Guerra civil na Ucrânia será uma catástrofe para a classe operária

09 de maio 2014 - 15:41

O Sindicato Autónomo dos Trabalhadores de Kiev publicou no último dia 5 de maio uma declaração a condenar o massacre ocorrido em Odessa e a exprimir o mais profundo luto pelas vítimas deste ataque. “Eles foram vítimas das forças que continuamente tentam instigar a guerra civil na Ucrânia”.

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Paramilitares pró-russos disparam armas de fogo atrás da cobertura da polícia. Foto de napaki.livejournal.com
Paramilitares pró-russos disparam armas de fogo atrás da cobertura da polícia. Foto de napaki.livejournal.com

Declaração sobre a tragédia de Odessa

Mais de 40 pessoas morreram e cerca de 200 ficaram feridas num confronto trágico entre militantes de direita em Odessa no dia 2 de maio. Hooligans do futebol e militantes do Euromaidan1 de um lado, e stalinistas, paramilitares pró-russos e a polícia local do outro.

Tudo começou quando uma multidão hostil, composta de homens com "fitas de São Jorge" e braçadeiras vermelhas (braçadeiras que também foram vistas nalguns polícias), armados de tacos de madeira e armas de fogo em punho, aproximaram-se da marcha "por uma Ucrânia unida " que era composta por hooligans de direita e por uma grande multidão de civis. Quando a batalha começou, a polícia de choque deu cobertura aos atacantes e cooperou de forma ativa com eles. Quatro pessoas foram mortas. É de ressalvar que nos dias anteriores, os manifestantes antimaidan2 manifestaram-se repetidamente no centro de Odessa, nunca recebendo qualquer oposição física por parte dos seus adversários políticos ou a da polícia.

A multidão “pró-Ucrânia” não dispersou após os disparos e, enraivecida, iniciou o contra-ataque. Quando os confrontos se intensificaram, alguns combatentes pró-russos retiraram-se para o centro comercial Afina, que estava bloqueado pela polícia.

A multidão, incitada pelos hooligans, seguiu os atacantes e tentou destroçar o campo antimaidan, perto da Casa dos Sindicatos. Os manifestantes antimaidan fugiram para lá e barricaram as entradas. É também de notar que Alexey Albu, líder da organização stalinista Borotba, incitou pessoalmente os manifestantes a entrarem no edifício bloqueado, embora não se tenha juntado a eles. Vemos nisto a prova de que qualquer organização de esquerda ou anarquista deve romper relações financeiras ou institucionais com esta organização. Ao enviarem-lhes dinheiro estão a financiar uma guerra civil; ao distribuir os seus comunicados estão a apoiá-los moralmente e a contribuir para a sua guerra propagandística.

O efeito imediato da escalada deste conflito trágico e sem sentido é a divisão da classe operária na Ucrânia.

A violência continuou enquanto os Euromaidan cercavam a sede do sindicato e os combatentes de ambos os lados dispararam e lançaram cocktails molotov de e para o edifício. Neste momento ainda não é claro quem contribuiu mais para o incêndio que queimou e sufocou as pessoas até à morte.

Temos a certeza de que a violência dos hooligans de direita foi uma parte integrante da tragédia. Contudo, também é claro que a violência foi planeada. As pessoas que devem ser responsabilizados por este acontecimento são os instigadores pró-russos e a polícia local, que lhes deu todo o apoio.

Membros do Sindicato Autónomo dos Trabalhadores querem expressar o mais profundo luto pelas vítimas deste ataque. Eles foram vítimas das forças que continuamente tentam instigar a guerra civil na Ucrânia. Infelizmente, grande parte da classe operária está desorientada e tem tido o papel de meros peões nas mãos destas forças, dando as suas vidas por coisas e ideias estúpidas e sem sentido. O efeito imediato da escalada deste conflito trágico e sem sentido é a divisão da classe operária na Ucrânia. Enquanto alguns trabalhadores estão a ameaçar com uma greve política de apoio aos antimaidan, vários membros da Confederação de Sindicatos Livres (pró-Maidan) estão a ser raptados por grupos antimaidan. Em vez de terem uma posição unida contra as políticas neoliberais do governo, os proletários estão a lutar – uns contra os outros – para os interesses da burguesia.

O resultado final desta política será a guerra civil na Ucrânia, que se traduzirá numa catástrofe para a classe operária. Não somos pacifistas e estaremos do lado da classe operária quando estiver a lutar contra a burguesia, independentemente do tipo de luta que for – mas isto não é o caso atual na Ucrânia. O desorientado e fraco proletariado estará dedicado à sua autodestruição; o resultado será a queda drástica das condições de vida, um aumento do desemprego e do crime e a perca de um número enorme de vidas. Toda e qualquer perspetiva de auto-organização e mobilização da classe operária estará enterrada por algum tempo.

Estamos revoltados com a reação da direita liberal e patriótica que se regozija com as mortes de Odessa. Ninguém devia ter morrido neste acidente brutal. Enquanto os trabalhadores ucranianos estiverem do lado dos movimentos da direita, estarão a distanciar-se do socialismo e a aproximar-se da barbárie.

 

Conseguimos ver que este cenário está a ser imposto pela aliança de vários grupos de direita, nazis, conservadores e stalinistas. É importante entender que a postura antimaidan não pode ser considerada como um “protesto social da classe operária”: as reivindicações deste movimento em várias cidades são ditadas pelos mais reacionários e conservadores clericais (abolição dos bilhetes de identidades eletrónicos que incluam o “número do diabo”; banir a vacinação, etc.) e têm pouco a ver com os interesses da classe operária.

Por outro lado, estamos revoltados com a reação da direita liberal e patriótica que se regozija com as mortes de Odessa. Ninguém devia ter morrido neste acidente brutal. Enquanto os trabalhadores ucranianos estiverem do lado dos movimentos da direita, estarão a distanciar-se do socialismo e a aproximar-se da barbárie.

A cura é conhecida: devemos realizar os interesses da nossa classe, organizarmo-nos no trabalho e dirigir a nossa fúria contra o verdadeiro inimigo e não uns contra os outros. Em dias como estes, a solidariedade internacionalista dos trabalhadores significa muito. A classe trabalhadora global está condenada a eliminar-se a si própria: ou através de um processo de revolução social para a construção de uma sociedade sem classes, ou num processo bárbaro de guerra total.

Nem deuses, nem mestres, nem nações, nem fronteiras!

Sindicato Autónomo dos Trabalhadores – Kiev.

Sindicato Livre Interprofissional (SMOT – Bielorrússia), coordenador Anatoly Matveenko

Sindicato Independente Granit (Bielorrússia), presidente Oleg Stahayevich

Publicado originalmente no site do Sindicato Autónomo dos Trabalhadores – Kiev

Tradução de Ricardo Sá Ferreira para o Esquerda.net

1 Manifestantes ultranacionalistas que exigem uma maior integração europeia.

2 Manifestantes pró-russos e apoiantes do Tanukovych.