O portal israelita Mekomit revelou no fim de semana o plano desenhado pelo Ministério de Informações que recomenda a transferência forçada e permanente dos 2,2 milhões de habitantes de Gaza para cidades de tendas no deserto do Sinai. O plano configura uma autêntica limpeza étnica total de Gaza, mas esbarra na recusa do presidente egípcio em permitir a instalação de palestinianos no seu território e do compromisso do presidente norte-americano Joe Biden reafirmado no fim de semana em "assegurar que os palestinianos de aza não são deslocados para o Egito ou qualquer outro país".
Ao contrário do que o nome sugere, este Ministério das Informações não tem qualquer tutela sobre os serviços de informações de Israel e funciona como um centro de produção de estudos que apresenta cenários e recomendações não-vinculativas a esses serviços, bem como aos militares e a outros ministérios. A ministra Gila Gamliel é deputada do Likud, o partido do primeiro-ministro Netanyahu e já assumiu em governos anteriores as pastas da Igualdade e da Proteção Ambiental.
O documento de dez páginas - aqui traduzido para inglês -tem a data de 13 de outubro e foi elaborado após os ataques do Hamas e o início dos bombardeamentos de Israel à Faixa de Gaza. Ele recomenda numa primeira fase a evacuação da população de Gaza para o Sul do território enquanto a Força Aérea israelita bombardeia o norte. A segunda fase é a entrada das forças terrestres com a missão de ocupar todo o território de Gaza e "limpar os bunkers subterrâneos dos combatentes do Hamas". É nesta fase que, segundo a recomendação do Ministério, se daria a transferência da população de Gaza para o território egípcio, de onde não seria autorizada a regressar. Para facilitar a tarefa, "é importante deixar as vias de tráfego para o sul em condições de serem usadas, para permitir a evacuação da população civil para Rafah", sublinha o documento.
No deserto do Sinai seriam construídas cidades de tendas e criada uma "zona estéril de vários quilómetros (...) no interior do Egito, e [impedir] o regresso da população às atividades/residências perto da fronteira com Israel".
No plano do Ministério de Informações, a expulsão dos habitantes de Gaza seria acompanhada de duas campanhas de propaganda. A primeira seria dirigida a essa população, enfatizando a questão da perda da sua terra, "deixando claro que não há esperança de voltar aos territórios que Israel irá em breve ocupar, seja ou não verdade. A imagem tem de ser "Alá assegurou-se que vais perder esta terra por causa da liderança do Hamas - não há outra saída senão partires para outro lugar com a ajuda dos teus irmãos muçulmanos".
A segunda campanha seria dirigida aos países ocidentais, apresentando a expulsão forçada como uma necessidade humanitária com o intuito de baixar o número de vítimas civis durante a ocupação pelos militares. Para convencer o Egito a aceitar esta transferência para o seu território, o documento sublinha a importância de envolver os Estados Unidos na operação. E sugere ainda que países como a Espanha, a Grécia ou o Canadá possam dar um contributo para acolher refugiados de Gaza nos seus países.
O plano do círculo próximo de Netanyahu de expulsar os palestinianos de Gaza não é novidade. Na semana passada, o Instituto Misgav, liderado pelo ex-responsável do Conselho Nacional de Segurança israelita, Meir Ben-Shabbat, tinha publicado uma proposta em tudo semelhante à do Ministério. Mas apagou-a do site e das redes sociais após o plano ter sido recebido com uma chuva de críticas de todo o mundo. Apesar da proximidade do autor do estudo com a ministra e de o instituto receber financiamento do Ministério de Informações, fontes do Ministério negam qualquer colaboração externa no documento que foi primeiro tornado público através de um grupo restrito de WhatsApp formado por defensores dos colonatos em Gaza.