Exames de 4º e 6º ano têm potencial de exclusão social

24 de maio 2014 - 18:57

Analista chefe da Direção da Educação e das Competências da OCDE alerta para o “potencial penalizante” para agravar o risco de reprovação e exclusão social e refere que a nível europeu apenas existem exames de 4.º ano na Bélgica e na Turquia.

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Bloco de Esquerda defende o fim dos exames do 4º ano e considera que esses exames revelam o “modelo conservador, atrasado e recuado” que o Governo pretende para a escola pública - Foto Miguel A. Lopes/Lusa (arquivo)

Em declarações à agência Lusa, no final de uma conferência subordinada ao tema “Compromissos na Educação” que decorreu nesta sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, o analista chefe da direção da educação e das competências da OCDE, Paulo Santiago, considerou que os exames têm uma importante função de validação de conhecimentos no sistema de ensino, mas que só fazem sentido quando os alunos são confrontados com mudanças e escolhas, como na definição de uma área de interesse do 9.º para o 10.º ano, ou no final do ensino secundário, para prosseguir estudos superiores.

Nos alunos mais jovens, a OCDE considera que os testes devem ter uma função de diagnóstico, para a orientação dos alunos e a superação de dificuldades, retirando o peso de um exame final, com consequências para o percurso escolar dos alunos.

“O que mostra a investigação a nível de educação é que o fator mais importante é a envolvente socioeconómica do aluno: se tem um quarto para estudar, se tem pais que o empurram para estudar, tudo isso vai aparecer na nota do aluno. Se o exame é penalizante, no sentido que conta para a potencial reprovação, a proporção dos que vão reprovar é bastante mais significativa, e o que isso quer dizer é que o exame pode eventualmente ter uma função de exclusão social”, afirmou o analista da OCDE à Lusa.

Paulo Santiago diz que em Portugal há uma tendência para equiparar as notas dos exames aos resultados das aprendizagens e que em muitos países apenas se introduzem notas quantitativas no percurso escolar dos alunos a partir dos 13, 14 anos.

Analista da OCDE alerta também para as escolhas precoces de uma via profissionalizante, sublinhando também o “potencial de penalização” para a carreira e o futuro dos jovens que escolhem este caminho demasiado cedo

“[Até essas idades] o que é preciso é fazer um diagnóstico sobre a progressão do aluno e refletir sobre os conselhos que se podem dar para que possa melhorar a sua aprendizagem”, disse o analista à Lusa.

Paulo Santiago alerta também para as escolhas precoces de uma via profissionalizante, sublinhando também o “potencial de penalização” para a carreira e o futuro dos jovens que escolhem este caminho demasiado cedo. Por uma questão de maturidade dos alunos, a OCDE entende que essa escolha nunca deve ser feita antes dos 14, 15 anos, refere a Lusa.

“O que analisamos em muitos outros países é que quando essa escolha é feita de uma maneira muito precoce, aos 10, 11, 12 anos, que pode ter implicações em termos da carreira futura e das oportunidades laborais. Os alunos ainda não estão suficientemente maduros. O que notamos na análise nos outros países é que há uma proporção maior de alunos nessas vias profissionalizantes que vêm de famílias mais desfavorecidas. Há o risco de ter um impacto negativo em termos de equidade, de dar oportunidades”, realça o analista da OCDE.

Bloco de Esquerda defende o fim dos exames do 4º ano

Paulo Santiago considera também “surpreendente que não haja mais políticas de ação para desenvolver as competências e aprendizagens dos alunos”.

Notemos que o Bloco de Esquerda defende o fim dos exames do 4º ano (ver notícia no esquerda.net) e considera que esses exames revelam o “modelo conservador, atrasado e recuado” que o Governo pretende para a escola pública.