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Figuras da política destacam combates de Sampaio pela democracia e direitos humanos

As reações à morte do antigo Presidente da República sublinham o seu papel na luta antifascista, a atividade política em democracia e a intervenção cívica após o fim dos mandatos presidenciais.
Jorge Sampaio
Foto UNAOC/Flickr

Na hora da despedida de Jorge Sampaio, várias figuras que com ele conviveram ao longo do seu percurso político deixaram o seu testemunho de homenagem aos combates da vida do ex-Presidente.

Numa declaração ao país, o primeiro-ministro António Costa anunciou que o Governo decretou luto nacional por três dias e destacou também o seu papel na luta antifascista e em democracia, na qual “o exercício dos seus múltiplos cargos políticos foram sempre e só mais uma forma de exercer a sua cidadania”. Jorge Sampaio “foi um exemplo de lutador pela liberdade e pela democracia e que tanto prestigiou com a sua verticalidade ética a nossa democracia”, afirmou o líder do Governo.

“Se perdi hoje um amigo de longa data, com quem tive o privilégio de partilhar sucessos e insucessos nesta constante luta pela Liberdade e pela Democracia, Portugal perdeu um dos seus mais prestigiados cidadãos, que sempre serviu o seu país com distinção e honra”, afirmou o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues. Destacando a personalidade “imbuída de valores humanistas, de uma visão progressista e de um forte dever cívico”, Ferro Rodrigues lembra o percurso de Sampaio na luta antifascista, desde a crise académica de 1962 ao seu papel enquanto advogado, quando “assumiu, corajosamente, a defesa de inúmeros presos políticos no Tribunal Plenário da ditadura”. Mas também destacou o seu empenho em causas internacionais, nas quais “granjeou enorme respeito e admiração”. Ferro Rodrigues diz que o país deve recordar Jorge Sampaio como  “um grande advogado, um grande político, um enorme ser humano e um dos melhores servidores da causa pública da sua geração”.

O atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, homenageou Jorge Sampaio destacando a sua serenidade na vida política. “Sereno foi o seu testemunho de vida ao serviço da liberdade e igualdade. Sereno na sua luminosa inteligência, sereno na sua profunda sensibilidade, sereno na sua paciente mas porfiada coragem”, afirmou Marcelo. O Presidente sublinhou o “duplo legado” de Sampaio, porque “feito de liberdade mas também de igualdade, porque feito de inteligência mas também de sensibilidade, porque provou que se pode nascer privilegiado e converter a vida na batalha pelos não-privilegiados”.

Para a coordenadora bloquista Catarina Martins, Jorge Sampaio foi uma “figura central da democracia”, que “soube fazer pontes à esquerda” e que “foi até ao último dos seus dias um lutador por esta ideia de um Portugal aberto, cosmopolita, solidário, defensor dos direitos humanos”. Em conferência de imprensa realizada esta sexta-feira, Catarina Martins transmitiu em nome do Bloco de Esquerda as “mais sentidas condolências à família de Jorge Sampaio, aos seus amigos, a quem lhe era mais próximo e ao Partido Socialista”.

Um dos fundadores e atual dirigente do Bloco, Luís Fazenda, recordou ao Esquerda.net “o respeito pelas diferenças e a procura de plataformas de unidade que marcou muito o estilo de Sampaio e advinha das suas convicções em projetos plurais”. Por exemplo, nas candidaturas à Câmara de Lisboa, “predispôs-se, sempre acompanhado por Lopes Cardoso, a alargar a coligação que se chamaria "Por Lisboa" à UDP e PSR” e quatro anos depois “impôs contra vetos existentes, na renovação da coligação, que UDP e PSR tivessem os seus símbolos inscritos nos boletins de voto”. Mais tarde, “enquanto Presidente, manteve o Bloco de Esquerda informado a par e passo da situação em Timor Leste em 1999, antes e depois do referendo de independência, e o Bloco ainda não tinha sequer deputados eleitos. Manteve essa atitude durante o seu mandato, pois valorizava o Parlamento e os partidos”, recorda Luís Fazenda. O ex-líder parlamentar do Bloco sublinha ainda a oposição de Sampaio à participação militar portuguesa na guerra do Iraque como um dos momentos em que “tive orgulho na sua magistratura”. “Fazer campanha na rua com ele era saber que respondia a todos os cumprimentos ou aleivosias. Tanto chorava como se irritava, essa humanidade que lhe assinou a personalidade e distinguiu um antifascista de primeira linha”, conclui Luís Fazenda.    

O ex-coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, afirmou que “a morte de Jorge Sampaio, cujo agravamento do estado de saúde era público, é um choque. Foi um dos fundadores da democracia, combateu o fascismo como dirigente estudantil e como advogado de presos políticos, fundou o MES e depois aderiu ao PS, de que foi secretário-geral, criou uma frente de esquerda e foi presidente da Câmara de Lisboa, certamente um dos melhores presidentes da cidade, e foi depois o candidato presidencial que venceu a direita unida com Cavaco Silva. Foi um democrata, um homem intenso, um coração generoso, um combatente infatigável. Presto-lhe a minha comovida homenagem, certo de que o país não o esquecerá”.

Para o antigo deputado e candidato presidencial Manuel Alegre, a notícia foi recebida com “mágoa” pela perda de um amigo. À agência Lusa, Alegre recordou o momento em que se conheceram “há 60 e tal anos, numa assembleia magna muito tensa e difícil, realizada no velho Palácio dos Grilos, em Coimbra. Eu ia subir à tribuna e senti uma pancada nas costas. Voltei-me e vi-o, com o cabelo muito ruivo ainda, a dizer-me: 'Eu venho de Lisboa e trago-vos a nossa solidariedade, em nome da Reunião Inter-Associações (RIA)'”, recorda o poeta. Alegre destaca a visão de “estadista” de Sampaio no momento que o próprio considerou o mais difícil dos seus mandatos em Belém. “Na minha opinião, foi o Presidente que melhor exemplificou os dois poderes que tem um Presidente, quando decidiu não dissolver a Assembleia [da República] e nomear o então primeiro-ministro Santana Lopes, porque havia uma maioria, e quando depois, por razões de estabilidade política, decidiu dissolvê-la”, afirma Manuel Alegre.

Também João Soares, que sucedeu a Sampaio à frente da Câmara Municipal de Lisboa, sublinhou à SIC a “audácia e coragem política” do então líder do PS num “combate pioneiro” ao unir os partidos da esquerda na sua candidatura. Além de o considerar “uma “grande figura da nossa democracia, da nossa vida pública”, João Soares recordou que Sampaio “era um homem culto, sério, que gostava do debate político, mais do que tomar decisões rápidas, gostava do debate, talvez por ter sido advogado de barra nos tribunais plenários”.

O ex-presidente de Timor-Leste, José Ramos Horta, considerou Sampaio um “arauto de causas nobres, de causas justas em todo o mundo, em particular em Timor-Leste”. “Devemos-lhe muito, e eu pessoalmente, que o conheço como poucos timorenses, sinto pessoalmente a perda de Jorge Sampaio”, afirmou Ramos Horta à Lusa, descrevendo o ex-chefe de Estado português como “um extraordinário ser humano, um coração bondoso, uma alma muito sensível, que se emociona com o sofrimento de outros seres humanos e de outros povos”.

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