EUA

Governo descobre que perto de mil crianças indígenas foram mortas por abusos em internatos

31 de julho 2024 - 16:10

Durante 150 anos, os EUA tiveram uma rede de internatos com o objetivo de forçar a assimilação de crianças indígenas na sociedade branca norte-americana. O legado terrível da sua atuação começa agora a ser revelado oficialmente.

PARTILHAR
Alunos da Carlisle Native Industrial School na Pensilvânia.
Alunos da Carlisle Native Industrial School na Pensilvânia.

Uma investigação levada a cabo por solicitação do Departamento do Interior dos Estados Unidos da América descobriu que pelo menos 973 crianças indígenas morreram nas mãos do abusivo sistema de internatos montado com o objetivo de forçar a sua assimilação na sociedade branca norte-americana.

O estudo, conhecido esta terça-feira, encontrou valas, algumas delas não identificadas, em 65 dos mais de 400 estabelecimentos deste tipo. Estes estiveram em funcionamento durante cerca de 150 anos e só em 1969 fecharam os últimos. Até ao momento, identificaram-se 19.000 crianças que sofreram abusos nestas instituições.

As causas das mortes são variadas, incluindo doenças várias, acidentes e abusos. E os números, avisam os autores, estão contabilizados por baixo. Até porque muitas das crianças que adoeceram terão sido enviadas para casa onde podem depois ter morrido.

O relatório é o resultado de anos de avaliação que incluíram entrevistas a ex-alunos que contaram os abusos a que as crianças estiveram sujeitas para apagar o seu legado. Eram proibidos de manter o seu nome, de continuar as suas ligações tribais e prática culturais, castigados se falassem a sua língua, convertidos à força ao cristianismo, sujeitos a exercício militares e obrigados a trabalhos manuais de forma a “integrá-los”.

Deb Haaland, a secretária do Interior dos EUA, a primeira nativa americana a ocupar um alto cargo na administração norte-americana, denunciou em comunicado que no passado “o governo federal – através do departamento que lidero – tomou medidas deliberadas e estratégicas através de políticas federais de escolas residenciais indígenas para isolar as crianças das suas famílias, negar a sua identidade e despojá-las das línguas, culturas e laços que são alicerces para os povos nativos”.

O relatório apela ao governo federal para que peça desculpas e “trace um caminho para a cura”. Algumas das medidas recomendadas são a criação de um memorial nacional para assinalar a morte das crianças e educar o público; investir na investigação e ajudar as comunidades indígenas a recuperar do stress e do trauma intergeracional; e revitalizar as línguas nativas.

O caso dos EUA segue-se aos estudos e descobertas que têm vindo a ser feitas no vizinho Canadá. Aí, em dois anos, mais de 1.300 túmulos de crianças indígenas foram encontrados perto dos antigos reformatórios, a maioria deles católicos, para onde eram levadas com o mesmo fim de serem aculturadas à força.