Irão

Ética política e liberdade no exílio: Reflexões sobre a postura da diáspora iraniana perante a guerra

02 de abril 2026 - 14:48

A diáspora precisa de emergir do seu ilusório casulo para ouvir a verdadeira voz das ruas iranianas: uma voz que não clama por bombas nem por sanções ocidentais injustas, mas que anseia por dignidade, segurança e mudanças genuínas.

por

Ali Jafari

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Grupo de iranianos pró-Pahlavi manifesta-se em Genebra com bandeiras de Israel e cartazes onde se lê “Make Iran Great Again”.
Grupo de iranianos pró-Pahlavi manifesta-se em Genebra com bandeiras de Israel e cartazes onde se lê “Make Iran Great Again”. Foto de Nelson Pereira

Nas primeiras horas do dia 1 de Março, o eco das explosões e o anúncio do ataque militar dos EUA e de Israel contra o Irão não só abalaram a geopolítica da região, como também alteraram os limites éticos e morais de um segmento da comunidade iraniana no estrangeiro. A alegria e as celebrações da ala mais beligerante da diáspora perante estes massacres e destruição não são meramente uma válvula de escape emocional. Revelam uma profunda crise na “compreensão da liberdade”, na “responsabilidade moral” e na “responsabilidade individual”. Este ensaio procura, da melhor forma possível, analisar este fenómeno.

Desejo desde já deixar claro que este texto não pretende, de forma alguma, obscurecer a repressão do governo da República Islâmica, o actual impasse político ou o sofrimento decorrente do despotismo interno. É também importante notar que esta reflexão se centra no comportamento de um segmento da diáspora iraniana e não pode ser generalizada a todos os seus membros.

1. Qual é a nossa posição no mundo? Uma geografia sangrenta de padrões duplos

Ao contrário das promessas de progresso associadas à modernidade, as primeiras décadas do século XXI tornaram-se um santuário aos ideais humanos sacrificados. Vivemos na era dos “resultados dos crimes”. Desde o surgimento de grupos extremistas como o ISIS e os Talibãs — produtos directos ou indirectos de intervenções dos Estados Unidos e dos seus aliados regionais — até ao genocídio flagrante perpetrado por Israel em Gaza com o total apoio militar e político do Ocidente (particularmente dos Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido), a nossa civilização contemporânea carrega uma mancha indelével.

Neste contexto, a invasão da Ucrânia pela Rússia em resposta ao expansionismo da NATO expôs a política dos “duplos padrões”. Enquanto o Ocidente invoca a “soberania nacional” para a Ucrânia e lhe fornece apoio militar incondicional, abre simultaneamente caminho para que Israel absorva os últimos restos de território palestiniano. A tragédia em Gaza, por si só, basta para expor a farsa dos “direitos humanos” ocidentais; uma máscara por detrás da qual se escondem a barbárie dos dirigentes ocidentais e a inércia da maioria dos países da região.

Este duplo padrão manifestou-se novamente nos últimos dias. Não é de estranhar que o Ocidente, cúmplice desta guerra, inverta a verdade, rotulando a legítima defesa do Irão como uma “ameaça” e a agressão militar americano-israelita como uma ação “libertadora”. Esta mesma corrente de poder, que durante décadas fez com que o Médio Oriente pagasse o preço pelo anti-semitismo histórico da Alemanha, está agora a transformar o Irão num laboratório para a sua barbárie moderna e militarismo desenfreado. Para o Ocidente, a verdade histórica, a ética e o direito internacional são meras ferramentas para manter a hegemonia, moldadas ou sacrificadas de acordo com os seus interesses, como vemos na ocupação da Palestina e no genocídio em Gaza. Hoje, em solo iraniano, as vidas dos cidadãos e das crianças não passam de "danos colaterais" em equações geopolíticas; uma verdade deliberadamente silenciada pelo estrondo das bombas para legitimar o projeto de destruir uma nação e saquear os seus recursos, sob o disfarce enganador de "democracia" e "libertar um povo do jugo de um ditador".

