A Health Action International revela que um mês de glargina, uma insulina de ação prolongada usada por diabéticos tipo 1, custa até 27 dias de salário nos Camarões e 20 dias na Nigéria e em Mianmar. O estudo desta organização não governamental (ONG), citado pelo The Guardian, conclui, por outro lado, que em países de rendimentos médios altos, a insulina custa em média quatro dias de trabalho.
Com base nos preços praticados em farmácias de 47 países, a ONG apurou o custo de 1.000 unidades de insulina, aproximadamente o necessário para um mês, comparando-o com o salário ganho pelo funcionário público não qualificado mais mal pago de um país, uma medida frequentemente usada para avaliar a acessibilidade dos medicamentos.
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A médica Marg Ewen, que liderou o projeto, defendeu que um mês de insulina não deveria custar mais do que um dia de trabalho, por forma a assegurar a acessibilidade do medicamento.
Há cerca de 100 anos, a insulina humana foi desenvolvida e injetada para tratar o diabetes. Os cientistas que a desenvolveram protegeram-na de ser patenteada, pretendendo que permanecesse acessível. No entanto, a insulina sintética moderna é patenteada por algumas empresas, que têm vindo a ser criticadas por cobrar preços altos.
Os valores cobrados flutuam significativamente consoante o país: por 1000 unidades paga-se 159 euros (172 dólares) nos Estados Unidos, 111 euros no Líbano, 71 euros na Etiópia e mais de 37 em Camarões, Nigéria e Mianmar. A insulina é mais barata em países como Dinamarca, Noruega, Bélgica e França. Na Austrália, a insulina custa 14 euros.
A falta de transparência nos custos de aquisição de insulina torna difícil saber por que razão os preços são tão diferentes, mas os custos adicionais ao longo da cadeia de abastecimento de importadores, distribuidores e venda a retalho, bem como impostos sobre vendas, serão fatores a ter em consideração.
Cyrine Farhat, que tem diabetes tipo 1 e é fundadora do grupo de advocacia Positive on Glucose, sediado no Líbano, afirmou que a crise económica do país tornou a insulina inacessível para muitas pessoas. Conforme explicou ao media britânico, as despesas agravam-se no seu país porque o sistema de saúde é, na sua maioria, privatizado, obrigando as pessoas a pagar pelos serviços básicos necessários para lidar com a doença.
A diretora executiva do grupo de advocacia T1International, alertou que muitas pessoas têm de escolher entre colocar comida na mesa ou comprar insulina para os filhos. “Há pessoas que estão a racionar insulina e conheço pessoas que vão depender totalmente de doações”, frisou Elizabeth Pfiester.
Defendendo que o equipamento de teste de glicose no sangue e a insulina deveriam representar um máximo de 5% do rendimento médio, Pfiester apontou que “a insulina é tão essencial quanto a água para as pessoas com diabetes tipo 1”.
“Se não o tivermos, morreremos. É simples assim”, disse.