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As feridas abertas da África do Sul

A escala e intensidade dos distúrbios têm pouco a ver com lutas políticas internas no ANC. Com apoios cortados, desemprego juvenil acima de 70%, caos nos serviços, confiança na política e comunicação social em mínimos históricos, há pouca esperança para os sul-africanos pobres. Por Mohammed Jameel Abdulla em Africa is a Country.
Armazém de açúcar em Durban, África do Sul. Foto de STR/EPA/Lusa.
Armazém de açúcar em Durban, África do Sul. Foto de STR/EPA/Lusa.

“Agitações sociais” - embora outros possam preferir “distúrbios e pilhagens”, “distúrbios por comida” ou “insurreição” - varreram a África do Sul desde a passada segunda-feira. Trouxeram instabilidade a uma nação já de si instável. E, como acontece com todos os momentos fundamentais da África do Sul, as nossas falhas históricas ficaram novamente expostas. Divisões raciais e étnicas, antagonismos de classe, xenofobia, questões de violência e do seu uso. Estas são algumas das nossas feridas que nunca foram tratadas. Nas últimas décadas, tapámo-las com ligaduras patrióticas, slogans de unidade e encenações superficiais de uma consciência nacional partilhada. Mas as feridas agora abriram novamente, e, à medida que o país sangra, a podridão está aberta para todos verem. Momentos episódicos contam uma história incompleta, mas trágica, da realidade que se revela no nosso país.

Comunidades empobrecidas com perspectivas de vida limitadas, regozijam ao saírem de hipermercados com alimentos roubados e recursos essenciais. Mulheres idosas são vistas a tomar medicamentos que, de outra forma, não poderiam pagar. Um pai sai de uma loja com fraldas para seu filho. As famílias que têm dificuldade em ter refeições diárias, de repente, têm comida para um mês.

Noutro lugar, na comunidade de Phoenix, historicamente de origem indiana, um homem idoso está cercado por pessoas de um assentamento informal próximo. É-lhe ordenado que entregue a sua casa, ou então enfrentará ataques contra a sua família durante a noite. À noite, os tiros, disparados pessoas de dentro de carros em andamento, tiram vidas quando balas perdidas destroem casas de famílias.

“Vigilantes” indianos e brancos armados circulam, disparando sobre africanos que presumem serem saqueadores. Perseguem-nos enquanto gravam vídeos cruéis, chicoteando-os enquanto eles imploram pelas suas vidas.

Os vídeos são partilhados e assistidos repetidamente nas redes sociais, os espectadores carregados de ódio racial salivam com uma sensação carnal de prazer enquanto um grupo racial vê outro a sofrer e sangrar.

Pelo menos 15 pessoas são mortas por membros armados da comunidade de Phoenix. Bloqueiam as estradas que entram na comunidade, discriminando racialmente as pessoas, impedindo-as de aceder a supermercados em funcionamento. Os corpos são encontrados à noite. O hashtag #PhoenixMassacre entra nas “trends” do Twitter, ecoando a aversão e a indignação perante o sentimento anti-negros dentro da comunidade indiana sul-africana.

Thapelo Mohapi, porta-voz do Abahlali BaseMjondolo, o movimento de moradores de barracas em KwaZulu-Natal que protege os interesses da classe trabalhadora, teve a sua casa incendiada na manhã de quarta-feira. Mohapi, como a maioria em Abahlali, fala publicamente contra a corrupção do ANC [Congresso Nacional Africano, o partido de Jacob Zuma e do atual presidente Cyril Ramaphosa] e a violência política no país, sendo os membros de Abahlali frequentemente alvo de assassinatos políticos.

Barracas incendiadas em resposta ao saque. Relatos de ataques xenófobos dos manifestantes. Famílias apavoradas quando os tiros partem as suas janelas. Pequenas lojas comunitárias incendiadas. Bancos de sangue e clínicas saqueadas. Alimentos essenciais tornam-se escassos, postos de gasolina fecham.

A excitação das pessoas por terem acesso a televisões, mobília, álcool e produtos a que não teriam acesso de outra forma. Porque na África do Sul sabemos que as coisas boas estão reservadas para uma minoria - e tens que ter uma sorte ou um talento incrível, ou ser loucamente desonesto e bem relacionado, para escapar ao ciclo de pobreza.

Este é o status quo do nosso país neocolonial, violento e dividido. Cada imagem dos tumultos revela uma nova camada de uma tragédia com a qual estamos muito familiarizados, mas que não fizemos nenhum esforço material substancial para resolver até agora. E agora a podridão na nossa ferida aberta tornou-se séptica.

No meio de toda essa confusão e complexidade, muitos estão agora a tentar entender a sua posição em relação a esses motins - com a máscara da consciência nacional partilhada a ser cruelmente arrancada - alguns que pensavam que entendiam as suas posições políticas estão a ter de as repensar depois de serem lançados para uma situação violenta onde as percepções raciais e de classe pré-determinam a sua posição.

Orquestrado ou inevitável?

Uma questão central na mente das pessoas é quem é responsável pelos acontecimentos que se estão a desenrolar. Quanto disto é orquestrado como parte da campanha #FreeZuma, que desencadeou o momento aquando da prisão do ex-presidente Zuma, e quanto é simplesmente uma extensão da situação desesperada em que a maioria dos sul-africanos se encontra. A realidade é, claro, complexa. Relatórios de ativistas no terreno e de observadores indicam que os distúrbios são provavelmente compostos por várias forças.

