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Restos mortais de mais de 200 crianças indígenas descobertos no Canadá

Ao longo de mais de um século, governo canadiano e igrejas cristãs geriram “escolas” com o objetivo de assimilar à força as crianças indígenas do país. Milhares morreram. Justin Trudeau, o primeiro-ministro canadiano diz-se chocado e insta a Igreja Católica, a única instituição que ainda não o fez, a pedir desculpas pelo sucedido.
Um dos memoriais em homenagem às crianças indígenas mortas nas instituições educativas no Canadá. Foto de @Jantafrench/Twitter.
Um dos memoriais em homenagem às crianças indígenas mortas nas instituições educativas no Canadá. Foto de @Jantafrench/Twitter.

Os restos mortais de 215 crianças indígenas da “escola residencial para índios de Kamloops” foram descobertos a semana passada fazendo o Canadá voltar a confrontar-se com um passado de horror. Os indígenas Tk'emlúps te Secwépemc estão a conduzir uma investigação sobre as mortes nestas escolas e foi uma sua chefe, Rosanne Casimir, quem anunciou a descoberta feita perto da cidade do sul da Colúmbia Britânica.

Esta instituição chegou a receber 500 crianças simultaneamente. Foi a maior das 139 “escolas” criadas nos finais dos anos 1880 pelo governo canadiano com o objetivo de “assimilar” crianças indígenas, ou seja de destruir a sua cultura integrando-as à força. A última só fechou em 1996. As crianças eram retiradas à força das famílias e sujeitas a maus tratos. Muitas morreram. A Comissão de Verdade e Reconciliação, estabelecida pelo governo canadiano em 2008, considerou num relatório de 2015 que se tratou de um genocídio cultural. Está documentada a morte de mais de seis mil estudantes. Mas segundo o antigo presidente desta comissão, Murray Sinclair, o número pode ser maior do que 25.000.

A atual dirigente do organismo, Stephanie Scott, explicou à BBC as dificuldades de contabilizar o número exato de morte e de identificar as crianças. Não há registos e muitas “acabavam em campas pobres”, “sem identificação, desconhecidas”.

O relatório da CVR responsabiliza “governo, Igrejas e autoridades escolares” que estavam “bem conscientes das falhas das escolas e do seu impacto na saúde dos estudantes”. As condições de saúde eram péssimas devido às tentativas governamentais de cortar despesas. Em 1945, as taxas de morte nestas escolas, comparadas com o resto da população escolar, eram cinco vezes superiores. Nos anos 1960 eram ainda o dobro.

O primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, visitou um memorial improvisado dedicado às vítimas, manifestou-se “chocado” com a descoberta e prometeu “medidas concretas” não explicitadas. Trudeau já se tinha comprometido a seguir as recomendações de 2015 do CVR mas os grupos representantes dos indígenas recordam que dezenas delas estão por implementar.

Em causa está igualmente o papel das Igrejas cristãs no processo, nomeadamente a Igreja Católica, responsável por 70% destas instituições. O chefe do executivo canadiano tinha pedido em 2017 ao Papa Francisco que reconhecesse o papel da Igreja Católica no sucedido e fizesse um pedido de desculpas o que ainda não foi feito. Depois da descoberta da semana passada manifestou-se “profundamente desapontado” por este não ter ainda ocorrido e por as instituições responsáveis pela gestão das escolas não permitirem acesso aos documentos em sua posse. Ao contrário, as Igrejas Prebesteriana, Anglicana e Unida emitiram a partir dos anos 1980 pedidos de desculpa.

O representante da Assembleia das Primeiras Nações, chefe Perry Bellegarde, não se mostra surpreendido com a descoberta. Diz ainda que “o ultraje e a surpresa do público em geral é bem-vindo” mas não há novidade, uma vez que “os sobreviventes têm vindo a dizer isto durante anos a fio – só que ninguém acreditou neles”.

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