O historiador Fernando Rosas foi um dos vencedores do prémio PEN de ensaio, com o livro "Salazar e o Poder, a Arte de Saber Durar", da editora Tinta da China, ex-aequo com "O Cinema na Poesia" Rosa Maria Martelo, editado pela Assírio & Alvim.
Neste livro, Fernando Rosas procurou responder à pergunta “Como é que há um regime que dura meio século no século XX português?”, explicou no lançamento, em janeiro deste ano. “O Salazar é o único político português que consegue não ser derrubado pelas urnas, nem pela tropa, nem pela rua. É derrubado por um acidente vascular cerebral quando cai de uma cadeira. Este personagem desafia-nos!”
“Livro saiu de rompante”
O historiador escreveu o livro “em dois meses ou três” no Brasil, aproveitando o facto de ter ido lá dar aulas. “O livro saiu de rompante, porque já o tinha na cabeça, como se arrumasse ideias que precisavam de ser expressas”.
"Salazar e o Poder, a Arte de Saber Durar" tem uma primeira parte em que o autor analisa o que era o pensamento de Salazar sobre política; na segunda parte, Fernando Rosas procura aprofundar a maneira como Salazar tomou o poder.
“É uma coisa que pouca gente sabe”, explica Fernando Rosas, que recorda que o que se dizia antes na escola era que Salazar apenas aceitara renitentemente ir para as finanças, e que depois lhe fora estendido um tapete que ele percorrera pacificamente até chegar ao poder. “Mas não foi nada disso, o processo de transição da ditadura militar para o Estado Novo, de fascistização do poder, foi altamente complexo, e nele os salazaristas demonstram uma notável habilidade tática”, explica o historiador, salientando a capacidade que o ditador sempre teve de controlar as forças armadas, de “agarrar a tropa”, mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo diante de conspirações.
Na terceira parte, o livro analisa os fatores de durabilidade do regime: a violência preventiva e a repressiva, o controlo político da força armada, a cumplicidade da Igreja católica, “um assunto quase tabu em Portugal”, e a inculcação autoritária dos valores do regime..
Fernando Rosas considera este livro um contributo à luta pela memória. “Esta luta nunca acaba. Porque a memória não é uma coisa que está fechada numa gaveta e se vai lá buscar. A memória é uma relação social, é uma relação de forças. A memória é um instrumento essencial para a defesa do presente e para a construção do futuro.”
O que é o prémio PEN
Os prémios literários do PEN Clube Português destinam-se a galardoar anualmente as melhores obras publicadas no ano anterior, em língua portuguesa e em primeira edição, nas modalidades de poesia, ensaio e narrativa.
O prémio PEN de poesia foi atribuído a Hélia Correia com a sua obra "A Terceira Miséria" da editora Relógio, 'ex-aequo' com "Cólofon", de Manuel de Freitas da editora Fahrenheit 451. João Bouza da Costa, com a sua obra "Travessa d' Abençoada" da Sextante Editora, venceu o Prémio de Narrativa. O prémio Primeira Obra foi arrecadado por Raquel Nobre Guerra, com o livro "Groto Sato" da editora Mariposa Azual.