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A Guerra dos Tronos e as alterações climáticas: “Summer is coming”

E se a famosa série de televisão não for apenas acerca de batalhas, traições, grandes amores e massacres? De João Camargo.
Foto de Steve/Flickr

 (Atenção: este artigo contém spoilers.) 

E se a famosa série Game of Thrones (A Guerra dos Tronos, na tradução portuguesa) não for apenas acerca de batalhas, traições, grandes amores e massacres? E se houver uma mensagem, não muito subliminar, presente na história? Poderá Game of Thrones estar a falar-nos de alterações climáticas?

Como recém-chegado à série, vi-a toda de seguida e houve aspectos que me pareceram demasiado óbvios para serem coincidência.

Comecemos: a primeira cena do primeiro episódio da primeira série começa com um massacre no gelo. Quem faz a matança são “White Walkers”, que é como quem diz, zombies. O único sobrevivente é um membro da Patrulha da Noite, que consegue escapar. A Patrulha da Noite é uma ordem militar-religiosa cuja missão é proteger a Muralha que separa os Sete Reinos de Westeros de tudo o que existe a Norte.

Para fugir, o sobrevivente atravessa a Muralha, um muro de centenas de metros de altura construído para manter afastados do Sul o Inverno, os zombies e os “povos livres”, populações humanas que não aceitam a organização social predominante. O patrulha da Noite, ao fugir do seu posto, está a quebrar o seu juramento de proteger a Muralha até à morte. Ao ser capturado, já a sul, pelas tropas de Ned Stark, líder da Casa Stark, o sobrevivente do massacre é condenado à morte e executado pelo próprio lorde. Antes de morrer, informa Stark do aparecimento dos zombies.

É na Natureza, no incontrolável, que se encontra o principal perigo, e por isso merece a primeira cena da emblemática da série.

No mesmo episódio tem grande destaque o aparecimento de uma ninhada de uma espécie de lobos que que não existia a Sul da Muralha há mais de 200 anos. Estão estabelecidas as primeiras pontes para a comparação entre Game of Thrones e as alterações climáticas. É na Natureza, no incontrolável, que se encontra o principal perigo, e por isso merece a primeira cena da emblemática da série. Ned Stark é informado dos perigos que vêm da Natureza, da incapacidade da Muralha de travá-los, e os animais fogem já do que aí vem.

A frase mais proferida durante Game of Thrones é “Winter is coming”, “Vem aí o Inverno”. É o lema da Casa Stark, os guardiães do Norte dos Sete Reinos, Westeros, a parte principal do mundo em que se desenrolam as tramas da série. “Vem aí o Inverno” não significa apenas que todos os anos há Inverno, significa que vêm aí tempos difíceis. É que em Westeros os invernos não são períodos de três ou seis meses, senão longos anos, décadas de frio e escuridão.

Sabe-se também que Westeros está há vários anos num longo Verão, paralelo com a espécie humana e a nossa civilização, que usufruiu de um dos maiores períodos de estabilidade climática do planeta, em particular os últimos 10 mil anos. Os Stark são reconhecidos por todo Westeros (por inimigos e amigos) como exemplo de probidade, credibilidade e responsabilidade. O seu lema revela a cautela teórica perante a inevitabilidade de tempos mais difíceis.

O resto do mundo sabe que teoricamente vem aí o Inverno, mas coloca toda a sua confiança na Muralha e na Patrulha da Noite, que manterão o Inverno e a Natureza à distância.

São também conhecidos por cumprirem os seus compromissos, mesmo que tal implique, como ocorre com o Ned Stark, ter de assumir a posição de “Mão do Rei”, isto é, primeiro-ministro, de um rei bêbado, corrupto e incompetente, rodeado de conspiradores. O cumprimento dos seus compromissos e a teimosia em manter-se preso ao passado levará, em última análise, ao quase desaparecimento da Casa Stark com a morte de Ned, da sua mulher e do seu filho mais velho.

A Casa Stark e principalmente a Patrulha da Noite são uma boa representação dos cientistas do clima, dos activistas climáticos e das organizações preocupadas com as alterações climáticas, que guardam o Norte – isto é, que divulgam os dados climáticos e que estão permanentemente a informar o mundo da gravidade catastrófica que pende sobre a humanidade. O resto do mundo sabe que teoricamente vem aí o Inverno, mas coloca toda a sua confiança na Muralha e na Patrulha da Noite, que manterão o Inverno e a Natureza à distância.

A Muralha é uma excelente analogia da crença na tecnologia e nas soluções tecnológicas, nas quais se deposita a confiança cega de que poderão resolver a questão das alterações climáticas, quando se sabe já que não o farão. Os zombies poderão ser as petrolíferas, com um poder que não pode ser travado por quase nenhuma arma em Westeros, excepto “vidro de dragão” e “aço de Valyria”, antiga civilização de Essos, separado de Westeros pelo mar. Serão estas duas armas referência às duas principais fontes de energia renovável que são a grande ameaça aos zombies: a energia solar e a energia eólica, historicamente muito mais relevantes que os combustíveis fósseis?

A Muralha é uma excelente analogia da crença na tecnologia e nas soluções tecnológicas, nas quais se deposita a confiança cega de que poderão resolver a questão das alterações climáticas, quando se sabe já que não o farão. 

