Futebol

Investigação mostra influência das casas de apostas online no futebol europeu

30 de março 2025 - 10:10

Ligas e campeonatos vendem o seu nome a estas empresas. Esta época 66% dos clubes europeus têm pelo menos um acordo com um delas. Um terço usam o seu nome como patrocínio nas suas camisolas principais.

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Futebol e apostas online
Imagem de Georgina Choleva/Spoovio/Investigate Europe

O consórcio de jornalistas Investigate Europe publicou esta sexta-feira uma investigação que mostra a dimensão da dependência económica do futebol europeu dos patrocínios das casas de apostas online. Em 31 ligas europeias , 66% dos clubes, 296 em 442, têm na época desportiva de 2024/2025 pelo menos um acordo comercial com uma destas empresas.

Um terço têm-nas mesmo como patrocínio nas camisolas das equipas principais. Na liga inglesa, onze equipas têm atualmente um logótipo de empresas de jogo online nas suas camisolas principais, a maior proporção nos maiores campeonatos do continente. Neste país este tipo de negócios pagou cerca de 135 milhões de dólares para este efeito. Na próxima época entrará em vigor uma interdição de patrocínios nas camisolas, o que não quer dizer que o dinheiro deixe de fluir. Até porque todas as equipas têm destes patrocínios nas suas páginas e “alguns logótipos estão a passar para os calções, as mangas e os equipamentos de treino”.

Destaque ainda para a Hungria onde todas as principais equipas têm logótipos de empresas de jogo e para Bulgária, Grécia, Roménia e Portugal onde mais de 70% também os têm.

Esta influência estende-se às próprias ligas. Quase metade delas, 14 em 31, depende de patrocínios das casas de apostas ou de lotarias dando azo a campeonatos com nomes como Admiral Bundesliga na Áustria, William Hill Premiership na Escócia, Stoiximan Super League na Escócia, Chance Liga na República Checa ou até a Liga Portugal Betclic.

Este trabalho de investigação mostra que todas as equipas da Premier League e da Eredivisie holandesa têm algum tipo de parceiro de apostas para esta temporada. E que Portugal, Alemanha e Grécia “são também mercados importantes”. Isto para além das maioria das equipas de topo da Hungria, Roménia e Bulgária terem inscritas nas suas camisolas as marcas das casas de apostas.

Por causa das preocupações que têm suscitado os problemas de dependência do jogo, há em vários países limites à publicidade destas plataformas. Mas os jornalistas descobriram que há clubes na Bélgica e em Itália que “encontraram formas de contornar as restrições à publicidade em camisolas utilizando logótipos de notícias/entretenimento ou de caridade das marcas nos seus equipamentos”. Ou seja, arranjaram sub-marcas. Por exemplo, o Club Brugge já não usa na sua camisola o nome da Unibet. Mas agora nela está inscrita a U-Experts, uma aplicação online da mesma empresa que tem ligações para o seu casino online.

Em Itália a proibição vigora desde 2018 mas a cada jornada é ostensivamente contornada em camisolas como as do Inter (Betsson.sport), Parma (AdmiralBet.news) e Lecce (BetItalyPay).

Para além de equipamentos e de páginas de clubes, o dinheiro das casas de apostas é também colocado nos anúncios. Só no fim de semana de abertura desta temporada contabilizaram-se quase 30.000 anúncios ao jogo online transmitidos para o público em estádios e na TV, rádio e redes sociais. Isto é mais 165% do que no ano anterior.

Para estas empresas, o futebol é o seu alvo natural já que diz respeito a 68% dos seus ganhos na Europa, América Latina, Ásia e África. São pelos 105 entre as grandes marcas Kindred, Kaizen, Entain, Unibet, Betano, Betway e Bwin. Isto além de empresas de jogo estatais como a Lotto na Alemanha e a Vriendenloterij nos Países Baixos.

Mas entre os patrocinadores detetados há também alguns, como do AC Milan, a Boomerang Bet, e do estónio Nõmme Kalju, a Marsbet, que não têm sequer licença para funcionar no próprio país do patrocinado. Há ainda “dezenas de outras empresas patrocinadoras de equipas” que “foram incluídas na lista negra de autoridades nacionais noutras partes do continente” como a Unibet na Grécia, a Novibet e Betsson na Roménia e a Pokerstars na Hungria. O patrocinador da Uefa Champions League, a Bet365, está bloqueada na Lituânia. Já outros não são propriamente conhecidos pela maioria das pessoas, tendo-se identificado “vários operadores asiáticos pouco conhecidos”.

Do lado de quem contesta esta presença encontramos organizações não governamentais como a Gambling with Lives que sublinha que o futebol é a porta de acesso destas empresas para o seu público-alvo, os homens mais novos e as apostas em resultados deste desporto acabam por funcionar como uma passagem para outro tipo de apostas “mais prejudiciais”.

Por seu turno, Charles Livingstone, membro do Grupo de Peritos em Jogo e Perturbações do Jogo da Organização Mundial de Saúde, informa que as investigações na área mostram claramente que quanto mais exposição tiver a anúncios de jogo, maior será a probabilidade de jogar. Daí os anúncios no futebol serem uma forma de recrutamento eficaz por parte de um negócio que o tem de fazer constantemente por “os seus melhores clientes são aqueles que vão à falência”. Este especialista alerta que 80% das receitas destas empresas são provenientes de pessoas com problemas de jogo.