Neste ambiente tóxico, o anúncio do assassinato de Ali Khamenei mergulhou uma parcela da diáspora na euforia. Embora o desejo de superar a ditadura seja uma aspiração legítima, este entusiasmo reflete tanto um sentimento de humilhação como o prenúncio de uma tragédia: o fim de um regime está a ser celebrado, não pelo povo, mas pelas potências mais criminosas do planeta. Estas cenas de júbilo, onde as pessoas dançam com bandeiras americanas e israelitas e oferecem flores às embaixadas cujas bombas destroem escolas, hospitais e infraestruturas nacionais no Irão, testemunham um colapso moral e humano.

Ao rotular Donald Trump e Benjamin Netanyahu de "filantropos" ou "pacifistas", a ala mais radical da diáspora está a tornar-se cúmplice do projecto de destruição da sua própria pátria. Chegou a recrutar membros da chamada "elite intelectual" e laureados com o Prémio Nobel da Paz. Intelectuais que, em órgãos de comunicação como Irão Internacional e Manoto ou certos meios de comunicação ocidentais tradicionais, se tornaram os garantes académicos do ataque militar. À frente deste movimento está Reza Pahlavi que, ao glorificar os soldados estrangeiros e ao incitar Trump à intervenção militar, está a sacrificar as crianças da nação no altar dos seus três “heróis” militares americanos.

A verdade é amarga: enquanto o chanceler alemão exclui explicitamente o Irão da “proteção do direito internacional” e Trump e Netanyahu declaram abertamente a sua intenção de destruir o país, estes iranianos belicistas no estrangeiro, embalados pela ilusão da “liberdade sob a mira de uma arma”, assistem, dançando, enquanto a pátria se desmorona e as crianças são mutiladas, expressando a sua gratidão aos líderes mais beligerantes do mundo.

Irão

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por

Sina Toossi

02 de março 2026

2. Análise da situação: o paradoxo da liberdade

Parece que aqueles que veem a guerra como um caminho para a libertação e uma solução para os seus problemas estão presos num “paradoxo da liberdade”: uma situação em que se exige a libertação da opressão interna à custa da destruição da pátria e do extermínio do seu povo. Vamos tentar analisar as dimensões deste fenómeno.

A lógica do “estado de exceção” e a desvalorização da vida humana

Nesta perspetiva, a guerra não é uma catástrofe, mas uma “necessidade” para o “período de transição” rumo à “liberdade”. Ao apropriar-se do conceito de estado de exceção, a vida do indivíduo dentro do país — desde a criança em Minab até ao cidadão comum — é reduzida a uma mera estatística em cálculos estratégicos.

Consequentemente, as vidas dos iranianos dentro do país, sejam crianças em idade escolar, doentes hospitalizados ou transeuntes, perdem o seu valor perante o ideal de “liberdade”. Ou, mais precisamente, tornam-se moeda de troca que pode ser sacrificada por um objectivo “superior” sem que esse assassinato seja considerado um crime. Contudo, esta suposta liberdade é muitas vezes apenas uma máscara para o poder e a riqueza, e este objectivo “nobre” não é mais do que a dominação de um grupo sobre o resto da sociedade. Esta lógica aplica-se até aos cidadãos comuns: para estes apoiantes da guerra, o destino daqueles que detêm o poder, seja por opção ou por necessidade, já está previamente selado; o seu sangue é considerado "legítimo" e a morte, uma fonte de satisfação.

Estética da devastação e do "falso sublime"

Assistir a poderosas explosões por detrás da segurança dos ecrãs no Ocidente transformou a guerra, para uma parcela da diáspora, num "espectáculo fascinante" e num falso sublime. A escala aterradora da destruição e a visão de cadáveres, em vez de despertar compaixão, provocam admiração.

