p { margin-bottom: 0.21cm; }a:link { }
Em Janeiro de 1863, a ordem do presidente Abraham Lincoln a um general comandante recém-nomeado foi simples: "Dê-nos vitórias." A ordem tácita do presidente Barack Obama aos seus generais equivale a isto: "Dêem-nos condições que permitam uma retirada digna." Uma incisiva citação do novo livro de Bob Woodward captura a essência de uma incipiente Doutrina Obama: "Passe a bola e saia."
Entrar numa guerra geralmente é muito fácil. Sair tende a ser algo totalmente diferente – especialmente quando o comandante-em-chefe e os seus comandantes de campo discordam sobre a conveniência de fazê-lo.
Feliz aniversário, América. Há nove anos – em 7 de Outubro de 2001 –, uma série de bombardeios aéreos dos EUA contra alvos no Afeganistão lançou a campanha inaugural do que depois se tornou a mais longa guerra da nação. Três mil, duzentos e oitenta e cinco dias depois, a luta para decidir o futuro do Afeganistão continua. Pelo menos em parte, a "Operação Liberdade Duradoura" tem honrado o nome: certamente provou ser duradoura.
No momento em que o conflito antes conhecido como Guerra Global contra o Terror entra no décimo ano, os norte-americanos têm o direito de perguntar: quando, onde e como a guerra vai terminar? Grosso modo: estamos quase lá?
Obviamente, com o passar do tempo, tem sido cada vez mais difícil discernir onde fica o "lá". Bagdad mostrou que não é Berlim e Kandahar certamente não é Tóquio. Não espere ver a CNN transmitindo uma cerimónia de rendição tão cedo.
Eis o que sabemos: uma empreitada que começou no Afeganistão, mas logo em seguida se concentrou no Iraque, agora voltou-se – de novo – para o Afeganistão. Se as oscilações desse pêndulo significam progresso rumo a algum objectivo final é uma incógnita.
No passado, para medir o progresso em tempos de guerra, os norte-americanos usaram alfinetes e mapas. Marcar os pontos do conflito desencadeado pelo 11 de Setembro sem dúvida vai melhorar o nosso conhecimento da geografia mundial, mas não nos dirá nada sobre o rumo futuro desta guerra.
O que ganhamos, então, com nove anos de batalhas? Castigo, mas não necessariamente esclarecimento.
Há apenas uma década, a hoje esquecida campanha de Kosovo parecia oferecer um modelo para um novo estilo norte-americano de guerra. Foi uma guerra ganha sem uma única baixa norte-americana. Kosovo, no entanto, provou ter sido um evento isolado. Sem dúvida, a força militar dos Estados Unidos era (e continua a ser) insuperável em termos tradicionais. No entanto, depois do 11 de Setembro, Washington comprometeu essa força militar numa empreitada que evidentemente não pode ter sucesso.
Em vez de analisar as implicações deste facto – confiar na força das armas para eliminar o terrorismo é um esforço inútil –, dois governos prolongaram a guerra obstinadamente, mesmo enquanto rebaixavam as expectativas sobre o que ela poderia conseguir.
Ao encerrar oficialmente as operações de combate dos EUA no Iraque este ano – um dia feliz, se é que houve algum –, o presidente Obama evitou declarar "missão cumprida". Poderia ter declarado. Enquanto os soldados dos EUA deixam o Iraque, os insurgentes permanecem activos e em campo. Em vez de declarar vitória, o presidente simplesmente conclamou os norte-americanos a virar a página. Com notável boa vontade, a maioria de nós parece ter obedecido.
No que talvez seja ainda mais surpreendente, os próprios chefes militares de hoje abandonaram a noção de que guerras são vencidas vencendo-se batalhas, outrora o grande fundamento da sua profissão. Os guerreiros do passado insistiam: "Não há substituto para a vitória." Os guerreiros da Era de David Petraeus abraçam um lema totalmente diferente: "Não existe solução militar."
Eis o general H. R. McMaster, uma das estrelas ascendentes do Exército, resumindo o que há de mais moderno no raciocínio militar avançado: "Simplesmente lutar e vencer uma série de batalhas interligadas numa campanha bem desenvolvida não resulta automaticamente no cumprimento dos objectivos da guerra." Vencer, em si, é algo ultrapassado. Perseverar está na moda.
Assim, um corpo de oficiais outrora dedicado a evitar guerras prolongadas agora especializa-se em pântanos. As campanhas não terminam realmente. No máximo, vão minguando.
Outrora treinados para matar pessoas e destruir coisas, os soldados norte-americanos agora cuidam de conquistar corações e mentes, enquanto fazem uns biscates cometendo assassinatos. O termo politicamente correto para isso é "contra-insurgência".
Hoje, destinar a soldados de combate a tarefa de construção de nação na, digamos, Mesopotâmia, é como contratar uma equipe de lenhadores para construir uma casa no subúrbio. O que impressiona não é que o resultado não atinja a perfeição, mas que qualquer parte do trabalho chegue a ser feita.
No entanto, ao adoptar simultaneamente a prática do "assassinato selectivo", os pedreiros fazem dupla jornada como demolidores. Para os assassinos norte-americanos, a arma preferida não é a espingarda de atirador ou a faca, mas a aeronave com mísseis e sem piloto controlada a partir de bases em Nevada e outros lugares a milhares de quilómetros do campo de batalha – a derradeira expressão do desejo norte-americano de fazer guerra sem sujar as mãos.
Na prática, contudo, matar os culpados à distância não raro implica matar também os inocentes. Assim, acções promovidas para exaurir as fileiras de jihadistas em lugares tão distantes como Paquistão, Iémen e Somália asseguram inadvertidamente o recrutamento de substitutos, garantindo um abastecimento infinito de corações endurecidos a serem amolecidos.
Não surpreende que as campanhas lançadas desde o 11 de Setembro se arrastem indefinidamente. O próprio general Petraeus detalhou as implicações: "Esse é o tipo de batalha na qual estaremos pelo resto das nossas vidas e, provavelmente, das vidas dos nossos filhos." Obama pode querer "sair". Seus generais estão inclinados a manter o rumo.
Levar mais tempo para conseguir menos do que inicialmente pretendíamos também está a custar mais do que qualquer um imaginaria. Ainda em 2003, o conselheiro económico da Casa Branca Lawrence Lindsey sugeriu que invadir o Iraque poderia custar até 200 mil milhões de dólares – uma quantia aparentemente astronómica. Embora Lindsey logo tenha ficado sem emprego como consequência, se mostrou um forreta. A conta das nossas guerras pós-11/9 já passa de um bilião de dólares (um milhão de milhões), tudo isso em cima de nossa crescente dívida pública. Com a ajuda nada desprezível das políticas de guerra de Obama, a contagem continua.
E então, estamos quase lá? De forma alguma. A verdade é que estamos perdidos no deserto, tropeçando por uma estrada não sinalizada, conta-quilómetro avariado, GPS estragado e ponteiro do combustível um pouco acima do zero. Resta a Washington torcer para que o povo norte-americano, a dormir no banco de trás, não dê por isso.
Andrew J. Bacevich é professor de Relações Internacionais na Universidade de Boston, militar aposentado e autor de diversos livros, como American Empire: The Realities and Consequences of US Diplomacy (2002), The New American Militarism: How Americans are Seduced by War (2005) e The Limits of Power: The End of American Exceptionalism (2008). Artigo originalmente publicado na revista The Nation.
Tradução do site Opera Mundi, adaptada para Portugal pelo Esquerda.net