Lei dos solos

Governo inventou “valor moderado” que aumenta preços das casas em 95% dos concelhos

17 de janeiro 2025 - 12:48

Em pelo menos 295 dos 308 municípios, a alteração do Governo à lei dos solos para construir casas com “valor moderado” vai permitir vender acima do preço de mercado, contrariando a promessa de uma “lei antiespeculativa”.

PARTILHAR
Luís Montenegro e o ministro Castro Almeida
Luís Montenegro e o ministro Castro Almeida

Na quarta-feira, Luís Montenegro já tinha sido desafiado por Mariana Mortágua no Parlamento a dar um único exemplo de algum concelho onde a alteração à lei dos solos, anunciada pelo seu Governo como um instrumento para antiespeculativa mais habitação a preço acessível, fosse baixar os preços hoje praticados pelo mercado. O primeiro-ministro não conseguiu responder, afirmando apenas que “em todos os concelhos haverá maior oferta” de casas.

Esta sexta-feira, o jornal Público apresenta as contas do que significa na realidade o “valor moderado” que o Governo introduz na proposta de alteração à lei que perdeu pelo caminho - entre a apresentação aos jornalistas e a promulgação por Belém - a modalidade do arrendamento acessível como condição para construir em solos reconvertidos em urbanos para uso habitacional.

E o resultado dessas contas é que a alteração á lei dos solos, que na próxima semana será apreciada pela Assembleia da República por iniciativa do Bloco e de outros partidos, vai permitir a especulação imobiliária em 95% dos municípios portugueses.

O “valor moderado” introduzido pelo Governo para a venda das casas a construir nos solos que passam a ser urbanizáveis corresponde ao valor que não exceda o da mediana nacional do preço por metro quadrado ou, caso seja superior a esta, a um limite máximo de 125% do valor da mediana no respetivo concelho - ou seja, 25% acima desse preço - desde que não ultrapasse 225% - um pouco mais do dobro - da mediana nacional.

Recorrendo aos dados do INE do segundo trimestre do ano passado, os mais recentes disponíveis, que colocam o valor da mediana nacional em 1.661 euros por metro quadrado, o jornal fez as contas e distribuiu os municípios em três grupos. O primeiro é o dos concelhos em que a mediana de preços está abaixo da nacional e a nova regra permite praticar preços acima da mediana concelhia. Estão neste grupo pelo menos 295 concelhos, 95% do total (o INE não tem dados disponíveis sobre seis concelhos). Por exemplo, em Guimarães a mediana foi de 1.250 euros por metro quadrado, o que significa que este novo “valor moderado” alinhado com a mediana nacional poderá traduzir-se em vendas 411 euros acima da mediana concelhia. 

O segundo grupo, que inclui 75 concelhos, é o dos municípios onde os valores ultrapassam a mediana nacional com o aumento de 25% face à mediana concelhia. O concelho de Braga - que o ministro Castro Almeida deu como exemplo das virtudes antiespeculativas da medida - insere-se neste grupo, com uma mediana de 1.590 euros e que com o aumento de 25% passa a 1985,5 euros, valor que seria, à data de hoje, a referência futura. 

O último grupo é o dos seis concelhos cujo valor da mediana está 225% acima da média nacional, atualmente de 3.737 euros, no Porto, Cascais, Lisboa, Oeiras, Lagos e Loulé. Em teoria, aqui o “valor moderado” seria inferior à mediana dos valores de mercado. Mas na prática isso não se aplicará às maiores cidades, porque em Lisboa e Porto, como na Amadora, não existem solos rústicos e em casos como Oeiras ou São João da Madeira eles constituem menos de quarto do território municipal.

Termos relacionados: PolíticaHabitação