Nesta distorção visual, o fogo dos mísseis não evoca o terror, nem a carne queimada, nem a aniquilação da humanidade; é percebido como belo, como a luz da "liberdade". Os alegres carnavais nas ruas ocidentais, a difusão em massa de vídeos de dança com música animada — por vezes sob as bandeiras de Israel e dos Estados Unidos — constituem uma forma de censura estética. O cheiro a pólvora, o sangue e os gritos das mães são retirados da imagem para embalar a horrenda verdade da guerra no verniz brilhante de uma "sede de democracia". Este grupo, fascinado pela “destruição criativa” em vez da reparação e da evolução civil, retira prazer simbólico da ruína da infraestrutura nacional. Este prazer baseia-se na ideia de que, para construir um Irão próspero, tudo o que o atual sistema político construiu deve ser arrasado. Esquecem-se de que, no mundo real, as ruínas da guerra não são o terreno fértil para a democracia, mas o pântano das guerras civis e do neofascismo.

A armadilha do “colonialismo libertador”

Esta euforia frenética perante o ataque militar deriva, sem dúvida, da velha armadilha lógica de que “os fins justificam os meios”. Ao agarrarmo-nos a esta abstração, fechamos os olhos às experiências sangrentas do Iraque, da Síria, do Afeganistão e da Líbia. Estes exemplos provaram que a “liberdade” na ponta da espingarda de um soldado estrangeiro não conduz à democracia, mas à destruição estrutural, à pilhagem de recursos e a uma nova forma de escravatura.

Ao ignorar esta questão ética e política fundamental, esta corrente de pensamento teoriza, na prática, um “colonialismo libertador”. No entanto, o que se constrói sobre as ruínas da pátria e sobre os cadáveres de inocentes pode ser muitas coisas, mas certamente não a liberdade. Quando o “meio” utilizado é o míssil devastador, o “objetivo” nunca poderá ser a democracia. A libertação autêntica é um processo que surge das lutas sociais e dos laços orgânicos das massas, não do fumo das explosões provocadas por Israel, pelos Estados Unidos ou pela NATO, cujo único objetivo é a terra queimada para garantir a sua própria hegemonia.

Declínio da ideia nacional e ressentimento improdutivo

Por fim, a alegria com a destruição do património nacional e dos monumentos históricos testemunha um colapso do imaginário nacional. Aqueles que se regozijam com o bombardeamento do seu país já não são capazes de partilhar do sofrimento do outro. Já não vê o Irão como um corpo humano vivo, mas como um “mapa ocupado” controlado pelo actual sistema político, cuja limpeza étnica é aceite, mesmo se à custa da eliminação física dos seus habitantes.

É aqui que a “política” morre, dando lugar ao vandalismo político e ao ressentimento improdutivo contra aqueles que pagam o verdadeiro preço da mudança interna. Durante este ataque, vários monumentos históricos e tesouros nacionais, incluindo o antigo edifício do Senado e o Palácio Golestan, foram alvejados. Para estes apoiantes da guerra, isso não importa: “Num Irão livre, reconstruiremos melhor”. O indivíduo obcecado pela guerra está tão dominado por esta alegria deslocada que já não se preocupa com o desvanecimento da memória histórica e o desmantelamento do tecido da identidade nacional.

Análise

Irão em revolta

por

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08 de fevereiro 2026

3. O sacrifício da verdade: a propaganda e a morte da realidade

Na guerra moderna, a “verdade” é assassinada muito antes de ser disparado o primeiro tiro. O que estamos a assistir com a ofensiva militar israelita e americana contra o Irão é uma redução da verdade a mera "representação mediática"; um processo em que a realidade crua no terreno é apagada em favor de construções elaboradas criadas em estúdios em Londres ou Washington. A euforia de um segmento da diáspora é um produto direto desta "indústria da desilusão".

Uma rede de veículos de comunicação social em língua persa (liderada pela Manoto e pela Iran International), amplamente financiada pelas potências intervencionistas — nomeadamente os Estados Unidos, a Arábia Saudita e Israel — disfarça a violência aterradora por detrás de gráficos sedutores de supostos mísseis "cirúrgicos". Nesta inversão semântica, a "destruição da infraestrutura nacional" transforma-se em "libertação", e o "massacre de civis" é rebatizado como "danos colaterais". Ao boicotarmos a "narrativa da vítima", garantimos que os gritos das crianças nas escolas e nos hospitais são abafados pelo clamor dos carnavais virtuais.

