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Interesses cruzados entre banca, negócios e futebol são inaceitáveis

Catarina Martins criticou novamente a nomeação de Vítor Fernandes para chairman do Banco de Fomento, o ex-administrador do Novo Banco que terá ajudado Luís Filipe Vieira a contornar o Fundo de Resolução na compra dos seus créditos tóxicos.
O currículo do gestor bancário é longo, e está proximamente ligado a António Ramalho, atual presidente do Novo Banco. Foto de Tiago Petinga, Lusa arquivo.
O currículo do gestor bancário é longo, e está proximamente ligado a António Ramalho, atual presidente do Novo Banco. Foto de Tiago Petinga, Lusa arquivo.

Vítor Fernandes, nomeado pelo governo como chairman do Banco de Fomento e confirmado pelo Banco em fevereiro deste ano, está agora sob suspeita do Ministério Público de ter ajudado Luís Filipe Vieira no processo de compra de 54,3 milhões de euros em dívidas da Imosteps (uma das empresas de Vieira) ao próprio Novo Banco, por apenas 9,1 milhões de euros.  

Terá sido o próprio Vítor Fernandes, na altura administrador do Novo Banco, a alertar Luís Filipe Vieira para a impossibilidade de a operação ser aprovada pelo Fundo de Resolução, que estaria a financiar as perdas provocadas pela operação com dinheiro dos contribuintes, a favor de Vieira. Em alternativa a dívida da Imosteps foi integrada no veículo Nata II e depois vendida ao fundo Davidson Kempner por 6,6 milhões de euros. Logo de seguida, este fundo vende a Luís Filipe Vieira a mesma dívida por 9,1 milhões de euros.

A operação, detalhada pelo jornal Público, tem pormenores estranhos, uma vez que, ainda antes deste fundo americano adquirir a dívida da Imosteps, já Luís Filipe Vieira tinha entrado em contacto com a empresa para futuras operações, que se vieram a concretizar imediatamente após a Davidson Kempner comprar o Nata II ao Novo Banco. Este contacto, e a própria solução para Luís Filipe Vieira, só poderá ter sido facilitado através de Vítor Fernandes.   

O currículo do gestor bancário é longo, e está proximamente ligado a António Ramalho, atual presidente do Novo Banco. Passou pela administração da Caixa Geral de Depósitos, na equipa de Carlos Santos Ferreira, na altura em que o banco serviu de financiador de créditos para acionistas do BCP, banco para o qual depois transitou na administração do mesmo Carlos Santos Ferreira, altura em que António Ramalho era CFO do banco.  

A nomeação de Vítor Fernandes para chairman do Banco de Fomento, que irá gerir os fundos europeus destinados às empresas, foi na altura criticada por Mariana Mortágua pelas dúvidas que o seu currículo levantava à idoneidade que o cargo exige. Mas o Ministro das Finanças, João Leão, deixou de lado qualquer dúvida, considerando que o nomeado teria “currículo relevante” para justificar a nomeação.

O Banco de Portugal, que confirmou na altura Vítor Fernandes para o Banco de Fomento, irá agora avaliar os dados que vieram a público através da investigação do Ministério Público, para confirmar se estes obrigam a uma reavaliação da idoneidade.

Questionada pela comunicação social este sábado sobre a nova informação, Catarina Martins considerou que são “processos importantes” a um “triângulo muito perigoso entre o negócio imobiliário, a banca e a política, com futebol à mistura, facto que levou muita gente a fechar os olhos”, mas que “não são surpresa para ninguém e que o Bloco de Esquerda vem denunciando há anos”.

“Não esquecemos que aquilo que está agora a ser investigado são casos com dez anos. E a investigação só começou depois do BES ter explodido. Precisamos garantir que não estão novamente em novas bolhas imobiliárias que daqui a dez anos irão criar novos buracos para os contribuintes pagarem. Precisamos mudar a política, caso contrário estaremos a ver bolhas rebentar de dez em dez anos”, disse.

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