"Já não e só incompetência – é estupidez, teimosia, miopia ou má-fé"

13 de outubro 2013 - 17:06

Presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES), Virgílio Meira Soares, demite-se e envia carta aos deputados onde afirma que "o governo está a criar um verdadeiro clima de guerra civil entre grupos sociais", que "resulta de uma política de quatro anos sempre a tirar aos mesmos".

PARTILHAR
Meira Soares diz estar escandalizado com o facto de o Estado atacar "de maneira despudorada os que menos recebem, os desempregados e doentes".

O presidente da Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES), Virgílio Meira Soares, apresentou a sua demissão do cargo que ocupava há 15 anos, desde que o organismo foi criado. A CANES define anualmente as regras do concurso de acesso ao Ensino Superior. Jorge Araújo, outro dos representantes do Conselho de Reitores (CRUP) na CNAES, abandono igualmente a entidade.

A demissão de Meira Soares foi um protesto contra a atual política governo.

"Já não e só incompetência - é estupidez, teimosia, miopia ou má-fé" escreve Meira Soares numa carta dirigida aos deputados em que explica as suas razões e que tem como título "A miséria global do governo".

Meira Soares afirmou ao Diário Económico que "não pode trabalhar com uma instituição que não me merece confiança e que ainda, por cima não me paga por isso". Desde 2000, o professor catedrático, doutorado em Engenharia Química, não recebia qualquer verba pelas funções que desempenhava na CNAES por se ter reformado.

"O governo está a criar um verdadeiro clima de guerra civil entre grupos sociais" que "resulta de uma política de 4 anos sempre a tirar aos mesmos", sublinha. "A mais recente notícia da TSU das viúvas é uma medida abjeta e em nada contribui para me descansar sobre a boa - fé do governo".

Na carta, de quatro páginas, pergunta aos deputados: "Isto será mesmo necessário?", protestando contra o que chama "o ataque aos aposentados" que desde 2003 " intensificou-se nalguns casos com justificações inaceitáveis".

Meira Soares considera que o atual governo "demonstrou uma propensão para lançar privados contra públicos e novos contra velhos, manifestando claramente uma aversão aos aposentados em geral".

Atacar "de maneira despudorada os que menos recebem"

Sublinhando que compreende que "numa situação de emergência, como a atual, o Estado se veja obrigado a quebrar algumas partes dos seus contratos", Meira Soares diz estar escandalizado com o facto de o Estado atacar "de maneira despudorada os que menos recebem, os desempregados e doentes". Até porque "a incompetência dos governos é a maior responsável" pela situação do país e há "centenas de milhares de milhões de euros que estão perdidos por negligência ou por ações criminosas". O que torna incompreensível que se vá buscar o dinheiro "sempre aos mesmos".

A carta termina com um apelo aos deputados "para que tenham a coragem de tornar este processo racional e inteligível" e "porque o governo não o faz nem sequer quer fazer".