Fórum Socialismo: Os 5 P’s do Idadismo

06 de setembro 2023 - 20:20

No fim de semana de debates de 8 a 10 de setembro em Viseu, Berta Soares, técnica em Gerontologia, apresentará, em conjunto com Marina Romana, o painel “Pessoas Idosas: Cidadania e Participação”.

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Foto de Paulete Matos.

A poucos dias da realização do Fórum Socialismo 2023 - programa aqui - o Esquerda.net publica alguns resumos das sessões que terão lugar em Viseu de 8 a 10 de setembro.


Os 5 P’s do Idadismo

Peste, pandemia, preocupação, participação e políticas públicas são alguns dos “P´s” que caracterizam, ou não, o conceito de «idadismo».

Uma das três características em que reparamos primordialmente numa pessoa é a idade. Quando usamos este fator para dividir vantagens ou desvantagens, estamos a avivar o «idadismo. Este é, sem dúvida, o mais universal dos preconceitos, porque, independentemente do género, da raça, da orientação sexual ou da religião, no percurso natural da vida qualquer um de nós vai envelhecer e será vítima desse preconceito quando for visto, pelos outros, como mais velho, caso nada mude na perceção social.

Tão grave como o racismo e o sexismo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o idadismo é o estereótipo, preconceito e discriminação dirigida contra outros ou contra si mesmo com base na idade. Este conceito foi introduzido por Robert Butler (1969), referindo-se às pessoas mais velhas. Mais tarde, quando se reconhece que o idadismo também pode ser dirigido aos jovens (Westman, 1991), a sua definição torna-se mais ampla e passa a configurar uma forma de discriminação contra qualquer idade.

Foquemo-nos na pirâmide etária. As alterações ao nível do quadro demográfico explicam, em parte, a relevância de explorar este tema no momento atual. É nas extremidades da mesma que encontramos o sacrifício e a exclusão. É flagrante: “uma população a envelhecer” e “uma população a diminuir” diz-nos Lynda Gratton, professora e investigadora. Em relação a esta última, o relatório mundial sobre o idadismo, elaborado pela Organização Pan-Americana da Saúde em 2022, apresenta-nos alguns dos exemplos de discriminação existente em relação aos mais jovens, e que verificamos em Portugal: “terminou agora a faculdade, não tem experiência, logo é difícil entrar no mercado de trabalho; “são criminosos, caprichosos e vulneráveis”; “não têm capacidade económica para alugar esta casa”; “são irresponsáveis, sem valores e pouco interessados”. Acontece da mesma forma, mas imperativamente mais acentuado, o idadismo em relação às pessoas mais velhas, catalogando-as como inúteis, frágeis, doentes, dementes, não sabedoras de nada, incapazes ou que só pensam em religião.

Em 2022, segundo o Instituto Nacional de Estatística, o índice de envelhecimento apresenta 183,5 idosos por cada 100 jovens. Portugal será em 2050, segundo o Eurostat, o país mais envelhecido da União Europeia. Será justo depreendermos, assim, que deveríamos isolar as pessoas mais velhas, comparando este dado com uma Pandemia, tal como aconteceu com o COVID 19?

A Constituição portuguesa é explícita na proibição de vários tipos de discriminação, incluindo aquela com base na idade (artigo 59.º): “todos os trabalhadores, sem distinção de idade, sexo, raça, cidadania, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas têm direito à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização social e a permitir a conciliação da atividade profissional com a vida familiar”. Sabemos que isso não acontece e que muitos jovens, devido à pouca oferta de trabalho nas suas áreas de formação, esperam que as pessoas mais velhas se reformem para tomarem os seus lugares. Quantos anúncios de oferta de trabalho continuam a serem apresentados com uma idade limite de 35 anos?

Com efeito, o idadismo ocorre também nas instituições quando infantilizamos as pessoas mais velhas e pedimos para mastigar «mais uma colherzinha de arrozinho». Travar o idadismo na comunicação social é, por isso, fulcral. Por outro lado, os mais novos, agarrados aos telemóveis e à televisão, vivem sugados com publicidade de combate às rugas e aos cabelos brancos.

Na verdade, o idadismo, por ser um conceito recente, é mais fácil de mitigar. Para isso, é emergente começar a combatê-lo. Contamos com as instituições privadas, com a educação, com a socialização e os contactos intergeracionais, com o governo, as políticas públicas e as associações. Temos meios. Haja vontade! Como o fazer?

1. Educação para o envelhecimento, em que a Gerontologia, com os seus saberes multidisciplinares, assume um papel fundamental na prevenção e explicação do processo natural que é o envelhecimento.

2. Integração das pessoas mais velhas no associativismo que vá ao encontro dos seus interesses, pois se estamos a falar das mesmas, há que as ouvir e integrar;

3. Adaptar acessos, passeios, estradas e transportes públicos às pessoas mais velhas, permitindo um envelhecimento ativo, saudável e com combate ao isolamento e solidão;

4. Travar a infantilização das pessoas mais velhas, nomeadamente na aposta da formação dos profissionais que as acompanham.

5. Cumprimento da legislação no combate à discriminação.

Resumindo, o envelhecimento demográfico é um ganho civilizacional importante e deve ser tratado como tal. Uma vida com mais anos exige ajustamentos que poderão passar por vidas laborais mais longas. No entanto, o modo como estes ajustamentos serão feitos não pode ser leviano.

Urge garantir o mesmo tipo de direitos sociais que caracterizam a Europa que defendemos. Lutar contra o idadismo é, por isso, lutar contra as barreiras impostas. Acima de tudo, é uma luta pelo direito de ser pessoa e de, como tudo, de ter um início e um fim, mas também tanta coisa pelo meio.

Berta Soares - Técnica Superior Profissional em Gerontologia - c/ Especialização em Igualdade de Género e Orientação Sexual