A armadilha da alienação cultural

Parte desta intoxicação provém da dependência de narrativas ditadas por centros de poder globais. Anos de bombardeamentos mediáticos sobre o tema da “demonização absoluta” e da justificação de sanções paralisantes geraram uma geração de ativistas que, em vez de confiarem na força do povo, procuram a redenção às mãos de potências estrangeiras. Ao retransmitir estas metanarrativas coloniais, este segmento da diáspora torna-se o braço armado de um projecto de “construção da realidade” ao serviço dos belicistas.

Celebrar os soldados estrangeiros enquanto se ignoram décadas de pressão económica que quebraram a espinha dorsal do povo iraniano revela uma profunda alienação. Ao reduzir a identidade iraniana a alguns meros enfeites simbólicos e ao negar a realidade do neocolonialismo, esta corrente abre caminho a projetos cujo objetivo não é a “democracia para o Irão”, mas o colapso da sua independência e a sua subjugação total ao Ocidente.

Cegueira à complexidade

Anos de exílio num mundo saturado por meios de comunicação que reduzem a sociedade iraniana à dicotomia "bem versus mal" criaram uma espécie de cegueira. Para estes atores, a República Islâmica tornou-se o "mal absoluto", o que, aos seus olhos, invalida qualquer ação positiva ou independente empreendida no país nos últimos 47 anos.

Esta desconexão histórica impede-os de ver que o Ocidente e o movimento sionista têm vindo a desenvolver, há mais de três décadas, um plano para desmantelar a estrutura nacional do Irão através de um isolamento sistemático. Aqueles que apoiam a intervenção fecham os olhos a uma realidade reconhecida pelos arquitetos das sanções em Washington: o objetivo nunca foi a democracia, mas sim o caos social e a ruína territorial. Neste sistema de pensamento, o "ditador" é reduzido à única causa de todos os males, de modo a absolver os predadores internacionais da sua responsabilidade histórica.

Os riscos da soberania: para além da República Islâmica

O principal erro estratégico daqueles que favorecem a opção militar é a sua incapacidade de reconhecer a posição singular do Irão. Ao contrário de outros países da região que albergam bases militares estrangeiras, o Irão escolheu o difícil caminho da resistência à ordem imposta pelo Ocidente. Esta “recusa estrutural” em integrar-se na ordem neoliberal e militar ocidental é o pecado imperdoável, cuja punição é agora o bombardeamento da sua infra-estrutura.

A diáspora que aplaude estes bombardeamentos está, na realidade, a assistir à vingança do Ocidente contra a “vontade de independência” de um país. Ela recusa-se a ver que o objetivo final é transformar o Irão num “Estado falhado” dócil — um processo enganosamente rotulado como “regresso à comunidade internacional”.

É crucial compreender que este destino não depende da natureza do sistema vigente em Teerão. Qualquer estrutura política no Irão, seja ela religiosa ou secular, democrática ou autoritária, sofreria o mesmo destino se se opusesse à hegemonia ocidental. Este é o nó górdio da política internacional contemporânea: a destruição é o preço da resistência, independentemente de quem governe.

4. Patologia da identidade: da "alienação do sujeito" ao "fetichismo da destruição"

O que se observa no comportamento da diáspora belicista parece ser mais do que uma postura política; trata-se de uma patologia da identidade — um produto do processo de alienação. Para compreender este colapso, é necessário desconstruir as camadas humanas e sociais deste fenómeno.

