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Itália: Governo de “unidade nacional” traz extrema-direita de volta ao poder

O populista 5 Estrelas está em crise depois de ter decidido entrar no governo. A Liga de Salvini deixou de lado, de momento, a retórica anti-europeísta para agarrar três ministérios. No partido há quem tema que isso leve os seus rivais neo-fascistas Fratelli d’Italia a crescer ainda mais.
Mario Draghi num encontro com o presidente do país. Foto do Palácio do Quirinal/Presidência Italiana.
Mario Draghi num encontro com o presidente do país. Foto do Palácio do Quirinal/Presidência Italiana.

O ex-presidente do Banco Central Europeu e alto quadro da Goldman Sachs, Mario Draghi, tomou posse no passado sábado como primeiro-ministro italiano, à frente de um governo que foi apresentado como sendo uma mistura de “tecnocratas” e de “políticos” e que conta com o apoio de partidos desde o centro esquerda até à extrema-direita.

Vários dos ministros nomeados são independentes de perfil técnico como os do Ministério do Interior, nas mãos de Luciana Lamorgese; da Economia que passa a ser tutelada por Daniele Franco, vice-governador do Banco de Itália; a Transição Ecológica que fica com Roberto Cingolani, um especialista em inteligência artificial que chefia os serviços de tecnologia do grupo Leonardo, que se dedica à aeronáutica, venda de armas e tecnologia de “segurança”; a Inovação e Transição Digital da responsabilidade do ex-CEO da Vodafone, Vittorio Colao, e o da Justiça assumida pela primeira mulher a presidir ao Tribunal Constitucional, Marta Cartabia; o Ministério da Infraestrutura chefiado por Enrico Giovanini; o da Educação por Patrizio Bianchi e o das Universidades e Investigação por Cristina Messa.

Para além destes, dezasseis pastas foram distribuídas entre os partidos parlamentares. O Movimento Cinco Estrelas terá quatro ministérios, o Partido Democrático três, o Força Itália, o partido de Berlusconi, três, a Liga três, o Livres e Iguais um, assim como a Itália Viva de Renzi. Entre os principais ministérios, Luigi di Maio do Movimento Cinco Estrelas fica com os Negócios Estrangeiros, Andrea Orlando do Partido Democrata fica com o Trabalho, Dario Franceschini do mesmo partido mantém-se na Cultura e Giancarlo Giorgetti, da Liga, com o Desenvolvimento Económico que inclui a importante área da Indústria. Na Saúde, e portanto à frente do combate à pandemia, mantém-se Roberto Speranza do partido Artigo 1, uma cisão do Partido Democrático.

Esta “unidade nacional” fez-se à custa de algumas desuniões. Do lado do Cinco Estrelas, a convulsão interna sobre a decisão de integrar este executivo não acabou depois do referendo, cujo resultado foi de 59% a favor da decisão. Um dos argumentos para entrar no governo foi a criação do alegado super-ministério da Transição Ecológica, que provaria ser uma mudança de política para uma posição mais ecológica, mas os críticos desconfiam das intenções do governo e notam que, afinal, este acabou por ser o ministério do Ambiente mais a responsabilidade pelo setor da energia. Isso parece-lhes pouco, ao não incluir responsabilidades sobre a maior parte do tecido empresarial, nem sobre transportes e infraestruturas. Por isso, lançaram uma petição online para que haja um novo referendo sobre a entrada no governo, uma vez que a decisão foi tomada quando ainda não se conheciam os detalhes do ministério da Transição Ecológica.

Para que este governo seja possível, a Liga, o partido de extrema-direita de Matteo Salvini, volta a deixar de lado temporariamente o discurso contra Bruxelas para votar a favor do Fundo de Recuperação. E afirma estar “de mãos, pés, coração e cérebro na Europa” apesar de ressalvar que quer “uma Europa que defenda as empresas e a agricultura italianas.” O partido que diabolizava a imigração diz agora que, sobre o tema, apenas propõe “a adoção da legislação europeia”. Alguns setores do partido preocupam-se que mais esta viragem taticista aumente a força do seu rival na extrema-direita, os neo-fascistas Fratelli d’Italia, que têm 17% nas sondagens e cujo apoio tem vindo a crescer.

A complicada arquitetura política deste governo conheceu já a primeira mini-crise. O ministério da Saúde prolongou o encerramento das estâncias de esqui italianas poucas horas antes destas irem voltar a abrir. PD e Liga protestaram imediatamente. Na Liga, que passou a controlar o Ministério do Turismo, Gian Marco Centinaio, o senador que tem sido responsável pelo setor no partido, considera um erro terem ficado com a pasta, já que assumir funções nestas circunstâncias pode virar os empresários contra o partido.

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