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"Espero que a sua morte não tenha sido em vão", diz viúva do indigenista assassinado

Antropóloga Beatriz Matos contou como foram os dias de agonia após o desaparecimento de Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, assassinados por pescadores ilegais no Amazonas.
A antropóloga Beatriz Matos e o marido Bruno Pereira, indigenista assassinado no Vale do Javari. Foto: Bruna Franchetto

Num depoimento prestado à revista Piauí, a professora de Antropologia e Etnologia Indígena da Universidade Federal do Pará relata a atividade do marido, marcada por um "compromisso existencial": a dedicação à causa indígena. "A floresta era o lugar onde Bruno se sentia mais à vontade. Ele queria aprender a fundo como monitorar a movimentação dos indígenas isolados, entender por onde eles andavam e de que forma os territórios deles estavam sendo invadidos. Aprendeu a falar a língua dos Matis, dos Matsés e um pouco da dos Kanamari", conta Beatriz Matos.

Homem de personalidade forte e "bastante intransigente", Bruno Pereira assumiu em 2018 a Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, a instituição brasileira que lida de perto com os conflitos cada vez maiores entre as comunidades e os garimpeiros e pescadores ilegais. "Poucos indigenistas dessa geração conseguem fazer o que ele fazia: conjugar a experiência de mato dos sertanistas mais velhos com a habilidade administrativa de conhecer a máquina do Estado", acrescenta Beatriz, recordando algumas ações conjuntas com a Polícia Federam para desarticular a atividade do garimpo em terras indígenas.

Por caus desse trabalho, as ameaças de morte não eram novidade para Bruno. Mas Beatriz sublinha que "houve uma escalada na violência após a entrada do governo do presidente Jair Bolsonaro", com os garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais a beneficiarem de um sentimento de impunidade alimentado pela liderança do país. Entre eles estão os assassinos de Bruno e Dom, conhecidos há muito tempo na região. "A novidade é a coragem para cometerem o crime em plena luz do dia, com várias testemunhas. Provavelmente acharam que seria mais um assassinato a ser esquecido", aponta a viúva do indigenista, recordando o assassinato em 2019 de outro indigenista colega do marido, Maxciel Pereira, baleado na cabeça quando ia na sua motorizada na avenida principal de Tabatinga acompanhado da sua filha. "A Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) denunciou essa mesma turma do Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado [principal suspeito de ser o responsável pelas mortes de Bruno e Dom], ao Ministério Público Federal do Amazonas e nada aconteceu".

Após uma dessas operações conjuntas com a polícia contra o garimpo ilegal no Vale do Javari, no final de 2019 Bruno Pereira foi exonerado do cargo e pediu uma licença sem vencimento para ir trabalhar como assessor da Univaja, por considerar ser inviável fazer um trabaho sério na Funai sob a gestão de Bolsonaro. Por causa das ameaças, Bruno tinha licença de porte de arma desde 2015 e "sempre foi muito cauteloso". Na sua última viagem à região, levou o jornalista do Guardian a entrevistar gente das comunidades locais para o livro que tinha em preparação sobre a Amazónia.

À medida que passavam os dias sem notícias dos dois desaparecidos, Beatriz diz ter vivido "uma montanha russa de emoções: do desespero à esperança, da tristeza à alegria, até que a notícia que eu mais temia chegou" e teve de a dar aos dois filhos do casal, com apenas três e dois anos. "Estou tentando preservá-los ao máximo do assédio de jornalistas. Não deixei que fossem ao velório do pai porque seriam alvo fácil das câmeras", confessa.

A reação dos povos indígenas à morte de Bruno e Dom deixou-a "impressionada". "Recebi vídeos dos Matsés raspando o cabelo, algo que eles só fazem quando os parentes deles morrem. Vi homenagens dos Kanamari, dos Guarani e dos Kayapó. É como se dissessem: 'Estão matando a gente e estão matando os nossos aliados.' Apesar de nunca terem atuado ao lado de Bruno, os Pankararu e os Xukuru foram homenageá-lo cantando suas músicas no velório em Recife. Foi emocionante ver esse reconhecimento porque ficou claro que a importância do Bruno extrapolou as fronteiras do Vale do Javari", sublinha Beatriz Matos.  

A antropóloga revela ainda que recebeu logo após a confirmação da notícia da morte do marido um telefonema de condolências por parte de Lula da Silva. "Disse que quer se encontrar comigo quando for a Belém. Já de Bolsonaro não recebi ligação nenhuma. Pelo contrário: ele realizou uma motociata em Belém dois dias depois de encontrarem os corpos de Bruno e Dom" e no funeral não houve representantes do Estado federal, ao contrário dos governos municipal e estadual, que marcaram presença.

Beatriz compara a morte de Bruno e Dom ao assassinato do seringueiro e sindicalista Chico Mendes e da missionária americana Dorothy Stang. "Ambos foram assassinados por defenderem a preservação da floresta amazônica e dos povos que vivem nela", diz a antropóloga, afrimando desejar que "os assassinos sejam presos e paguem pelo que fizeram, mas, mais fundamental do que isso, é evitar que crimes como esses se repitam".

"O mais importante é que seja possível voltar a transitar com segurança pelos rios do Vale do Javari, que os servidores da Funai tenham condições de trabalhar de verdade na região, que os povos indígenas possam viver sem a ameaça de invasão e destruição de seus territórios. Ali é o meu local de trabalho e quero poder voltar lá com meus filhos para que conheçam o local onde o pai deles atuava", prossegue a viúva de Bruno Pereira.

"Nada trará o Bruno de volta, mas espero que sua morte não tenha sido em vão", conclui.

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