Com uma participação de 44,4%, o referendo irlandês de sexta-feira sobre o papel da mulher na Constituição teve um resultado que contrariou todas as sondagens que apontavam para uma vitória do Sim em ambas as perguntas com uma margem entre os 15 e mais de 30 pontos de diferença.
Na primeira pergunta, pretendia-se substituir a atual formulação constitucional sobre a família enquanto unidade fundamental da sociedade, especificando o conceito de família "quer seja baseada no casamento ou em outras relações duradouras", Noutro artigo, ainda a propósito do casamento, retirava a expressão "no qual a Família se baseia". A proposta foi chumbada por 68% de votos Não e apenas 32% de Sim.
A segunda pergunta pretendia eliminar um artigo sobre o papel da mulher no lar, que também dizia que "o Estado deve assegurar que as mães não sejam obrigadas por necessidade económica a ir trabalhar, neglicenciando os seus deveres em casa". E propunha substitui-lo por um novo artigo a dizer que "O Estado reconhece que a prestação de cuidados, por membros da família ou outra pessoa em virtude dos laços que os unem, dá à sociedade um apoio sem o qual o bem comum não pode ser alcançado, e esforça-se por apoiar essa prestação". Esta proposta foi rejeitada com 74% de votos Não e apenas 26% no Sim.
A derrota das duas alterações postas a referendo não significa que o eleitorado irlandês tenha abraçado o conservadorismo, depois de nos últimos anos ter aprovado em referendo os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a legalização do aborto. Foi a formulação confusa e o receio de que ela abria portas a desresponsabilização do Estado na prestação de cuidados que levou o eleitorado a desmobilizar, apesar de todos os principais partidos terem apelado ao voto no Sim em ambas as perguntas.
O resultado é uma derrota pesada para a coligação de governo entre Fine Gael, Fianna Fail e Verdes e em particular para o primeiro-ministro Léo Varadkar. "Quando se perde por uma diferença destas, é porque houve muitas pessoas que se enganaram, e eu sou uma delas", afirmou o líder do executivo após o anúncio dos resultados.
Apesar de também apelar ao voto no Sim como um "pequeno passo em frente", a líder do Sinn Féin, Mary Lou McDonald, tinha sido uma das figuras críticas da proposta, considerando que “a abordagem do governo a estes referendos foi apressada e confusa”, tendo-se recusado a permitir que a oposição contribuísse para as formulações a votos. Para a dirigente partidária, isso foi “um erro” e fez com que a redação ficasse “aquém do que foi acordado pela Assembleia dos Cidadãos [um órgão consultivo popular sobre questões constitucionais] e deixou muitas pessoas numa posição muito difícil”.
“O Governo falhou redondamente no apoio e nos recursos aos prestadores de cuidados e na garantia de direitos efetivos e de serviços adequados às pessoas com deficiência” para além da retórica, dizia a dirigente dos republicanos irlandeses antes de o país ir a votos.