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Já arderam 10 mil hectares no Parque Natural da Serra da Estrela, “uma desgraça completa”

Há cinco anos ardeu o Pinhal de Leiria, agora arde uma parte siginificativa da Serra da Estrela. Será que há algo que não se aprendeu com os incêndios de 2017? Ricardo Vicente em artigo publicado no esquerda.net apontou “três tristes realidades” da política do Governo, que merecem análise.
Incêndio na aldeia de Sameiro, na encosta norte da Serra da Estrela – Foto de Miguel Pereira da Silva/Lusa
Incêndio na aldeia de Sameiro, na encosta norte da Serra da Estrela – Foto de Miguel Pereira da Silva/Lusa

No incêndio florestal que lavra na Serra da Estrela, desde as 3h do passado sábado, 6 de agosto, arderam já cerca de 10.000 hectares, segundo o sistema de vigilância europeu Copernicus. Até terça-feira estimava-se que tivessem ardido cerca de 3.000 hectares de floresta e mato, na quarta-feira a estimativa subiu para 9.532 hectares, de acordo com a Lusa.

O presidente da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela (CIM-BSE), Luís Tadeu, declarou, esta quarta-feira, à Lusa: “uma desgraça completa”. Moradores da aldeia do Sameiro diziam à reportagem do Público: “uma tristeza”, “danos são irreparáveis”. Luís Tadeu acrescentava que “foram atingidas áreas que eram Património da Humanidade e que foram completamente dizimadas”.

O presidente da CIM-BSE afirma que é necessária uma análise de todo o processo de combate ao incêndio, “até para reforçar a confiança das nossas populações em quem nos orienta e quem orienta os nossos bombeiros”, alerta que “o vento não pode justificar tudo” e sublinha que é preciso apurar se “o processo de combate a este incêndio foi o mais eficaz, adequado”. Acrescenta ainda que se vê “no terreno, muitas vezes, descoordenação completa, com os bombeiros parados à espera que deem as ordens e o tempo a passar e o fogo a andar”.

Independentemente da justeza de analisar todo o processo de combate ao incêndio da Serra da Estrela, como propõe o presidente da CIM-BSE, o problema tem, no entanto, uma dimensão mais vasta: há cinco anos ardeu o Pinhal de Leiria, agora arde uma parte siginificativa da Serra da Estrela. Será que há algo que não se aprendeu com os incêndios de 2017?

Neste caso, trata-se do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE), onde se situa o ponto mais elevado de Portugal continental, que é uma área protegida de quase 89 mil hectares, e o Geopark Estrela, um Geopark Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Três tristes realidades

Em artigo publicado em julho deste ano, Ricardo Vicente, do Bloco de Esquerda, escreveu no esquerda.net um artigo de opinião com o título “Duarte Cordeiro e o silêncio que queima”, onde assinala que “não faltam motivos para tocar todas as sirenes de alarme a respeito da política de prevenção e combate a incêndios em Portugal”. Nesse texto avisa que “no essencial tal não se deve aos incêndios nem à onda de calor que decorrem no momento”, apontando antes para a “combinação de três tristes realidades”: em primeiro lugar, “desvalorização dos impactos das alterações climáticas pelo Governo”; em segundo lugar, “continuidade de políticas que contrariam o interesse público” e, em terceiro lugar, “resistência política à concretização de medidas já delineadas”.

Ricardo Vicente destaca que, na sequência dos incêndios de Pedrógão Grande, se criaram várias comissões técnicas e um Observatório Técnico Independente (OTI) que fizeram diversas recomendações, na sua maioria ignoradas pelo Governo, sobretudo em relação às alterações climáticas. Em julho de 2021, os especialistas do OTI fizeram mesmo um relatório sobre o plano de ação do governo apontando que foi identificado "um conjunto de lacunas das quais se destacam o insuficiente tratamento dado a áreas como as alterações climáticas, ordenamento florestal" e que "a falta de reflexão e de propostas de ação associadas às alterações climáticas constitui provavelmente a maior e mais grave omissão neste PNA [Plano Nacional de Ação]”.

Ricardo Vicente aponta, em segundo lugar, a “continuidade de políticas que contrariam o interesse público”, salientando que “o delineamento do novo Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais foi concretizado sem uma avaliação séria dos fracassos e sucessos do modelo anterior”. O OTI deu conta disso, exemplificando, mas as críticas e recomendações dos especialistas foram ignoradas pelo Governo no Plano de Gestão Integrada de Fogos Rurais.

Em relação à “resistência política à concretização de medidas já delineadas”, o dirigente do Bloco sublinha que as regiões mais vulneráveis ao risco de incêndios “são também as menos subsidiadas pela PAC”, refere que “foi até desenhada uma ferramenta de política pública que pode dar um forte contributo para corrigir esta situação”, porém não houve empenho do Governo para a sua implementação.

Debater estas lições e recomendações dos incêndios de 2017 são essenciais para se compreender em que ponto se está, como enfrentar a situação que vivemos, nomeadamente com as repetições de vagas de incêndios, e aquilo que é preciso mudar na política e na prática governamentais.

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