A revista Sábado desta semana revela os favores, as trocas de correspondência e as cumplicidades entre Salazar e os milionários que ajudou a enriquecer. O ditador português mantinha estreitas amizades com as famílias mais ricas, que hoje são donas de uma parte da fortuna do país. Ricardo Espírito Santo (avô do actual presidente do BES), António Champalimaud, e Manuel Fino são alguns dos nomes desta burguesia que foi crescendo à custa e na sombra do Estado.
Salazar encontrava-se regularmente com os homens mais ricos do país: trocavam cartas, favores e influências, sobre os negócios do petróleo, dos diamantes, compra e venda de empresas e mesmo assuntos de espionagem. A revista Sábado apoia-se em documentos do Arquivo António de Oliveira Salazar, disponível ao público a partir do site do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Dos grandes ricos de Portugal, o que mais intimidade mantinha com Salazar era Ricardo Espírito Santo, na altura dono do banco com o mesmo nome e avô do actual Presidente, Ricardo Salgado.
Ricardo Espírito Santo encontrava-se todos os domingos com Salazar, havendo registo de 231 folhas de correspondência enviadas pelo banqueiro ao ditador. Numa delas, Espírito Santo revela a forte intimidade que mantinha com Salazar: "Neste sétimo Domingo seguido da viagem (...) vou mais contente a pensar que se os deuses nos foram propícios estarei aí no próximo domingo e poderei matar as saudades que já pesam no meu coração". A intensidade da relação era recíproca, tanto que, depois do banqueiro ter oferecido a Salazar um tapete fino da Pérsia, do século XVII, para sanar uma zanga entre os dois, Salazar respondeu-lhe: "Depois da carta que me escreveu hoje fiquei com a sensação de que fui eu que recebi dois tapetes maravilhosos de presente, em vez de ter oferecido um ao estado! Muito obrigado! Muito obrigado por com tanta arte, tanta delicadeza e tanta dignidade conseguir dar-nos a sensação de que nos deve qualquer coisa aquele a quem tudo devemos".
Mas esta não era uma amizade independente dos interesses financeiros e económicos. Na correspondência entre os dois, há várias referências a negócios, sobretudo de petróleo, alertas para o efeito de certas leis no mercado e pedidos de reuniões urgentes para o próprio dia.
Além disso, Ricardo Espírito Santo teve nos anos 40 várias intervenções no universo da espionagem, expressas nas cartas que escreveu a Salazar. Os relatórios dos serviços secretos britânicos divulgados pelos arquivos nacionais daquele país descrevem-no como um elemento-chave da Gestapo em Portugal, sendo que durante a II Guerra Mundial o Banco Espírito Santo foi posto na lista negra dos aliados por negociar com os alemães.
As relações de Salazar com as famílias mais ricas de Portugal estenderam-se também a António Champalimaud, aos Mello, a Manuel Queiroz Pereira, Alfredo da Silva ou mesmo Manuel Fino.
Numa carta de 4 de dezembro de 1957, António Champalimaud revela a Salazar os bastidores de um negócio para a Siderurgia, e reafirma a sua confiança e apoio ao Governo: "Vossa Excelência sabe, os industriais são por vezes irrequietos, sem que por isso deixem de saber respeitar e compreender as atitudes do governo."
Manuel Fino, o empresário que recentemente recebeu um "prémio" da Caixa Geral de Depósitos ao vender como garantia acções ao banco por valores bem mais altos do que valiam, manifestou a sua admiração por Salazar e pelo regime: "Permita Vossa Excelência que eu roube uns momentos do precioso tempo de Vossa Excelência com esclarecimentos complementares que a minha formação moral e política, a minha devoção pelo regime, e a minha profunda admiração pela alta personalidade do Presidente do Conselho naturalmente aconselham ou mesmo exigem". O actual 19º homem mais rico de Portugal (segundo a revista Exame) era na altura (1967) sócio-gerente da Fábrica de Lanifícios de Portalegre e queixou-se ao ditador por não estar ainda em vigor uma protecção aduaneira que tinha sido pedida dois anos antes, aproveitando para denunciar uma conspiração de dois empresários rivais.
Banqueiros, grandes industriais e milionários pediam favores a Salazar, e construiam o seu império na sombra do Estado. Ao mesmo tempo, veneravam o ditador e obedeciam-lhe. Tudo bons amigos para garantir o sucesso de uma burguesia que sempre se apoiou no Estado para fazer a sua fortuna.