Na sua tese de doutoramento, o economista António Melo concluiu que a taxa de interrupções voluntárias de gravidez diminui nas zonas mais distantes dos serviços que permitem acesso ao aborto. Para ele, “a distância pode potencialmente impedir as mulheres de abortar” e assim “haver pessoas que são impedidas de abortar por morarem no sítio errado.”
As suas declarações constam de uma grande reportagem publicada este sábado no Diário de Notícias. O economista explica que nos municípios que estão a mais de uma hora do serviço de interrupção voluntária de gravidez mais próximo “têm menos 22% que município que estão a até 30 minutos de serviço”, uma distância medida em termos de transporte automóvel e que, portanto, implicará um tempo de deslocação ainda maior se for feito em transportes públicos.
No total, “84% dos abortos dizem respeito a mulheres que residiam a 30 ou menos minutos de um serviço de interrupção de gravidez, 13% às que residiam a entre 30 e 60 minutos, e 3% àquelas a mais de uma hora.” Os números dizem respeito aos anos entre 2008 e 2016, o último ano em que a Direção-Geral da Saúde deixou de publicar os dados de abortos por hospital, alegando a entrada em vigor do Regulamento Geral de Proteção de Dados. Mas o estudo pondera o fator populacional, ou seja o número de mulheres em idade fértil por cada região, pelo que a diferença não pode ser atribuída às populações serem menores.
Bloco quer explicações de Ministro da Saúde sobre problemas no acesso ao aborto
No período estudado, houve hospitais que fecharam as suas consultas de interrupção de gravidez. António Melo explica que nas “regiões onde se fecha o serviço de IG sofrem uma redução dos abortos legais, e que as mulheres aí residentes demoram a chegar ao contacto com um serviço onde haja consulta prévia”.
O economista defendeu a sua tese de doutoramento no passado mês de outubro na Universidade de Paris-Dauphine e a sua primeira parte, intitulada “Todas as estradas levam ao mesmo destino? Proximidade a serviços de aborto, abortos e respetivas condições em Portugal” tornou-se um artigo independente, enviado ao Journal of Population Economics. Nele também se considera que um dos problemas é o prazo legal para interrupção por decisão exclusiva da mulher, “o menor da Europa”, escreve-se na reportagem”, enquanto que na tese se pode ler: “com apenas 10 semanas para se abortar legalmente, os atrasos que observamos na chegada aos serviços podem explicar por que motivo as regiões com menor acesso à interrupção de gravidez têm taxas mais baixas – as mulheres podem estar a requerer este cuidado de saúde demasiado tarde para ser autorizado e, consequentemente, levar as gravidezes a termo.”
Outro aspeto que consta da investigação é que o número de gravidezes adolescentes não varia de acordo com a distância a um serviço de IG, o que se mediu para despistar a hipótese de que a distância de um serviço destes reforçasse o recurso a meios contracetivos.
O estudo mostra ainda que “mulheres que vivem mais longe de um serviço de IG abortam com mais semanas de gravidez e que esse facto é, sobretudo, causado por chegarem tarde aos serviços, possivelmente devido a não saberem como aceder-lhes”. Estima-se que “mulheres que vivem a entre 30 e 60 minutos de um serviço de IG têm uma probabilidade 140% maior de abortar depois das nove semanas e que essa probabilidade é ainda maior - 157% - para as que vivem a mais de uma hora.” Isto tem consequências de saúde e no SNS: “Os hospitais públicos que atendem as mulheres que estão perto do final do prazo podem ter dificuldade em providenciar a interrupção no tempo necessário (…) obrigando-os a contratar o serviço no privado, onde 97% do aborto é cirúrgico”.
Em termos de percentagem, “a proporção de abortos encaminhados para clínicas privadas aumenta de 21% entre mulheres que vivem até 30 minutos de um serviço com IG para 37% entre mulheres que vivem a uma hora de viagem. Do mesmo modo, a proporção de IG cirúrgica aumenta de 31% entre as mulheres que residem a 30 minutos de um serviço de IG para 44% naquelas que enfrentam tempos de viagem superiores a uma hora.”
Sobre a discriminação geográfica que tudo isto implica, António Melo diz à jornalista Fernanda Câncio: “creio que mesmo para alguém que seja contra o aborto é impossível justificar que uma mulher de Lisboa possa abortar e uma em Portalegre não”, o mesmo se podendo dizer sobre o fator económico: “e claro que quem tem dinheiro consegue sempre, o problema é sempre para as mesmas – as pessoas com mais dificuldades económicas, as mais jovens.”