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A Internacional faz 150 anos

A Internacional é um poema escrito em 1871 por Eugène Pottier, operário e poeta, participante destacado na Comuna de Paris. Só em 1888, Pierre Degeyter compõe a música do hino que se tornará símbolo universal das lutas dos trabalhadores. Em Portugal foi traduzido em 1909, pelo anarcosindicalista Neno Vasco. Por Álvaro Arranja.
Primeira publicação da letra e música da Internacional. Imagem: wikimedia commons.
Primeira publicação da letra e música da Internacional. Imagem: wikimedia commons.

Os acontecimentos da Comuna de Paris foram o caldo de cultura revolucionária na origem do poema da Internacional. Eugéne Pottier militante “communard” foi eleito membro da Comuna no 2º bairro de Paris e “Maire” até 28 de maio de 1871. Combate durante a semana sangrenta contra as tropas do governo de Versalhes que esmagou a Comuna com o sangue de milhares de mortos. Apesar de ser dado como morto por fuzilamento, consegue sobreviver à terrível repressão.

Foi escondido nesta Paris maltratada que escreveria A Internacional. Conseguirá fugir para a Bélgica, depois para a Inglaterra e finalmente para os Estados Unidos. Só voltou a França em 1880, após a amnistia dos “communards”.

O poema é publicado pela primeira vez, em 1887, na coleção intitulada “Les Chants Révolutionnaires”. Pottier morre nesse ano e milhares de parisienses acompanham o cortejo fúnebre ao “Mur des Fédérés” (onde tinham sido fuzilados os últimos resistentes da Comuna), no cemitério do Père Lachaise, com o grito de "Vive la Commune!" Quando morre, Pottier é uma figura reconhecida, mas, paradoxalmente, o seu texto hoje mais famoso, A Internacional, era quase ignorado.

Só em 1888 é que o poema de Pottier foi musicado. Gustave Delory, líder socialista de Lille, procurava um texto suscetível de se tornar a música oficial da seção de Lille do Partido Operário Francês (POF). Escolhe A Internacional, que tinha descoberto na edição de 1887 dos “Chants Révolutionnaires”.

Pede a Pierre Degeyter, trabalhador e membro da "«La Lyre des Travailleurs », coral da Federação Norte do POF, para compor a música para o poema. Pierre Degeyter começou imediatamente o trabalho e em 23 de julho de 1888, A Internacional foi interpretada pela primeira vez em público pela “Lyre des Travailleurs”, durante uma festa organizada em Lille.

Inicia-se então o caminho que levará a canção de Pottier e Degeyter a tornar-se um hino internacional.

Em 1896, o congresso do POF, reúne milhares de militantes franceses e de partidos socialistas estrangeiros. No último dia do congresso, um desfile é organizado nas ruas de Lille. Os operários da cidade, acompanhados por uma banda, cantam A Internacional. Ao coro juntam-se os militantes socialistas estrangeiros presentes. A Internacional torna-se o hino dos partidos socialistas franceses e, em 1905, no congresso unificador, é o hino da SFIO (Seção Francesa da Internacional Operária), partido que agrega todos os socialistas franceses.

Gradualmente vai-se tornar num hino universal.

Em 1900, no congresso socialista internacional realizado em Paris, os delegados vindos do mundo inteiro separam-se cantando A Internacional.

Em Copenhaga, na abertura do congresso socialista internacional de 1910, é cantada por 500 coristas, acompanhados por uma orquestra.

Depois da revolução de 1917, A Internacional torna-se o hino oficial da República Soviética da Rússia, depois URSS, até 1944. É também o hino da Internacional Comunista.

Será ainda cantada durante a revolução spartakista na Alemanha de 1918-1919, na efémera República dos Conselhos na Hungria de 1919, na Espanha republicana de 1936-1939 ou nas manifestações e assembleias gerais durante o Maio de 68.

Torna-se um hino comum aos diversos movimentos de esquerda, anarquistas, comunistas, socialistas e sociais-democratas.

A Internacional em Portugal

Em Portugal o poema de Pottier é traduzido em 1909, por Neno Vasco (pseudónimo literário e político de Gregório Nazianzeno Vasconcelos), destacada figura do movimento anarquista e sindicalista, em Portugal e no Brasil. Nascido em Penafiel, bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, vive muitos anos no Brasil, regressando a Portugal após a implantação da República. Colabora em vários órgãos da imprensa anarquista e sindicalista, como O Sindicalista, A Aurora ou A Sementeira. Publica vários livros, destacando-se A Concepção Anarquista do Sindicalismo. A sua tradução de A Internacional, com ligeiras alterações (designadamente no terceiro verso, por “Da ideia a chama já consome”), é a mais usada em português:

 

A pé, ó vítimas da fome!

A pé, famélicos da terra!

Ruge a razão, ruge e consome

A crosta bruta que a soterra.

