Extorsão e assédio: a outra face do “mercado de inverno” do futebol?

23 de janeiro 2024 - 10:19

O sindicato de jogadores de futebol profissionais de França anunciou esta semana que apresentaria uma queixa ao Procurador da República contra as práticas de vários clubes quando querem prolongar contratos ou afastar jogadores.

PARTILHAR
Kylian Mbappe foi um dos jogadores vítimas do chamado lofting. Foto de Balkan Photos/Flickr.
Kylian Mbappe foi um dos jogadores vítimas do chamado lofting. Foto de Balkan Photos/Flickr.

Enquanto na imprensa desportiva e na generalista centenas de nomes vão desfilando a propósito das transferências de clube dos jogadores do futebol europeu, uma informação destoa desta excitação do “mercado”. O Sindicato Francês de Jogadores Profissionais de Futebol, UNFP, anunciou esta terça-feira que vai apresentar uma queixa ao Procurador da República do seu país por “extorsão e assédio” contra desconhecidos. Em causa está este chamado “mercado de inverno” do futebol europeu e o objetivo é proteger os jogadores da pressão de que alguns são vítimas por parte dos clubes que os contrataran quando querem prolongar contratos ou se querem desembaraçar deles, o que se acentua nesta janela temporal de “transações” de jogadores entre clubes.

O sindicato não pretende com a queixa visar apenas uma equipa mas denunciar as situações vividas por muitos jogadores, 180 segundo as suas contas só desde o início da época de futebol em França. As práticas de assédio, afirmam, “generalizam-se” e “são mesmo reivindicadas pelos clubes que não hesitam em utilizar meios de comunicação sofisticados para ostracizar os jogadores em causa”.

“O recurso à coação moral para incitar uma pessoa a aceitar ou rescindir um contrato constitui um delito de extorsão”, defendem Julia Minkowski e Léon del Forno, os advogados contratados pela UNFP. Verificam-se situações de “isolamento brutal e pressões múltiplas”, havendo uma “deterioração das condições de trabalho suscetível de afetar os direitos do trabalhador ou de comprometer o seu futuro profissional” e que constituirão assédio.

Na mira do sindicato estão sobretudo os casos de “lofting”, uma prática que consiste em afastar os jogadores das equipas, enviando-os para grupos chamados “de treino” com o objetivo de aumentar a pressão para que decidam no sentido em que os clubes os querem forçar. Recorrendo à imprensa, o sindicato diz haver pelo menos cinco dezenas de casos recentes mas adverte-se: “na realidade, o número de vítimas destas práticas é muito mais elevado como cada pessoa sabe”.

O lofting, alega-se, “impede” o futebolista de exercer “a sua atividade profissional em condições normais” e coloca-o perante a chantagem de, se quiser voltar, ter de aceitar as condições do clube.

Atinge jogadores dos mais conhecidos do grande público aos desconhecidos. Exemplo disso é a estrela francesa Kylian Mbappé que, no início da época, se viu afastado de uma turné pré-época na Ásia e foi proibido de treinar com a equipa principal do Paris Saint-Germain por estar num diferendo contratual com o clube. De acordo com o PSG, dois meses a seguir, sem ter entretanto jogado nenhum jogo e depois de “discussões construtivas e positivas”, foi alcançado um acordo que, de acordo com imprensa francesa, implica que teria de perder uma série de bónus financeiros a que teria direito em caso de transferência.