Com várias frentes de fogos ativas, a Grécia enfrenta aquele que é considerado o maior incêndio florestal de sempre na União Europeia, nas palavras do comissário europeu para a ajuda humanitária e gestão de crises, Janez Lenarčič. É o fogo em Alexandrópolis, na zona do Evro, no norte do país, que já consumiu mais de 73 mil hectares. Mas há mais dezenas de incêndios, incluindo um nos arredores de Atenas que queimou vastas porções do Parque Natural do Monte Parnitha. Na quinta-feira pelo ministro da Crise Climática e Proteção Civil, Vassilis Kikilias, atribuiu a responsabilidade de alguns dos fogos a mão criminosa. E, entretanto, segundo a BBC, 79 pessoas foram presas por fogo posto. Já o fogo a norte, no Evro, na zona de fronteira por onde entram migrantes na Grécia, foi causado por um relâmpago, como confirmado pelos bombeiros e pela polícia. O que não impede a extrema-direita grega de tentar aproveitar esta tragédia para mobilizar o ódio aos migrantes.
De acordo com o jornal Público espanhol, “milícias encorajadas pelo partido ultra Solução Grega organizam-se para caçar migrantes que se escondem nos montes, os quais estão a culpar pelos incêndios que arrasam a região”. Nas redes sociais multiplicam-se as mensagens promovidas pela extrema-direita que culpam os migrantes pelos incêndios de que estão também a ser vítimas, com pelo menos 18 pessoas indocumentadas a terem morrido na sequência dos incêndios e uma mais descoberta esta quinta-feira. Muitas das mensagens apelam à sua perseguição.
Há grupos, alguns armados, que se estarão a organizar para ir à procura de migrantes e refugiados “tudo com a conivência das autoridades, segundo dão a conhecer vários meios de comunicação social gregos e denunciam diversas organizações”, acrescenta o mesmo jornal. Três pessoas acabaram por ser presas por participar neste tipo de expedições punitivas, no caso tendo fechado vários migrantes num reboque e publicado um vídeo a congratular-se com o resultado da “caça”.
Noutro dos vídeos que circula, um homem de camuflado discursa perante dezenas de pessoas instando “quem possa” a “começar a fazer patrulhas” e acrescentando que “estão a queimar-nos, temos uma guerra hídrica”, ao mesmo tempo que lamenta que não possam fazer o uso de armas nestas ações.
Perante o conteúdo de vídeos em que há “um delírio racista de violência” em que se acusam os imigrantes de “nos queimarem” e “se incitam outros a um pogrom racista, palavras da fiscal do Tribunal Supremo da Grécia, Georgia Adeilini, esta requereu uma investigação por crimes de ódio.
O partido de extrema-direita “Solução Grega” está no centro das teorias da conspiração. O seu deputado, Paris Papadakis, tem publicado várias mensagens lançando “alertas” em que diz que os migrantes são incendiários, que se vive um clima de “guerra” ou que os refugiados “estão a obstruir os trabalhos dos bombeiros”. O Syriza pediu já uma investigação do Comité de Ética do Parlamento sobre esta atuação.
A desinformação chegou mesmo a alguns canais de informação. Um portal informativo de Evros publicou na terça-feira a notícia de que 20 migrantes tinham sido presos na zona de Alexandrópolis depois de uma troca de tiros com a polícia. As autoridades desmentiram que tal tivesse sucedido. O canal de televisão Open também tinha, na quarta-feira, informado que dois migrantes tinham sido apanhados a deitar fogo na região de Rodopi. Mais tarde acabou por admitir que se tinha tratado de uma informação errada.
ONG consideram situação “alarmante”
Face à situação, um grupo de 55 organizações não governamentais gregas, constituído na Rede de Registo de Violência Racista, emitiu um comunicado em que condena os grupos de “milícias” e o seu uso de violência. Defende-se ser “um incidente alarmante” que “cidadãos surjam a ameaçar e deter ilegalmente um grupo de migrantes e refugiados dentro de um reboque, enquanto usam linguagem racista e depreciativa, incitando a atos similares de violência” e criticam-se igualmente os comentários racistas que o caso tem suscitado.
Expressam-se ainda “preocupações sérias no que diz respeito ao clima que se está a deteriorar contra refugiados e migrantes no discurso político e público, que até é expresso por representantes de partidos no Parlamento Grego”. Para os signatários, “tais fenómenos normalizam, encorajam e em última análise fazem escalar as reações racistas, em primeiro lugar nos meios de comunicação social e nas redes sociais, que por vezes resultam em ataques nas ruas, com o claro risco de perturbar de forma irreparável a coesão social”.