partiu para a Bélgica, onde se licenciou e doutorou em Filosofia em Lovaina. Deu aulas de Lógica e outras cadeiras do departamento de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas acabou por se dedicar à programação informática enquanto engenheira de sistemas da IBM portuguesa, diretora e a primeira mulher a integrar o conselho executivo do ramo português da multinacional, tendo regressado à Bélgica para dirigir um departamento da IBM.

Foi em Lovaina que começou a contactar com a atividade política anticolonial, na sequência do processo de independência do Congo Belga, e com dirigentes do MPLA residentes em Paris. Num depoimento para a série de artigos “Mulheres de Abril” do Esquerda.net, contou como regressada a Portugal em 1962, “mergulhei imediatamente no mundo dos chamados «católicos progressistas»”, em revistas como “O Tempo e o Modo” e em publicações clandestinas contra a guerra colonial, “sempre num jogo de gato e rato com a censura, sempre a fazer telefonemas em linguagem cifrada, sempre a olhar por cima do ombro para ver quantos agentes da PIDE estariam nas salas, sempre com medo de que a campainha tocasse ao nascer do dia”.

Participou em organizações como a Acção Católica, em que integrou a Junta Central, ou o Centro Nacional de Cultura. Durante a visita do papa Paulo VI, que este setor católico contestava por representar uma quebra do isolamento da ditadura, foi Joana Lopes e outro membro da Junta Central da Ação Católica que ficaram encarregues de entregar um documento a “um mensageiro seguro” da comitiva papal sobre a situação política e social no país, que consideravam contrária aos ensinamentos da igreja católica. 

Quatro anos antes da vigília da capela do Rato, Joana Lopes esteve na que terá sido a primeira afirmação coletiva de católicos contra a guerra colonial , quando 150 pessoas permaneceram toda a noite na igreja de São Domingos, no último dia de 1968, onde ouviram pela primeira vez a “Cantata da Paz”, com letra de Sophia de Mello Breyner e música de Francisco Fernandes, cantada por Francisco Fanhais.

Dessas lutas clandestinas na ditadura deixou registo no livro Entre as Brumas da Memória - Os Católicos Portugueses e a Ditadura, editado pela Âmbar em 2007. E desse livro nasceu o blogue homónimo, que além de complementar a temática do livro com novos testemunhos serviu para a autora marcar presença no debate público com comentários a temas da atualidade, o que fez até às últimas semanas de vida.

Além da colaboração com a LUAR e os contactos com exilados políticos na Bélgica, Joana Lopes integrou no início dos anos 1970 um “grupo semiclandestino” cujos membros desaguaram depois na fundação do MES ou no PRP/Brigadas Revolucionárias, ao qual pertenceu entre 1972 e 1974 e onde ficou apenas alguns meses após a Revolução. Em 1976 integrou os GDUP nas primeiras eleições autárquicas, figurando na lista por Lisboa. Foi a sua última filiação partidária, tendo mais recentemente apoiado o Bloco de Esquerda e a candidatura de Catarina Martins à Presidência da República.

A par dos textos no seu blogue, Joana Lopes continuou a participar na vida cívica e política do país, integrando um dos movimentos na campanha pela despenalização do aborto e a direção do movimento Não Apaguem a Memória. Fundou a Iniciativa para a Auditoria Cidadã à Dívida no tempo da troika e foi promotora do movimento cívico para a despenalização da morte assistida.

“A Joana Lopes atravessou fronteiras”, escreve o coordenador bloquista José Manuel Pureza numa nota de pesar em que destaca a mulher que “desafiou os dogmas para afirmar uma carreira científica” e que “foi à esquerda, sempre à esquerda, que fez o seu caminho”, com intervenções ativistas “que engrandeceram a luta contra a dívida indevida, pelo direito à memória da resistência ao fascismo, pela despenalização da morte assistida”.

“Vai fazer-nos falta. A todos nós, que agradecemos os combates que a Joana travou nos combates que continuaremos a travar”, conclui José Manuel Pureza.

O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências à família e amigos de Joana Lopes.