Um segmento da diáspora, devido à distância física, vivendo há anos atmosfera do "Norte Global", rompeu o seu vínculo com a realidade pulsante do Irão. Nas suas mentes, o Irão já não é um conjunto de pessoas reais, situações e ansiedades vividas na luta diária; foi reduzido a uma ideia abstrata. A realidade, para estes iranianos, limita-se ao que ouvem nas redes sociais, nos órgãos de comunicação ocidentais e em relatos ocasionais de familiares. Quando o vínculo com a realidade objetiva é quebrado, um indivíduo pode facilmente permanecer indiferente — ou até aplaudir — a destruição de estruturas nas quais ele próprio não vive. Esta disposição pode ser vista como uma indiferença em relação à responsabilidade individual e moral, um fator alimentado pela "imunidade geográfica".

Tal condição permite à diáspora belicista empenhar-se na "desumanização" da sua pátria e do seu povo, construindo-os como um "outro". Para apoiar confortavelmente um ataque militar, o seu primeiro passo é considerar os seus compatriotas dentro do país como "estrangeiros". Nesta visão, as pessoas dentro do país são ou "cúmplices do sistema" ou uma "massa passiva" cujo valor biológico é menor do que os ideais abstractos desta facção da diáspora. Aqui, reproduz-se a lógica colonial: "Matem os nativos para os salvar!" Lançam apelos à guerra além-fronteiras, mas o custo não é pago pelos residentes da Califórnia, de Londres ou de Paris, mas sim pelas classes subalternas do Irão — com as suas vidas famintas e o seu sangue. A verdade é que este movimento fala com a "linguagem da vítima", mas prescreve soluções com a "lógica do executor".

No meio disto, a representação fabricada e glamorosa da era Pahlavi em veículos de comunicação social como o canal televisivo Manoto canalizou esta crise de identidade. O fetichismo de regressar a uma "glória e grandeza" do passado é procurado não através da luta civil, mas — como Reza Pahlavi implorou a Trump — através dos canos das armas israelitas e americanas. A ironia suprema é que muitos destes "prescritores da guerra", mesmo que se estabelecesse uma nova ordem sobre as ruínas da guerra, não estariam dispostos a regressar e a viver naquelas condições. Nesta visão do mundo, a pátria não é um "lar partilhado", mas um "projeto político exportável" que deve ser construído por um estrangeiro.

Irão

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por

Yassamine Mather

11 de janeiro 2026

5. As consequências catastróficas do sacrifício da verdade: da anestesia humana à ruptura nacional

Sacrificar a verdade leva a consequências humanas terríveis. Quando a realidade do "sofrimento do outro" é obscurecida pela "representação seletiva" e pela manipulação dos factos, o terreno está preparado para uma anestesia sistémica da consciência. É aqui que a empatia entra em colapso. Numa tal configuração, a morte de um ser humano — e, neste caso, de um concidadão — deixa de provocar indignação e passa a ser justificada como um "custo necessário da transição". É aqui que começa a barbárie moderna.

Além disso, o sacrifício da verdade nas celebrações de rua e na euforia dos belicistas da diáspora semeia o ódio e a suspeita para as gerações futuras. Quando uma parcela do exílio, consciente ou inconscientemente, aplaude uma intervenção militar que significa a destruição de lares e a morte dos que permaneceram no país, a própria ideia de "unidade nacional" é destruída durante décadas. Os edifícios que ruíram podem até ser reconstruídos com o dinheiro dos colonos — à custa da subjugação económica e política —, mas a humilhação histórica e a ferida infligida à consciência colectiva de uma nação nunca cicatrizarão facilmente.

Em última análise, sacrificar a verdade permite aos aproveitadores da guerra esquivar-se à sua "responsabilidade individual e histórica". Ao refugiarem-se nas mentiras dos media, fogem da difícil questão: "Qual é a nossa responsabilidade moral para com o futuro desta terra?" “A verdade é amarga: o silêncio, o incentivo ou a cumplicidade perante a intervenção militar não constituem um ativismo pela liberdade, mas antes uma colaboração no projecto de destruição do futuro das crianças iranianas. As gerações vindouras não esquecerão tal traição.

