“I broke the code”: construindo uma sociedade mais unida a partir da música

por

Leonardo Camargo Ferreira

25 de maio 2024 - 16:04
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A música apresentada por Nemo pode, muito facilmente, constituir uma relíquia social; ou, escrevendo de outra forma, um objeto precioso de análise sociológica

Nemo
Atuação de Nemo após a vitória no Festival da Eurovisão. Foto Alma Bengtsson/UER

Uma edição marcada por polémicas e pelo questionamento do seu caráter apolítico: foi assim o Festival Eurovisão da Canção de 2024. Onde parece existir um chão comum que permite a união das pessoas, a verdade é que nem sempre a arte se revela capaz de esbater as diferenças mais obstaculizantes, emergindo tensões que se espalham por todo o campo cultural.

Neste sentido, perante todos os episódios que tornaram esta Eurovisão a mais conturbada de sempre, gostaria de realçar mais o que nos aproxima do que o que separa. Para tal irei recorrer ao facto de a Suíça ter sido a grande vencedora deste ano. Com o seu The Code (por sinal a minha canção favorita da presente edição), Nemo conseguiu demonstrar que, independentemente daquilo que acontece durante as nossas vidas, todos temos uma jornada que nos requer esforço por implicar a quebra de um padrão.

Abordemos primeiro a letra da canção. Começando pelo próprio refrão, identificamos uma pessoa que diz ter chegado tão longe, isto é, que afirma ter enfrentado as mais duras vivências da realidade para descobrir quem é (“I, I went to Hell and back/ To find myself on track”). E, como uma “amonite” – símbolo da antiguidade, eventualmente dos velhos padrões – necessitou de se questionar se realmente aquela divergência identitária era real (e correta, acabando por o ser para si e conduzindo à paz, ao “paraíso” – “Like ammonites/ I just gave it some time/ Now I found Paradise”). Por entre estes versos é proferido, sempre, um par de vezes a expressão “I broke the code”, que, no fundo, é o verdadeiro significado desta obra-prima: a necessidade de terminar com os paradigmas enraizados que se manifestam desigualitários e discriminatórios.

A música apresentada por Nemo pode, muito facilmente, constituir uma relíquia social; ou, escrevendo de outra forma, um objeto precioso de análise sociológica. Em pleno palco assistimos a subidas e descidas, bem como (des)equilíbrios, que representaram as dificuldades que est@ artista enfrentou na descoberta da sua não-binariedade. A verdade é que a exploração da sexualidade, da orientação sexual e da expressão de género são um percurso, não implicando nunca que estejam fechadas à partida ou em qualquer momento. Como afirma Nemo, é entre os 0 e os 1 que nos localizamos, num espetro que é tão mais vasto do que as categorias tradicionais que auto e hetero impingimos (“Somewhere between the O's and ones/ That's where I found my kingdom come”). Por isso mesmo Nemo, no início, tentava fixar-se nas plataformas, mas nunca conseguia: não tinha encontrado o seu lugar, aquele em que se sentia a si mesm@. Contudo, no final, após os últimos movimentos rotativos de uma base que demonstrou ser desafiadora, Nemo conseguiu o equilíbrio. Por outras palavras, encontrou a sua identidade, o que produziu bem-estar, alívio e amor-próprio.

Mesmo o controlo da voz, os diversos ritmos, a aplicação de estilos tão diferenciados que vão do rap à ópera, demonstram que os valores mais elevados devem ser os da diversidade e do acolhimento da mesma, dado que a vida é profundamente complexa para nos encerrarmos em categorias estereotipadas. Através da arte, Nemo intenta ao máximo proceder a uma demonstração daquilo a que qualquer ser humano se sujeita quando envereda numa caminhada de autodescoberta: “lows and highs” constantes que, no final, se nos respeitarmos, desembocam numa autossatisfação verdadeira.

Por ter adorado a canção e ter reconhecido nela sério talento e enormes qualidade e utilidade sociais, congratulo francamente Nemo, esperando que, com esta vitória, ainda subsista na Eurovisão o espírito que tem permitido a milhões de pessoas apreciarem este certame durante anos e anos: a apresentação e a comunicação das diferenças, não como barreiras, mas como pontes de conexão entre a humanidade.


Leonardo Camargo Ferreira é licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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