Bolsa

Grandes empresas distribuem mais dividendos à boleia da borla fiscal do Governo

15 de janeiro 2026 - 10:35

Em 2026, os cinco "pesos-pesados" da bolsa nacional vão entregar 3,4 mil milhões de euros em dividendos, um aumento de 8% face ao ano anterior, beneficiando diretamente da descida do IRC aprovada pela direita e pela extrema-direita.

PARTILHAR
empresas cotadas

Portugal continua a ser um paraíso para os acionistas das grandes empresas. Segundo dados da Allianz Global Investors, divulgados pelo Jornal de Negócios, as cotadas portuguesas que integram o índice Stoxx Europe 600 (Galp, EDP, EDP Renováveis, BCP e Jerónimo Martins) ocupam o sexto lugar no ranking europeu da rentabilidade por dividendo ("dividend yield"), com uma previsão de 4,3% para 2026. Esta percentagem coloca Portugal significativamente acima da média europeia, que se fixa nos 3,2%.

Ao todo, estas cinco empresas preparam-se para distribuir 3,4 mil milhões de euros em lucros aos seus investidores, um crescimento de 8% em relação aos 3,2 mil milhões pagos em 2025. Este aumento é impulsionado pelo crescimento gradual dos lucros de gigantes como a EDP e o BCP, num cenário onde o setor financeiro continua a ser o "melhor pagador".

Lucros recorde e borlas fiscais milionárias do Governo

Neste Orçamento do Estado, o Governo avançou com nova redução na taxa de IRC, uma medida duramente criticada pelo Bloco de Esquerda.

Mariana Mortágua denunciou então a "transferência direta de recursos públicos para os bolsos dos acionistas", que agora estão em evidência. Para a deputada, a descida do IRC, apresentada pelo Governo como uma medida para "estimular o investimento", iria revelar-se, na prática, um subsídio à distribuição de dividendos. 


"O que estes números provam é que as empresas não precisam de borlas fiscais para investir, elas já têm lucros recorde que preferem entregar a quem não trabalha, em vez de aumentar salários ou baixar preços aos consumidores", afirmou Mortágua no debate orçamental.

Para o Bloco, é inaceitável que o Governo coloque 2 mil milhões nas mãos das grandes empresas enquanto os lucros recorde provam que estas não precisam de incentivos fiscais para investir, preferindo remunerar os acionistas em vez de aumentar salários.

Banco de Portugal confirma margens de lucro elevadas

Os dados oficiais do Banco de Portugal (BdP) sustentam a tese de que o capital vive um período de exceção. No seu Relatório de Estabilidade Financeira, o BdP confirma que o sistema bancário apresenta uma "elevada rendibilidade", impulsionada por lucros que atingiram níveis históricos.

Além disso, as estatísticas mais recentes sobre o Sistema Bancário Português mostram que a rentabilidade permanece robusta, mesmo num cenário de estabilização das taxas de juro. A Comissão Europeia já alertou que as casas em Portugal podem estar sobrevalorizadas em 35%, o que configura uma das crises de acesso mais graves da Europa. Enquanto os bancos distribuem dividendos milionários, as famílias enfrentam taxas de esforço insustentáveis, num mercado onde o preço mediano já ultrapassa os 3.019 euros/m².

Este cenário levou o então governador Mário Centeno a deixar avisos sucessivos, sublinhando que os bancos devem "poupar hoje" e criar almofadas financeiras em vez de esgotarem os resultados em remunerações excessivas aos acionistas.

No entanto, as estimativas da AllianzGI indicam que o setor financeiro continuará a ser o maior pagador de dividendos além de 2026.

Termos relacionados: Sociedade