Entretanto, a trama de Game of Thrones desenrola-se: a Casa Lannister, cujo lema é “Um Lannister paga sempre as suas dívidas” (poderia, sarcasticamente, ser a União Europeia), elimina os Stark mas vê os seus principais líderes serem mortos; e disputa o poder com a Casa Tyrell, cujo lema é “A crescer com força” (a China?), com a Casa Baratheon, e com as casas Martell, Bolton, Frey, Arryn, Greyjoy (EUA, Rússia, Arábia Saudita, Índia, Austrália, Canadá?).

Entre pactos, casamentos, traições e massacres, reproduz-se em Game of Thrones a geoestratégia da economia neoliberal, da conflitualidade, do dar com uma mão para tirar com outra, os tratados para quebrar, as guerras, as ocupações e o saque de recursos, os massacres que ocupam os noticiários do nosso mundo.

Fora de Westeros, Daenerys Targaryen é a rainha dos dragões que liberta cidades inteiras de escravos e que quer criar um exército para voltar aos Sete Reinos e tomar também o Trono de Ferro. Daenerys representa para muitos a esperança de um outro tipo de governação, liberta cidades e apresenta-se como uma líder popular. Poderia ser a errática América Latina, que até recentemente foi progressista e protectora das populações, do planeta e do clima, e que hoje parece retroceder ou pelo menos abrandar nos seus avanços.

Enquanto se perdem milhares de vidas e tempo em guerras e intrigas pelo Trono de Ferro em Westeros, a Patrulha da Noite confronta-se com as populações em fuga do Norte, que atacam a Muralha para conseguirem escapar ao Inverno e aos zombies. Talvez estes “povos livres” representem as populações mais imediatamente ameaçadas pelas alterações no clima, os habitantes das ilhas do Pacífico ou os refugiados que procuram um sítio onde sobreviver, por sentirem directamente os impactos do clima que está a mudar.

É a simbologia perfeita de como perante o ano mais quente de sempre (2015), e de os nove anos mais quentes de sempre terem ocorrido na última década, ter surgido o Acordo de Paris, celebrado como justo quando só confirma a não preparação para o novo clima que aí vem e a continuação do business as usual da economia extractivista.

Os últimos episódios da última série parecem confirmar esta associação. É Jon Snow, o filho bastardo de Ned Stark, pertencente à Patrulha da Noite, que percebe a ameaça gigante e quebra com todas as tradições e compromissos anteriores ao forjar uma aliança com os povos livres do Norte para combater o Inverno e os zombies. Snow, eleito Comandante da Patrulha da Noite, rejeita a proposta de Stannis Baratheon para ser empossado Rei do Norte e esquecer o que se passa na Muralha, isto é, rejeita o business as usual, pois viu em primeira mão o ataque de milhões de zombies aos refugiados dos povos livres, enquanto tentava transportá-los de volta para Castle Black, sede da Patrulha.

No último episódio, Game of Thrones volta a brindar-nos com uma sucessão de mortes violentas: Meryn Trant, Myrcella Lannister, Stannis Baratheon e Jon Snow são as vítimas. A morte mais significativa é a deste último, sendo também a mais simbólica: por ter rompido com a tradição ao aliar-se e deixar passar os povos livres do Norte sob ameaça dos zombies e do Inverno, Snow é assassinado pelos restantes membros da Patrulha da Noite, desde os seus declarados inimigos até àqueles que lhe eram mais próximos.

É a simbologia perfeita de como perante o ano mais quente de sempre (2015), e de os nove anos mais quentes de sempre terem ocorrido na última década, ter surgido o Acordo de Paris, celebrado como justo quando só confirma a não preparação para o novo clima que aí vem e a continuação do business as usual da economia extractivista. É na gigantesca resistência que a actual hegemonia neoliberal apresenta perante a necessidade não só de outra energia e produção como de outra economia que se encontra o paralelo máximo: esta hegemonia reproduz-se mesmo dentro das estruturas mais esclarecidas e aquelas que informam acerca das consequências das alterações climáticas. Quebrar os moldes é a única solução mas pode mesmo ser visto como a traição máxima.

Em Abril de 2016 recomeça Game of Thrones. Ou Jon Snow será ressuscitado (dá para isso na série), ou a chama deverá ser levantada pelo seu companheiro Samwell Tarly da Patrulha da Noite, ou por um dos seus irmãos ou irmãs: Bran, Arya, Sansa ou Ryckon Stark. E as alterações climáticas, o Inverno e os zombies continuarão a avançar, aconteça o que acontecer na luta pelo Trono de Ferro.

Porque apesar da complexidade e das voltas, traições e paixões palacianas e dos campos de batalha, tal como no mundo real as questões geoestratégicas, as crises financeiras, as burlas bancárias, as invasões e as guerras, as alterações climáticas estão sobre nós, enquanto assobiamos para o lado. Tal como quem assiste a Game of Thrones acha estranho que, sabendo todos da chegada do Inverno e dos zombies, todos continuem a digladiar-se pelo Trono de Ferro. No fim, mantém-se o aviso, certo e constante: “Winter is coming” – ou, na versão do mundo real das alterações climáticas, “Summer is coming”.

Artigo originalmente publicado no Público a 24 de março de 2016.

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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