Uma vaga inédita de despedimentos varreu Espanha depois da aplicação das medidas de contenção face ao surto de Covid-19. Os dois maiores sindicatos do país, CCOO e UGT, calculam que cerca de um milhão de pessoas foram despedidas entretanto. Isto não contando com os trabalhadores em regime de lay-off. Esta quinta-feira exigiram ao governo que proibisse os despedimentos.
O governo reagiu no dia seguinte. Esta sexta-feira, o executivo de coligação entre PSOE e Podemos decretou a proibição temporária de despedimentos no país. A medida faz parte de um novo pacote legislativo no qual também se inclui a revisão pelo Estado dos planos excecionais das empresas de forma a impedir abusos.
A ministra do Trabalho e Economia Social, Yolanda Díaz, resumiu a apresentação da medida principal, dizendo simplesmente que o seu ministério não vai admitir despedimentos associados às medidas de combate ao coronavírus, sejam estes tentados por motivos de força maior ou por motivos económicos, técnicos, organizativos e de produção.
‼️ PROHIBIDO DESPEDIR ‼️
Nadie podrá aprovecharse de esta crisis sanitaria para despedir con la excusa del coronavirus.#ProhibidoDespedir
Comparecencia de la ministra de Trabajo, @Yolanda_Diaz_https://t.co/nY0cjNzrL7
— PODEMOS (@PODEMOS) March 27, 2020
Os trabalhadores precários estão incluídos na proposta: os seus contratos vão ser renovados de forma a que não haja despedimentos na altura da maior crise vivida recentemente no país.
De fora das atenções do governo, ficarão, para já, os trabalhadores independentes que tinham exigido a suspensão de pagamentos para a Segurança Social no mês de março.
Díaz anunciou ainda que todos os ERTE, Expedientes de Regulação Temporária de Emprego, a figura legal a que recorreram as empresas em dificuldades para aplicar restrições como o regime de lay-off, serão revistos pelo Estado após avaliação da razão invocada. “Se houver fraude, os empresários deverão devolver todas as ajudas e pagar todas as prestações de desemprego” assumidas pelos cofres públicos ao abrigo deste regime, avisou. Para isso, reforçar-se-á a Inspeção de Trabalho.
A partir de agora, os empresários que peçam para aderir ao regime terão ainda de solicitar diretamente os pedidos de pagamento de subsídios de desemprego por suspensão de contrato, de forma a tornar mais célere o processo.
Outra simplificação de procedimentos vai beneficiar as cooperativas. Até agora eram obrigadas a fazer assembleias, ainda que virtuais, de forma a aceder aos ERTE. Devido à situação vivida no país, muitas não conseguiam realizá-las. A partir desta sexta-feira vão poder recorrer a este mecanismo por uma mera decisão da sua direção.
Os procedimentos de contração pública relacionada com o combate à pandemia de covid-19 passam também a ser feitos com caráter de urgência, escapando às mais morosas vias habituais.
Hoy hemos aprobado nuevas medidas para proteger a la gente trabajadora de la crisis del coronavirus.
Una de ellas: #ProhibidoDespedir por causas económicas, técnicas, productivas, organizativas y de fuerza mayor mientras dure la emergencia sanitaria.
Lo explica @Yolanda_Diaz_ pic.twitter.com/e9CgjRtLkx
— Pablo Iglesias (@PabloIglesias) March 27, 2020
Patrões criticam, sindicatos acham um passo em frente
A resolução foi recebida com desagrado pelos representantes dos patrões. CEOE e Cepyme, as confederações patronais, dizem que vai travar a recuperação económica e redundará, no futuro, em mais desemprego. Estas medidas, dizem, “não vão na direção correta mas, pelo contrário, serão prejudicais para o equilíbrio económico, a saúde das contas públicas, aumentando consideravelmente o deficit, e reduzirão de forma importante a confiança dos investidores”, tornaram público.
Pelo contrário, os principais sindicatos, CCOO e UGT, reagiram a uma só voz. Falam num “passo em frente”, dado que “algumas das principais reivindicações sindicais foram atendidas.” Tinham defendido “uma moratória semelhante à de Itália”, uma agilização dos trâmites dos ERTE e um combate à fraude. “Ninguém pode aproveitar-se desta situação para despedir”, sublinham em comunicado conjunto.
@UnaiSordo "De esta crisis sanitaria había que salir sin destruir empleo ni destruir empresas, para eso se han facilitado la utilización de los ERTE y hoy se ha dado un gran paso para salir de esta situación con la menor destrucción de empleo posible" https://t.co/RPDCDngA8B pic.twitter.com/gqiyS9Op3r
— COMISIONES OBRERAS #QuédateEnCasa (@CCOO) March 27, 2020
Proibição ou encarecimento dos despedimentos?
A declaração governamental não foi, contudo, unânime à esquerda. Há quem fale em propaganda, uma vez que os despedimentos devido à crise não seriam travados, mas sim considerados “improcedentes”. Assim, segundo a lei espanhola, o patrão seria obrigado a uma de duas soluções: ou readmitir o trabalhador, pagando o período em que não esteve a trabalhar devido ao despedimento; ou continuar com o despedimento mediante uma uma indemnização de 45 dias de salário por ano de serviço, antes de 12 de fevereiro de 2012, ou 33 dias a partir dessa data.
Para vários dos críticos, a lei sobre despedimentos improcedentes, herdada da reforma laboral de Mariano Rajoy, deveria cair e a proibição de despedimentos deveria ter caráter retroativo, de forma a abranger a enorme quantidade de trabalhadores que entretanto perderam o emprego.
Assim, no Twitter, multiplicaram-se as reações críticas ao governo. A hashtag #ProhibidoDespedir tornou-se um campo de batalha política: a direita alega que a medida do governo destruirá a economia do país; a esquerda não governamental clama que, apesar das declarações pomposas, a medida não tem a eficácia que se lhe atribuiu.
Es importante que sea tal y como se anuncia: prohibir los despidos es que sean nulos. Que se permita que sean improcedentes sólo los dificultaría, pero no los evitaría. Tranquilidad para todos para poder así parar el país sin elegir entre el empleo o la salud.
— Íñigo Errejón (@ierrejon) March 27, 2020
Por muy necesitados de victorias que estemos, es lamentable e irresponsable recurrir a propaganda que no se corresponde con la realidad. NO se ha prohibido el despido, se ha subido un poco su coste. Urge eliminar ya la figura del despido improcedente: debe ser nulo y retroactivo.
— Brais Fernández (@BraisRomanino) March 28, 2020
Ya está aquí, RDL 9/2020 #ProhibidoDespedir , pero no mucho. Será improcedente, 33 días/año. El covid19 nunca fue causa de despido objetivo, la medida no es disuasoria. pic.twitter.com/Ta7JXHxMDH
— Javier Checa (@javierchecam) March 28, 2020
Como hicieron con los despidos debido a baja por enfermedad se recalifica el despido, pasando a ser injustificado pero no nulo. Por tanto, #ProhibidoDespedir es mentira, la indemnización pasa de 20 a 30 días. Como hicieron antes, vuelven a mentir. Ya van 1millón de parados más. https://t.co/A0iCNArMjO
— Victor de la Fuente (@Victordl_Fuente) March 27, 2020