As operadoras privadas de comunicações Bouygues, Orange, SFR e Free decidiram desligar progressivamente a partir desta terça-feira as redes 2G e 3G. Numa tribuna publicada no jornal Le Monde, responsáveis de associações antipobreza e ecologistas denunciam os “efeitos desastrosos” provocados por esta “decisão unilateral”.
A decisão obrigará à substituição de 12 milhões de equipamentos, dos quais 2,4 milhões são telemóveis. A grande maioria são outros equipamentos que dependem destas redes, como elevadores, automóveis, alarmes, iluminação pública e dispositivos médicos. Os subscritores da tribuna citam um relatório do Senado francês para chamar a atenção para os custos que os utilizadores serão obrigados a pagar pela mudança: “várias centenas de euros para a aquisição de um smartphone, 300 euros, em média, para uma pulseira anti-queda, até 1.800 euros e um dia de trabalho para adaptar um elevador”. Custos que se elevam para equipamentos coletivos, como a adaptação das redes de água e saneamento, que podem chegar aos 400 milhões de euros ou a renovação de sistemas de iluminação pública que, no caso da cidade de Lille, tem uma despesa prevista de 900 mil euros.
“Este corte na rede implicará, no mínimo, 1,36 mil milhões de euros em custos adicionais. Quem terá de os suportar? Os consumidores, as empresas, as autarquias e as associações. Não há qualquer ajuda à vista, nem por parte das operadoras responsáveis pela decisão, nem por parte do Estado”, denunciam, acrescentando que esta previsão de custos peca por defeito.
Também a ausência de um estudo completo sobre a dimensão dos equipamentos afetados e os impactos da decisão é criticada, com os subscritores a defenderem que as empresas de comunicações, em vez de lucrarem com a venda de novos equipamentos, deveriam assumir as suas responsabilidades financeiras criando um fundo para indemnizar as empresas, associações afetadas pelo fim das redes 2G e 3G.
Quanto ao impacto na população mais vulnerável, referem as 200 mil pulseiras antiqueda usadas pela população idosa, os telemóveis não compatíveis com a rede 4G usados pela população sem-abrigo ou vítimas de violência doméstica. Só a associação Emmaüs distribuiu no ano passado 20 mil terminais deste tipo, que servem para receber mensagens ou enviar SMS de alerta em caso de urgência.
Quanto aos riscos para os serviços de emergência, apontam a possibilidade de "interrupções nas chamadas de emergência em determinados telefones, a obsolescência dos terminais de chamada da SNCF [transportes ferroviários] e avarias nos «bips» dos serviços de emergência".
O impacto ecológico da decisão também não está a ser tido em conta, argumentam, citando as 200 mil toneladas de CO2 que representa a renovação apenas dos 2,4 milhões de telemóveis afetados por esta “obsolescência forçada”.
A ausência de salvaguardas para esta decisão faz ainda temer o que possa acontecer em breve, numa altura em que a Comissão Europeia prepara o lançamento da rede 6G e que o 4G já é deixado para segundo plano em favor do 5G nos lançamentos mais recentes. “Como evitar que a 4G, uma tecnologia bem adaptada e amplamente implementada, se torne obsoleta prematuramente?”, questionam.
Esta tribuna é subscrita por responsáveis de associações como a Emmaüs Connect, Secours catholique-Caritas France, France Nature Environnement, Telecoop, Latitudes, Halte à l’obsolescence programmée, Zero Waste France, Federação dos Centros Sociais e Socioculturais de França, entre outras.