Habitat, cadeia de venda de mobiliário vai a falência em França

29 de dezembro 2023 - 17:57

383 trabalhadores ficarão desempregados e há nove milhões de euros em dívida só a clientes que pagaram depósitos para a compra de produtos que não chegaram a receber e cujo montante poderá não ser ressarcido. Fala-se em 30 milhões de euros que se “evaporaram misteriosamente das contas em dois anos”.

PARTILHAR
Loja da Habitat. Foto de Jula2812/Wikimedia Commons.
Loja da Habitat. Foto de Jula2812/Wikimedia Commons.

Esta quinta-feira, o Tribunal Comercial de Bobigny decidiu a liquidação da cadeia de mobiliário Habitat em França considerando não haver “qualquer possibilidade de desenvolver um plano de recuperação”, estando a empresa a viver uma situação “irreparavelmente comprometida” “pela falta de tesouraria e pela impossibilidade de utilização da marca” e porque “a empresa já não tem faturação, as lojas estão fechadas”.

A Habitat contava com 25 lojas no país, sem contar com franchisings, e 383 trabalhadores que ficarão agora desempregados. Estas já tinham sido fechadas a 11 de dezembro, assim como o sistema de vendas pela internet e o apoio ao cliente.

A empresa fora fundada em 1964, no Reino Unido, por Terence Conran, sendo uma marca especializada na venda de mobiliário e acessórios de decoração que atravessou fronteiras. Foi comprada em 2011 pela Cafom SA, um grupo francês de distribuição que por sua vez a acabou por vender a Thierry Le Guénic em 2020. A venda excluiu os direitos internacionais de propriedade intelectual da marca que continuaram nas mãos da Cafom e a operação e os direitos no Reino Unido que são detidos pela Sainsbury's.

E é precisamente Le Guénic que está na mira dos trabalhadores pela sua gestão. Comprador em série de empresas em dificuldade, é acusado de ter desviado o dinheiro da empresa através de várias holdings e os administradores deverão ter de responder em tribunal. O empresário nega numa carta dirigida à AFP e desculpa-se com um “contexto económico muito desfavorável”e “resistências internas evidentes”.

Não deixa de haver um elemento de verdade nas queixas do patrão: a venda de mobiliário em França está em queda. Segundo o Instituto de prospetiva e de estudo sobre mobiliário, o mercado no setor contraiu 7 % em outubro deste ano quando comparado com o ano anterior. Os custos de produção subiram, com a guerra na Ucrânia, país de onde vinha madeira e aço, e com eles subiram também os preços de venda ao público. E, ao mesmo tempo, a concorrência apertava o mercado sobretudo devido à hegemonia da Conforama-But e do Ikea.

Só que, segundo os cálculos do Mediapart, perto de 30 milhões de euros “evaporaram-se misteriosamente das contas em dois anos”. O jornal online informa que segundo os últimos resultados financeiros publicados, de fim setembro de 2021, havia “uma tesouraria positiva de 12 milhões de euros, um stock de 20 milhões de euros e um resultado operacional corrente negativo de 2,5 milhões de euros para um volume de negócios anual de 85 milhões”, números que, afirma-se, não teriam como levar “rapidamente à liquidação” da empresa.

Os trabalhadores queixam-se de um sistema de “opacidade” no qual “exceto o acionista, o gerente geral e o diretor financeiro, ninguém viu uma conta operacional de loja há três anos nesta empresa”, declarou um trabalhador. Também nas reuniões sindicais, denuncia Ratiba Hamache da CGT, o silêncio era regra.

Para além dos trabalhadores, também muitos consumidores deverão ficar a perder. A marca estava a vender sem ter stock e estima-se que haja nove milhões de euros em dívida de depósitos pagos por clientes. Na lista de prioridade, estes só são pagos depois do Estado e dos trabalhadores pelo que há a possibilidade de não chegarem a ser reembolsados já que também há rendas e fornecedores por pagar.