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Espanha: Igreja já pagou 2 milhões de euros a vítimas de pedofilia

Dados são do jornal El País, mas a Igreja espanhola continua sem revelar quantos casos de abuso já aconteceram. Os números só incluem casos sentenciados em tribunal, pois a Igreja não divulga quanto pagou em acordos extrajudiciais em troca do silêncio das vítimas.
Juán Jose Omellas, presidente da Conferencia Episcopal Espanhola junto ao Papa Francisco | Foto de Conferencia Episcopal Espanhola - Facebook
Juán Jose Omellas, presidente da Conferencia Episcopal Espanhola junto ao Papa Francisco | Foto de Conferencia Episcopal Espanhola - Facebook

A Igreja espanhola já se viu obrigada a pagar 2.063.728 euros a 173 vítimas de abuso sexual devido a sentenças dos tribunais. os dados são do jornal espanhol El País, que contabiliza os casos conhecidos através da imprensa ou de sentenças judiciais nas últimas quatro décadas. No entanto, a Igreja assegura que os casos de pedofilia são muito poucos.

Os dados em questão são referentes a 43 pedófilos (20 sacerdotes, 17 religiosos, dois seminaristas e quatros laicos com cargos pastorais) e 353 mil euros dos 2 milhões correspondem a um acordo feito na Catalunha, entre os maristas e 25 famílias.

A maioria das vítimas não denunciam os abusos ou os processos simplesmente prescrevem antes de chegar a julgamento. Os únicos números oficiais da Conferência Episcopal Espanhola (CEE) sobre casos de pedofilia no seio da Igreja, do passado mês de abril, apontam para 220 sacerdotes denunciados internamente desde 2001.

Também se mantém em segredo quantos acordos extrajudiciais foram feitos entre a Igreja e as vítimas, em troca do silêncio destas. Uma prática que já foi proibida pelo Papa Francisco em 2019. O El País, em 2002, tinha denunciado o pagamento de 72 mil euros feito por jesuítas a uma vítima de Salamanca que sofreu abusos nos anos 80 do século passado.

Esta prática, no entanto, tem sido constantemente usada, tal como denunciou Miguel Hurtado, um jovem que revelou abusos no mosteiro de Montserrat, na Catalunha, e que um juiz eclesiástico confirmou: “Isto começou a estender-se a partir da década dos anos 90 e inícios de 2000. Havia dinheiro por baixo da mesa com a condição sine qua non do silêncio. Esse dinheiro dava-se por fora. Utilizavam-se fundos reservados da diocese, mas atenção, são para fazer o bem e não se tem que dar conta do porquê se utiliza esse dinheiro”.

As sentenças judiciais analisadas indicam que só três das indemnizações foram de acordo entre as ordens ou dioceses e as vítimas. O resto, a Igreja viu-se obrigada a pagar, já que foram impostas pelos tribunais.

Em novembro de 2018, o responsável pelas finanças da CEE, Fernando Giménez Barriocanal, afirmava que “a Conferência Episcopal Espanhola destinou zero euros” a indemnizações por casos de pedofilia e relativamente ao pagamento por parte das dioceses referiu desconhecer se existiam.

Como já foi referido, a maioria dos casos de abuso no seio da Igreja já prescreveram, mas tal como se está a fazer em todo o mundo, menos em Espanha e Itália, as organizações católicas estão a ressarcir as vítimas por iniciativa própria.

Em Portugal, constituiu-se uma tímida comissão interna de investigação destes casos, que tem sido contestada por grupos de católicos pela falta de independência na condução do processo.

Na Alemanha, a Conferência Episcopal fixou indemnizar 50 mil euros por cada vítima, e na Austrália, em 2020, realizaram-se 2.504 pagamentos através do Plano Nacional de Indemnização do Governo, numa média de 71 mil euros por vítima.

Gemma Varona, investigadora e doutora permanente no Instituto Basco de Criminologia da Universidade do País Basco, é coautora do primeiro estudo académico sobre a pedofilia na Igreja espanhola. Acredita que as iniciativas das indemnizações “têm de ser processos muito transparentes. Deve-se deixar bem claro, para todas as vítimas, que se está a oferecer em condições de igualdade, e devem ser conscientes de que essa forma de reparar através do dinheiro é em todo o caso insuficiente e se deve abrir outras formas de reparação, mais simbólicas e públicas”.

Em janeiro deste ano, os bispos espanhóis anunciaram, pela primeira vez, que as dioceses estudarão compensações económicas com as vítimas que se dirijam a elas, mas vão avaliar caso a caso.

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