O jogo de futebol que opôs este fim de semana as equipas do Valencia e Real Madrid acabou em tumulto, com o jogador Vinicius Jr. a ser alvo de insultos racistas, dirigindo-se junto das bancadas para apontar um dos autores dos insultos. O jogo esteve interrompido cerca de 10 minutos, até que os altifalantes do estádio emitissem o aviso de que poderia terminar de imediato caso continuasse. Pouco depois de ser retomado, os jogadores envolveram-se em discussões e Vinicius Jr. acabou expulso do encontro.
“O prémio que ganharam os racistas foi a minha expulsão! Não é futebol, é La Liga!”, desabafou o jogador nas redes sociais a seguir ao jogo, responsabilizando os organizadores do futebol espanhol por pactuarem com a situação. “O campeonato que foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi, hoje é dos racistas”, sublinhou.
A projeção mediática do futebol espanhol fez o sucedido dar a volta ao mundo em poucos minutos. No Japão, à margem da reunião do G7, o Presidente brasileiro Lula da Silva reagiu dizendo que “não podemos permitir que o fascismo e o racismo tenham lugar nos campos de futebol”. Esta segunda-feira, a ministra brasileira da Igualdade Racial anunciou que o governo brasileiro vai pressionar as autoridades espanholas para que a situação seja investigada. "A gente vai notificar através do MP para que a La Liga responda pelos seus atos. A gente vai para cima das autoridades, notificar, oficializar para que tenha uma resposta. O histórico da La Liga não é bom, é bem racista", disse Anielle Franco.
Mais de 60 incidentes de violência e racismo na primeira metade da época desportiva
Os insultos racistas nos estádios espanhóis não são novidade e Vinicius Jr. tem sido um dos principais alvos. Com o que se passou em Valência, esta é já a décima vez que os insultos racistas contra ele deram origens a queixas às instâncias federativas. E isso levou o jogador a entrar em rota de colisão com os donos do futebol em Espanha.
“Infelizmente, para tudo o que acontece a cada semana, não tenho defesa. Pronto. Mas sou forte e irei até ao fim contra os racistas. Mesmo que seja longe daqui”, afirmou Vinicius Jr., abrindo a porta à saída daquele campeonato. Apesar de considerar Espanha “um país bonito, que me acolheu e que eu amo, mas que aceitou exportar ao mundo a imagem de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país racista”, apontou.
Líder da Liga de clubes ataca Vinicius Jr.
Minutos depois destas declarações nas redes sociais, o presidente da Liga espanhola e apoiante do partido da extrema-direita Vox, respondeu-lhe em tom acusatório, afirmando que o jogador não compareceu aos encontros marcados para lhe serem dadas explicações sobre o que a instituição pode fazer nestes casos. Vinicius não perdeu tempo a responder-lhe que “uma vez mais, em vez de criticar os racistas, o presidente da Liga aparece nas redes sociais para atacar-me”. “Não sou teu amigo para falar de racismo. Quero ações e castigos“, reclamou o jogador.
Por seu lado, o presidente da Federação Espanhola de Futebol aponta o dedo aos clubes pela ineficácia das sanções. “Houve sanções de estádios total ou parcialmente fechados que foram adiadas por causa dos recursos. Peço aos clubes que não atrasem estes procedimentos”, afirmou Luis Rubiales. E dirigindo-se ao seu homólogo brasileiro, pediu-lhe que “ignore o comportamento irresponsável do presidente da Liga, que se envolveu numa discussão com um futebolista que tinha acabado de receber insultos racistas”.
A onda de solidariedade com Vinicius deu a volta ao mundo mas começou no próprio estádio do Valencia, com o treinador da sua equipa, o italiano Carlo Ancelloti, a recusar-se a comentar o jogo, pois “o mais importante” tinha sido o facto de o seu jogador ter manifestado vontade de abandonar a partida por causa dos insultos. “Disse-lhe: não acho justo que tenhas de sair, não és o culpado, és a vítima”. Para Ancelloti, o que se passou não foi só por causa de uma pessoa. “Aqui é um estádio que insulta um jogador por racismo e o jogo tem de parar. Diria o mesmo se estivéssemos a ganhar por 3-0. Tem de se parar o jogo. Não há outra forma” de lidar com o assunto, acrescentou. Por seu lado, o guarda-redes Thibaut Courtois afirmou que “Se o ‘Vini’ dissesse ‘não jogo mais’ eu tinha ido embora do campo com ele. É algo que não podemos tolerar”.