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Iowa Caos

Iowa Caucus isto, Iowa Caucus aquilo. É impossível navegar a internet sem ser atropelada por memes e notícias sobre a corrida à nomeação democrata - mas, afinal, do que se trata? Artigo de Sofia Oliveira
Reunião dos democratas de 2008 em Iowa City, Iowa. Os caucuses de Iowa são tradicionalmente o primeiro grande evento eleitoral de primárias e caucus presidenciais – Foto de wikipedia
Reunião dos democratas de 2008 em Iowa City, Iowa. Os caucuses de Iowa são tradicionalmente o primeiro grande evento eleitoral de primárias e caucus presidenciais – Foto de wikipedia

Os caucuses são, no fundo, reuniões/assembleias populares onde os votantes registados discutem os temas abordados pelos diferentes candidatos. Após a discussão, passamos para a votação. Os votantes agregam-se em grupos, consoante o candidato que querem apoiar, e são contados pelos “capitães de equipa”. Os grupos apoiantes só são contabilizados se conseguirem 15% dos participantes, ou seja, se um dos grupos não conseguir os 15% é desmembrado e os seus elementos são encorajados a juntar-se a um outro núcleo de apoiantes - o que é particularmente relevante, uma vez que assistimos a uma polarização entre o campo progressista (Sanders e Warren) e o campo conservador (Biden e Buttigieg). É consoante os números destes grupos que é decidido o número de delegados por candidatos, que, em julho, irão nomear o candidato presidencial democrata na Convenção Nacional. No total, há sete caucuses na corrida democrata - Iowa, Nevada, American Samoa, Northern Mariana, Wyoming, Guam e Virgin Islands. Os caucuses são uma expressão arcaica do sistema norte-americano mas promovem a discussão política em público num tempo de isolamento e vivência individual da política pelas redes sociais. Contudo temos vindo a observar que os caucuses têm vindo a desaparecer, passando a eleições primárias como as conhecemos, devido aos problemas que causam - como podemos constatar agora.

O Iowa Caucus tem uma importância simbólica visto que é o primeiro e cria todo um momentum, fortalecendo a campanha do candidato vencedor e porque, historicamente, os candidatos que conseguem a vitória no Iowa, garantem a nomeação na Convenção.

Ora, vamos então perceber o que é que aconteceu na noite do dia 3 de fevereiro. Os caucuses, ao contrário das primárias, são organizados pelas estruturas locais dos partidos. O Partido Democrata do Iowa contratou uma start-up para desenvolver a app de contagem de votos, mas fê-lo com apenas dois meses de antecedência e à porta fechada. A aplicação não foi testada previamente e quando chegou à altura de contar os votos, a app revelou-se um fiasco - não estava operacional em todos os dispositivos, não transmitia a contagem dos votos locais aos responsáveis pela contagem final e visto que era uma app nova, muitos dos voluntários não sabiam como funcionava. Estes problemas obrigaram à contagem dos votos, de todos os 1765 locais, manualmente - os voluntários mantiveram registos escritos e fotográficos de todos os votos - o que causou um atraso na divulgação dos resultados.

Apesar de todas as sondagens apontarem para a vitória de Bernie Sanders, foi Pete Buttigieg quem se auto-proclamou vencedor, sem quaisquer números oficiais. Neste momento - às 9 da manhã do dia 6 de fevereiro -, com 97% dos votos apurados, Sanders tem maior percentagem no voto popular e apenas um recuo de 0.1% (em número de delegados) em relação a Buttigieg, que aproveitou o caos para afunilar a sua narrativa vitoriosa, roubando o momentum à campanha de Bernie Sanders. Não deixa de ser engraçado relembrar que Pete Buttigieg é o mesmo candidato que disse, num debate, “the person who gets the most votes, ought to be the person who wins”. Mas, afinal, quem é Buttigieg?

Pete Buttigieg, antigo mayor de South Bend, Indiana, com uma alergia à agenda progressista do partido, juntou-se à corrida em abril de 2019 e é um candidato que apresenta contradições, muito à imagem do Partido Democrata. Contrariamente ao que nos quer fazer acreditar, apresentando uma suposta base de coligação entre trabalhadores da classe média, classe baixa, mulheres e afro-americanos, Buttigieg não tem o apoio dos seus constituintes em South Bend. Desde o seu primeiro mandato, em 2012, o mayor Pete deixou bem clara a sua agenda neoliberal, começando pela destruição de casas cujos proprietários não tinham meios para as recuperar (e, por isso, não mereciam lugar na sua nova cidade), pela criminalização de pessoas desalojadas, pela redução de impostos e entrega de subsídios a empresas para construção de condomínios e apartamentos de luxo, pelos despejos que duplicaram e até passando pelo despedimento daqueles que alertaram para o racismo nas forças policiais.

Buttigieg, apesar do seu péssimo histórico, consegue os seus cinco minutos de fama, e centrando a sua campanha em questões pessoais, como o facto de ser jovem e gay, e consegue afastar-se do seu programa altamente conservador - de referir que Buttigieg não defende uma universidade pública e gratuita, não defende um sistema nacional de saúde público e não tem uma solução real para o caos climático.

Deste Iowa Caos podemos retirar duas conclusões: este sistema de caucuses é arcaico e não tem legitimidade junto da população, os seus votos não ditam os resultados e podem ser facilmente descredibilizados, como vimos acontecer em vários locais onde se decidiu o número final de delegados atirando uma moeda ao ar. Com as primeiras primárias ao virar da esquina, (em New Hampshire, a 11 de fevereiro) a luta entre o campo progressista e o conservador afunila-se cada vez mais. Deixamos para trás os meses em que olhamos para estas eleições como uma competição entre personalidades e começamos a ver aquilo que politicamente interessa, uma disputa ideológica.

Artigo de Sofia Oliveira

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