Cortai o mal bem pelo fundo!

A pé! A pé! não mais senhores!

Se nada somos em tal mundo,

Sejamos tudo, ó produtores!

Bem unidos façamos

Nesta luta final,

Duma terra sem amos

A Internacional.

Messias, deus, chefes supremos,

Nada esperemos de nenhum!

Unamos forças e tornemos

A Terra-Mãe livre e comum!

Para não ter protestos vãos,

Para sair deste antro estreito,

Façamos nós por nossas mãos

Tudo o que a nós nos diz respeito!

Bem unidos…

Crime de rico a lei o cobre,

O Estado oprime o desgraçado.

Não há direitos para o pobre,

Ao rico tudo é tolerado.

À opressão não mais sujeitos!

Somos iguais todos os seres.

Não mais deveres sem direitos,

Não mais direitos sem deveres!

Bem unidos…

Abomináveis na grandeza,

Os reis da mina e da fornalha

Edificaram tal riqueza

Sobre o suor de quem trabalha!

Todo o produto de quem sua

A corja rica o recolheu.

Querendo que ela o restitua,

Reclama o povo o que é bem seu!

Bem unidos…

Fomos de fumo embriagados,

Paz entre nós, guerra aos senhores!

Façamos greve de soldados:

Somos irmãos, trabalhadores!

Se a raça vil, cheia de galas,

Nos quer à força canibais,

Logo verá que as nossas balas

São para os nossos generais!

Bem unidos…

Somos o povo dos activos

Trabalhador, forte e fecundo.

Pertence a Terra aos produtivos;

Ó parasitas, deixai o mundo!

Ó parasita que te nutres

Do nosso sangue a gotejar,

Se nos faltarem os abutres

Não deixa o sol de fulgurar!

Bem unidos…

O movimento operário português de inspiração predominantemente anarcosindicalista, particularmente ativo após o 5 de Outubro de 1910, vai adotar A Internacional nas suas diferentes ações, antes que passe a ser um hino clandestino com a ditadura, entre 1926 e 1974.

Diversas são as referências dessa adoção.

Logo em novembro de 1911, no 1º Congresso Anarquista Português, os participantes terminam as sessões entoando A Internacional(1).

Depois, quer em momentos de luta, quer em momentos de festa, A Internacional, acompanhará o movimento operário na 1ª República.

Vemos isso na cobertura que a A Batalha, jornal diário da CGT de grande tiragem, faz da manifestação do 1º de Maio de 1919:

“Corriam tétricos boatos acerca do dia 1º de Maio. A burguesia acreditava plenamente numa jornada sangrenta, em que os sans-cullotes sairiam das suas alfurjas e viriam atravessar os bairros chics, provocando e ameaçando as pessoas de respeitabilidade. Visionavam-se já os assaltoa à propriedade do honrado comércio da nossa praça e às própria residências particulares. Nédios e anafados, capitalistas acordaram sobressaltados na madrugada do grande dia, cuidando ouvir ao longe o ulular das multidões esfaimadas. Mas afinal, as comemorações do 1º de Maio decorreram serenamente.

Foi em Lisboa que a manifestação atingiu o máximo de intensidade. A paralisação foi absoluta e ao comício monstro efetuado nas terras do Parque Eduardo VII, acorreram cerca de 30000 operários, que depois, em grande número, atravessaram a cidade, vindo saudar A Batalha, cantando bem alto A Internacional e hasteando bandeiras vermelhas”(2)

Em 1922, A Batalha noticia uma “velada social” (uma festa de convívio e atividades culturais) da Juventude Sindicalista, dos operários do calçado, couro e peles onde:

“a Tuna da Construção Civil abrilhantou o acto executando, além de excelentes trechos do seu repertório, A Internacional, que a assistência acompanhou em coro”.(3)

José Rodrigues Miguéis, no seu romance O Milagre Segundo Salomé,transmite a força do hino operário, durante uma greve da construção civil de junho de 1919:

“A construção civil desfila, electrizada de unidade, homogénea, esmagadora e ressonante(...)As janelas fecham-se. Os taipais das lojas protegem as vidraças e as mercadorias(...) Desembocam no Rossio, vasto e vazio como a arena do Colosseum. A voz abre as formidáveis asas, assusta as pombas do Libertador: Duma terra sem a-a-a-amos, a In-ter-na-cio-nal!..”(4)

Notas:

  1. Rodrigues, Edgar, O Despertar Operário em Portugal 1834-1911, Lisboa, Sementeira, 1980, pág. 243.

  2. A Batalha, 3 de maio de 1919.

  3. A Batalha, 11 de fevereiro de 1922.

  4. Miguéis, José Rodrigues, O Milagre Segundo Salomé II, Lisboa, Estúdios Cor, 1974, págs 37,38.

Sobre o/a autor(a)

Professor e historiador.
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