Acredita-se que alguns sejam agentes políticos da facção pró-Zuma do ANC, usando o caos para ajudar na sua batalha contra o presidente Cyril Ramaphosa. Sabe-se que estes agentes organizaram as manifestações iniciais e alguns comentadores acreditam que continuam a financiar o transporte dos manifestantes e a operar nos bastidores para prejudicar a economia local. Alguns agora atribuem a esse terror orquestrado, a queima direcionada de centros de distribuição importantes, fábricas, torres de comunicações e camiões.

Outras pessoas envolvidas não estão politicamente ligadas aos objetivos de uma facção do ANC ou ao desejo de desestabilizar o país. Estão lá porque o momento presenteou às famílias acesso a alimentos sob circunstâncias terríveis e a oportunidade de alívio temporário da pobreza profunda. Pode-se dizer que a sua situação está a ser propositadamente manipulada por objetivos políticos, mas a realidade material da sua situação não é menos real. Indivíduos de organizações conhecidas da classe trabalhadora e que são fortemente anti-ANC relataram ter participado em saques porque o momento permitiu a ajuda extremamente necessária às comunidades em dificuldades.

E, claro, como em qualquer ação de massas, existem simplesmente aqueles elementos criminosos que usam o momento com intenções maliciosas, agitados por rancores do passado e do presente, procurando impor poder e medo àqueles que vêem como "outros". No entanto, esses sentimentos maliciosos existem tanto do “lado” dos manifestantes quanto daqueles que lhes respondem. Cada pessoa está no direito de se defender a si mesma, à sua família e propriedade contra os danos causados ​​por forças mal-intencionadas. Mas muita dessa defesa e proteção transformou-se em desejos mais antigos de prejudicar, desumanizar e matar aqueles considerados "outros". Quanta da nossa violência em nome de uma defesa está enraizada na podridão histórica que nunca tratámos do colonialismo, do apartheid e de um mundo que odeia os pobres?

Intervenção militar

Muitos apoiam a decisão do presidente Cyril Ramaphosa de usar o exército para reprimir os tumultos, saques e violência. Defendem uma resposta armada, militante e potencialmente letal.

Parte desse raciocínio é em resposta aos sinais de orquestração e mobilização por forças políticas pró-Zuma. Como algumas das ações mostram sinais de serem ataques organizados e direcionados, eles não vão ceder organicamente e, portanto, o uso de informação secreta e da força organizada seria necessária para intervir. Este movimento tático atua em apoio ao presidente Cyril Ramaphosa, preservando o atual status quo da África do Sul.

A outra razão é que o conflito racial entre comunidades atingiu um estado tão elevado que muitos temem um eco dos motins de Durban de 1949. Com vigilantes armados decretando destruição, discriminação racial e o assassinato cruel daqueles que eles chamam de "saqueadores" - e os ciclos de vingança em resposta que isso cria - não pode haver nenhum caminho que não leve a mais mortes. E neste momento não há nenhum Steve Bantu Biko com o seu querido amigo Strini Moodley para nos levarem de volta ao caminho de um rosto mais humano.

No entanto, mesmo perante esse vácuo de liderança, a intervenção militar é míope, a-histórica e, na melhor das hipóteses, temporária. As feridas estão todas abertas agora, os militares não podem curar, apenas reprimir.

Em última análise, a escala e a intensidade destes distúrbios têm muito pouco a ver com lutas políticas internas no ANC e as tensões entre as comunidades não poderiam ser acesas se já não houvesse tensões não resolvidas. As condições materiais da África do Sul indicam que há anos que estão criadas as condições para uma revolta política de massas. Com os apoios cortados durante o confinamento, o desemprego juvenil acima de 70%, a prestação de serviços um caos ou inexistente, a confiança no governo, nos meios de comunicação social e nos partidos políticos em mínimos históricos, parece haver pouca esperança para os sul-africanos do lado errado da linha de pobreza e estes têm muito pouco a perder.

Seja um enredo orquestrado por agendas políticas tortuosas, um estudante a atirar fezes a uma estátua colonial ou um aumento no preço do pão como aconteceu na América do Sul - uma faísca é tudo o que é preciso para incendiar um povo desesperado.

O melhor cenário com a intervenção militar desta vez é mais repressão das frustrações materiais das pessoas. Se houver mortes, a situação ficará ainda mais inflamada. Quando a próxima faísca explodir, os motins serão mais organizados, com a memória viva das injustiças deste momento. E se não forem organizados pela nossa esquerda disfuncional serão liderados por forças reacionárias. O mais perigoso de tudo é que, como acontece com outros exemplos da história, como as forças militares desempenham um papel cada vez maior no policiamento interno do país, habituam-se a exercer poder sobre a população e os autocratas ambiciosos sobem nas fileiras do comando militar.

Com uma intervenção militar, admitimos que um retorno ao normal anormal da África do Sul valem a violência e a morte que serão exercidas sobre a população de classe trabalhadora. A violência deste momento foi simplesmente transferida de volta para aqueles que a aguentaram silenciosamente há uma semana atrás.

A repressão e a imposição militar de um status quo violento não é a resposta. As condições materiais precisam de mudar, as pessoas precisam de ser alimentadas, os apoios precisam de ser devolvidos e as nossas feridas sépticas que estão abertas há séculos precisam de atenção urgente.

Se não houver justiça material e investimento para curar as gerações de danos causados ​​a todos nós - e por todos nós - a podridão nas nossas feridas irá vencer-nos. E nós tornar-nos-emos na podridão.


Mohammed Jameel Abdulla trabalha no Centro Tshisimani para Educação de Ativistas na Cidade do Cabo como especialista em mídia social, criador de conteúdos e educador de ativismo digital.

Texto publicado originalmente em Africa is a Country. Tradução de Joana Louçã para o Esquerda.net.

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