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A extrema-direita portuguesa, as artes marciais e a ligação ucraniana

Uma reportagem do jornal Público revela como a Ucrânia se tornou um campo de treino para a extrema-direita mundial e como alguns torneios internacionais de artes marciais mistas são momentos de criação de ligações entre movimentos.
Dois soldados do Batalhão Azov em frente ao edifício de uma das bases do movimento em Uzuf. Atrás de si há uma suástica.
Dois soldados do Batalhão Azov em frente ao edifício de uma das bases do movimento em Uzuf. Atrás de si há uma suástica. Foto de Carl Ridderstråle/Wikicommons.

Conta-se habitualmente a história da mobilização que depôs o presidente ucraniano Viktor Ianukovich, em 2013, apenas como uma revolução democrática. O movimento da praça nomeada EuroMaidan seria pró-europeu contra um governo dependente de Putin, pelos direitos humanos contra as violações dos direitos humanos, pela transparência contra a corrupção. Contudo, a história é mais complicada. Nele estavam bem presentes muitos grupos “nacionalistas” e esse foi mesmo o momento decisivo para o seu crescimento. Assim, quando chegou a guerra, a extrema-direita tinha já capital político e humano suficiente para ter um papel de destaque.

Perdendo um aliado e vendo um estado vizinho passar para a esfera de influência norte-americana, o presidente russo não perdeu tempo. Apoiou forças políticas e militares na Crimeia, em Donetsk e Lugansk, zonas russófonas. E a guerra civil estalou. A decisão do novo presidente ucraniano, Petro Poroshenko, de permitir batalhões de voluntários para combater os separatistas, deu outro dos empurrões necessários. Capital político ganho, o dinheiro do milionário Ilhor Kolomoiski transformou-se no capital financeiro fundamental para financiar esquadrões, entre os quais se contavam os de extrema-direita.

O mais destacado de entre eles é o infame Batalhão Azov, criado pelo neonazi Andrii Biletski, e que mais tarde foi mesmo integrado na Guarda Nacional do país, conseguindo manter a sua independência e ganhando acesso a armamento ocidental.

A história recente da Ucrânia é-nos recordada num conjunto de reportagens de Ricardo Cabral Fernandes no Público. E serve para compreender como o Azov se tornou “um pequeno Estado dentro do Estado” e ganhou uma influência europeia que se estende até Portugal. De 2014 para cá, o Batalhão Azov e os seus apêndices tornaram-se não apenas um exemplo mas um centro de novas ligações e um campo de treino para a extrema-direita europeia, revela esta investigação.

Os dados recolhidos apontam para terem passado nestes campos de treino ou terem mesmo combatido ao lado das milícias da extra-direita ucraniana cerca de quatro mil estrangeiros. Um deles pode ter sido o responsável pelo massacre de Christchurch, na Nova Zelândia, em março do ano passado, que trajava os seus símbolos e tinha escrito ter estado na Ucrânia. E um outro será português. Segundo um dos autores do relatório White Supremacy Extremism: The Transnational Rise of the Violent White Supremacist Movement, do Soufan Center, um homem de nacionalidade portuguesa terá participado em combates ao lado de um destes batalhões.

A guerra na Ucrânia é uma divisória na extrema-direita europeia, com uma outra parte desta a ser pró-russa e a juntar-se até às suas fileiras, vistas como liderando um combate contra o poder dos EUA. “A francesa União Nacional e a italiana Liga continuaram a apoiar a Rússia – por seu lado, o Chega já assumiu no Parlamento a defesa da Ucrânia com um voto de condenação da agressão russa, e foi por isso elogiado pelo Movimento Azov”, escreve o jornalista do Público. Mesmo na Rússia, alguns movimentos tomaram partido pelos ucranianos.

Do lado da extrema-direita ucraniana, a Misanthropic Division fez um primeiro esforço de internacionalização da sua causa, sendo um movimento hoje menos dinâmico do que no seu início. A proeminência fica agora a cargo do Corpo Nacional, visto como “o braço político do Azov” e que desenvolve uma campanha internacional anti-russa. Olena Semeniaka é identificada como uma das responsáveis pelo espalhar do movimento por toda a Europa tendo estado em Portugal em 2018 por convite do “Escudo Identitário”.

MMA, a instrumentalização das artes marciais pela extrema-direita

O Público conta também como uma das portas de entrada para a influência da extrema-direita ucraniana são os combates de artes marciais mistas (MMA). Em parceria com Denis Nikitin, o Azov, dono da marca desportiva White Rex, trata de organizar torneios em vários pontos da Europa, usando uma rede de ginásios que são detidos pelos extremistas.

Um destes ginásios identificado em Portugal fica numa antiga loja de ferragens no Rego em Lisboa. Chama-se Trebaruna, o que pretende ser uma referência à mitologia dos lusitanos. E tem ligações ao Escudo Identitário, inspirado na Geração Identitária de origem francesa mas internacionalizada e no centro social Casa Pound italiano. Gonçalo Neves, que pretende ser conhecido como Gonçalo Portugal, fez um vídeo promocional do ginásio com os seus símbolos. E, em 2018, uma conferência organizada pelos “identitários” e que contou com intervenções portuguesas do vice-presidente do PNR, de Nuno Afonso do Escudo Identitário e de Rui Amiguinho, da Associação Portugueses Primeiro e da editora Contra-Corrente, terminou com uma demonstração de artes marciais nesse ginásio e um concerto numa discoteca. Nesta iniciativa foi a presença russa, através do Father Frost Mode, que vingou mais do que a ucraniana.

Porém, noutros é o Azov e respetivos aliados que são os protagonistas. Trata-se de torneios profissionais “e uma importante fonte de receita” para quem os organiza. Denis Nikitin parece querer vender os seus serviços a ambos os lados e a toda a extrema-direita europeia, seja de que tendência for.

O Azov verá o Escudo Identitário como aliado. E um dos torneios organizados por Denis Nikitin (ou Kapustin) o ano passado contou com a presença de onze portugueses. João Martins, agora diretor de uma revista chamada Plus Ultra, também membro da editora Contra-Corrente e um dos condenados pelo assassinato de Alcindo Monteiro, foi um dos convidados. Com ele foi o filho do presidente da Mesa da Convenção do Chega, Luís Graça, que pertenceu ao Escudo Identitário, e o membro do ginásio Trebaruna, Gonçalo Neves, que participara já noutros torneios organizados pelo russo e treinara num ginásio ucraniano com elementos do Rise Above Movement. Este é um grupo norte-americano que é conhecido por atacar violentamente comícios de esquerda.

Segundo esta reportagem, “as ideias do Azov também se estão a aproximar do Chega, de André Ventura, em particular da sua organização para a juventude”. Exemplo apresentado é uma publicação no Facebook em que o Intermarium Support Group, organização do Azov que promove o seu projeto geopolítico, partilha um vídeo do Chega ondeCarlos Martins, candidato à presidência da organização de juventude do partido de extrema-direita português, declara que este projeto será “interessante” e deve ser encarado com “seriedade” caso União Europeia não esteja à altura.

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