6. Conclusão: o regresso à verdade e à consciência coletiva é o único caminho para a libertação

Nenhuma liberdade duradoura nascerá sem a recuperação da verdade. Uma liberdade construída sobre o engano, a propaganda e a negação do sangue inocente só se transformará numa nova tirania. Estar do “lado certo da história” é estar ao lado da “verdade nua e crua do sofrimento humano no Irão”. Uma verdade que não ressoa nos estúdios de Londres ou de Washington, nem nas redes sociais de Elon Musk ou Mark Zuckerberg, mas no coração das ruas iranianas, no olhar aterrorizado de um povo que recusa ser carne para canhão nas lutas globais pelo poder.

O caminho para a libertação não reside no vício esmagador entre o “despotismo interno” e a “belicismo estrangeiro”. O destino do Irão não pode ser confiado às bombas inteligentes e aos sorrisos diplomáticos dos belicistas do Norte Global, que provaram repetidamente que a democracia e os direitos humanos no Sul Global não têm qualquer valor aos seus olhos. A libertação do Irão dependerá da capacidade dos iranianos, independentemente das suas inclinações políticas, de se reconectarem entre si. Embora seja muito tarde, hoje, mais do que nunca, precisamos de um diálogo honesto entre os vários segmentos da sociedade, tanto dentro como fora do país. A diáspora precisa de emergir do seu ilusório casulo para ouvir a verdadeira voz das ruas iranianas: uma voz que não clama por bombas nem por sanções ocidentais injustas, mas que anseia por dignidade, segurança e mudanças genuínas.

O dever moral e nacional do intelectual e do ativista no exílio não é aplaudir bombas, mas preservar o "direito à vida" e o "direito à autodeterminação". Precisamos de uma resistência e de uma luta capazes de se opor simultaneamente ao autoritarismo interno da República Islâmica, sem nunca permitir que a "pátria" se torne o laboratório de armas das potências mundiais ou o alvo de sanções internacionais injustas e desumanas.

Uma liberdade que cheira a pólvora estrangeira já está abortada, é um feto condenado desde o início. A verdadeira identidade do iraniano no exílio não reside na cumplicidade com projectos de colapso, mas na solidariedade com o sofrimento real dos seus compatriotas e na salvaguarda da integridade material e espiritual de um Irão independente, onde a vida humana não seja sacrificada em jogos geopolíticos.

Finalmente, não se trata de escolher entre o "pior e o menor dos males". O objetivo é consciencializar para esta verdade histórica: a primeira vítima da máquina de guerra é sempre a sociedade civil, os movimentos de protesto e as suas conquistas são todos afetados. A guerra envenena o próprio ar que respiram os movimentos sociais independentes. Ao securitizar os espaços públicos, abafa as últimas esperanças da sociedade por qualquer mudança democrática e orgânica. Opor-se às bombas é, na realidade, defender a própria possibilidade de continuidade da luta civil do povo iraniano pois, no meio das ruínas da guerra, não são as sementes da liberdade que brotam, mas antes as do fascismo e de mais pilhagem.


Nota: Os canais televisivos Iran International e Manoto, sediados no estrangeiro, são frequentemente percebidos como veículos de comunicação de movimentos monárquicos pró-Reza Pahlavi ou de potências regionais rivais de Teerão.


Ali Jafari é professor, investigador e jornalista, doutorado em Sociologia pela Universidade Sorbonne e com experiência em investigação de pós-doutoramento na Universidade de Teerão. Lecionou em Lyon em instituições como a Universidade Lumière Lyon 2, a École Normale Supérieure (ENS) e a Universidade Jean Monnet, especializando-se em sociologia da educação, estudos de género e antropologia visual. O seu percurso profissional inclui mais de 15 anos como jornalista, complementados por formação em cinema documental na École de l’Image Gobelins, em Paris. Fluente em francês e falante nativo de persa e turco, Jafari é autor de várias publicações sobre dominação ideológica, movimentos sociais e a política da estética no sistema educativo iraniano. Artigo traduzido por Nelson Pereira.