É um cargueiro adaptado para ser um bloco de “apartamentos” de três andares com 222 quartos que poderão albergar cerca de 500 homens adultos e solteiros que tenham pedido asilo no Reino Unido e cujos processos ainda não tenham sido finalizados.
Chama-se Bibby Stockholm e não é a primeira vez que cumprirá uma função deste tipo. Entre 1994 e 1998 foi utilizado em Hamburgo para alojar pessoas em condição de sem abrigo. A partir de 2008 serviu especificamente para albergar pessoas que tinham requerido asilo nos Países Baixos. Depois de uma morte a bordo e da denúncia de violações dos direitos humanos as instalações acabaram por ser encerradas. Ainda foi utilizado mais tarde como alojamento de trabalhadores no Mar do Norte mas agora, aportado em Portland, Dorset, volta à função anterior sendo apresentado pelo governo britânico como a resposta às travessias do canal da Mancha em busca de uma vida melhor.
O primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak quer começar a enchê-lo durante esta semana e os primeiros requerentes de asilo já foram para lá enviados esta segunda-feira. O seu governo faz um jogo de cintura argumentativo enquanto por um lado tenta justificar a decisão como uma maneira de dissuadir os pedidos de asilo devido às condições das instalações e por outro procura mostrar que as condições a bordo serão aceitáveis.
À Sky News, Sarah Dines, secretária de Estado da Proteção Civil, declarou que é um alojamento “adequado, mas não luxuoso” acrescentando: “temo bem que o alojamento em quartos de hotel luxuosos seja um fator que puxa as pessoas. Os gangues do crime organizado que tentam trazer pessoas para este país ilegalmente prometem coisas como: ‘vais ficar alojado num hotel simpático, no meio de uma cidade inglesa’”. Obviamente não é em hotéis de luxo que estas pessoas ficam. Mas uma das outras motivações apresentadas seria baixar as contas de alojamento do requerentes de asilo em hotéis através de um barco cujo aluguer custa perto de 8,4 milhões de euros ao ano. A motivação monetária explica que o espaço concebido para 200 pessoas tenha sido refeito para poder abrigar mais do dobro com vários quartos em as pessoas serão obrigadas a partilhar espaço com múltiplos desconhecidos.
O governo britânico acrescenta ainda que estes homens serão “encorajados” a ficar dentro do barco mas, como não estão sujeitos a qualquer pena de restrição de liberdade tem de acrescentar que terão ao dispor autocarros para poderem ir à cidade mais próxima.
Para além do conceito geral do centro de detenção em massa, há problemas de segurança associados ao uso do navio que o governo negligenciou. O The Guardian revelou este domingo um “plano de gestão de surtos”, um documento divulgado a pedido do Serviço Nacional de Saúde britânico no qual se escrevia que, dadas as condições do local, “caso um surto significativo ocorra, um grande número de funcionários e residentes pode vir a ser afetado”, vincando os problemas que as instalações colocam face às doenças contagiosas.
O mesmo jornal tinha recolhido anteriormente o ponto de vista do Sindicato dos Bombeiros que consideram as instalações “uma potencial armadilha mortal”, apresentando riscos de incêndio.
Um “sofrimento significativo”
As organizações de defesa dos direitos humanos e dos migrantes têm-se oposto a esta solução. Uma delas é a Amnistia Internacional que defende: “reminiscente dos navios-prisão da era vitoriana, o Bibby Stockholm é uma maneira totalmente vergonhosa de abrigar pessoas que fugiram do terror, conflito e perseguição”.
A organização nota que o governo britânico não se poupa a esforços para fazer as pessoas que procuram asilo sentir-se “indesejadas” e “inseguras” no país e que esta forma das alojar pode retraumatizá-las.
Também a Cruz Vermelha critica o governo. Com o seu diretor no Reino Unido, Alex Fraser, a afirmar que este tipo de sítios são “totalmente inapropriados para as pessoas e vão levar a um sofrimento significativo” e a lembrar igualmente que são “pessoas que foram forçadas a fugir das suas casas” e que “já experienciaram traumas inimagináveis”. Portanto, “precisam estabilidade, apoio, serem capazes de manter contacto as pessoas que amam e sentir-se seguros”.
O mesmo tipo de argumentos é usado por uma organização de apoio a migrantes, a Care4Calais, que anunciou que conseguiu nos tribunais que 20 dos requerentes de asilo com quem trabalha não fossem levados para o barco. Steve Smith, o seu dirigente, diz que entre eles há “pessoas que têm deficiências, que sobreviveram a tortura e a escravatura moderna e que sofreram experiências traumáticas no mar” pelo que é “desumano” e “absolutamente cruel” colocá-los numa “quase-prisão flutuante”.