Em dois anos, mais de 1.300 túmulos de crianças indígenas foram descobertos no Canadá nas imediações dos antigos reformatórios, a esmagadora maioria católicos, que tinham como missão doutriná-las e “matar o índio no coração das crianças” como um documentário sobre o tema explica. Calcula-se que, entre o final do século XIX e meados dos anos 1990, cerca de 150.000 tenham sido levadas das suas famílias para os 139 estabelecimentos que existiram em todo o país.
Esta terça-feira, a nação indígena English River da tribo Dene anunciou ter descoberto mais 93 túmulos anónimos no cemitério da antiga Escola Residencial Índia de Beauval, no Oeste do Canadá, que creem ser de crianças mortas nesta instituição. 14 delas seriam bebés. Esta escola, financiada pelo Estado, funcionou entre 1897 e 1983.
As comunidades indígenas canadianas têm utilizado recentemente georradares (GPR) e socorrido-se das informações dos sobreviventes para encontrarem estes túmulos.
A chefe Jenny Wolverine, numa conferência de imprensa em Saskatoon, quis deixar claro que este “não é um número final”: “parte-me o coração que é provável existirem mais”, afirmou em declarações citadas pela CBC. A dirigente comunitária explicou que há ainda mais áreas nos terrenos deste reformatório que tinham sido identificados pelos sobreviventes e que irão ser analisadas.
Para ela, é preciso “reconhecer a genocídio cultural, a desumanização das Primeiras Nações e das culturas mestiças do passado”. A nação que representa defende que é preciso ação para além das desculpas que têm sido apresentadas oficialmente.
A sombra daquela escola continua a pairar sobre as comunidades impactadas “através da perda da língua e da cultura”, afirma. Para além disso, acrescenta Richard Durocher, vice-chefe do Conselho Tribal de Meadow Lake, citado pela mesma fonte, é preciso cuidar da saúde mental dos sobreviventes, requerendo-se a criação de “centros de cura”. O chefe Bobby Cameron, da Federação de Nações Indígenas Soberanas, defende que o governo deve permitir acesso a registos e arquivos de forma a que se possam identificar as crianças dadas como desaparecidas depois de frequentarem estas escolas. E as comunidades indígenas pretendem ainda que sejam criados memoriais às vítimas que respeitem as suas tradições culturais.